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O Ator Social na Sociologia Contemporânea de Bourdieu e Touraine

Sociologia

A ação dos agentes ou atores em face de estruturas sociais determinadas e com vistas a mudanças sociais é uma discussão que remonta ao pensamento sociológico clássico.

A ação dos agentes ou atores em face de estruturas sociais determinadas e com vistas a mudanças sociais é uma discussão que remonta ao pensamento sociológico clássico. Marx, baseado numa concepção materialista da história, defendia que os fatores determinantes da mudança social eram os de ordem econômica. Assim, as classes sociais ocupavam o centro de sua teoria, sendo a própria história humana a história da luta de classes.   Weber embora influenciado pelas idéias de Marx na medida em que pensa uma sociologia voltada para mudança social, questiona a concepção materialista da história e defende que as idéias e os valores são tão importantes quanto os fatores de ordem econômica, mas diferentemente de Durkheim e Marx, que consideravam as estruturas sociais como exteriores e independentemente dos indivíduos, Weber defendia que, ao contrário, as estruturas na sociedade eram formadas por uma complexa interação de ações. (GIDDENS, 2005, p. 33). 

Sobre essa discussão, pensadores contemporâneos trazem questões teóricas importantes na medida em que repensam a ação de agentes/atores sociais e as possibilidades de mudança em meio a uma estrutura ou sistema social. Conforme Cuin e Gresle (1994, p.264) dos quatro paradigmas que hoje dividem o campo sociológico (estruturalismo genético, accionalismo, modelo estratégico e individualismo metodológico) todos reintroduzem explicitamente o ator, embora concedendo-lhe um lugar maior ou menor de análise. Para Pierre Bourdieu o ator é um “agente”; para Boudon ele se torna um “átomo” do social; em Michel Crozier ele se transforma em “estratego” de um jogo institucional, por fim, o ator de Alain Touraine compartilha com o ator de Bourdieu uma situação de conflito que emerge de relações de dominação, e com Crozier um estatuto de ator coletivo, o qual reconhece em si mesmo interesses e projetos próprios.    

No entanto, o ator em Touraine age com vistas à transformação de uma ordem, o que em Bourdieu permanece transcendente ao “agente”, e o qual o ator de Crozier apenas negocia.  Não se pretende, neste texto, aprofundar a noção de ator social nestes quatro paradigmas, mas ressaltar, especificamente, a ação dos atores em Bourdieu, e, sobretudo, em Alain Touraine, na medida em esse autor traz conceitos e questões que permitem pensar relações sociais próprias de contextos latino-americanos. Bourdieu (1983) ao atribuir maior ênfase na reprodução das relações sociais defende a existência de um habitus incorporado pelos agentes como esquemas de apreensão de uma estrutura objetiva, habitus que é construído no interior de um campo social onde os agentes ocupam determinadas posições segundo a distribuição dos diferentes tipos de capital (econômico e o cultural), e que são reveladoras de relações de dominação. Nesta perspectiva cabe-se perguntar sobre o lugar da mudança social na teoria bourdieusiana.

Ortiz (1983, p.26) ressalta que na teoria sociológica desenvolvida por Bourdieu a questão da mudança não assume importância fundamental,  mas trata-se de acentuar, sobretudo,  as relações de poder presentes no mundo social, assim como a reprodução de uma estrutura objetivada  interiorizada pelos agentes.  Diferentemente de Bourdieu, outra perspectiva de análise que será aqui destacada é a que trata do ator social enquanto um agente de mudança.

Nesse sentido, para Alain Touraine (1998, p.37) o ator social é alguém que, “engajado em relações concretas, profissionais, econômicas, mas também igualmente ligado à nacionalidade ou gênero, procura aumentar à sua autonomia, controlar o tempo e as suas condições de trabalho ou de existência. Este autor, ao considerar o caráter de historicidade e mudança presente nas relações sociais, questiona a integração e estabilidade anunciada pela sociologia clássica, sobretudo a funcionalista, e ao enfatizar o aspecto de mudança social dialoga com Marx, embora aqui mudança social seja concebida de um ponto de vista  macrossociológico,  mas sobretudo com Weber.  

É no início dos anos 80, na França, com ideologias políticas e nacionais baseadas na idéia de progresso e modernização desfeitas, e que definiam o ator social como um cidadão, estando a liberdade individual  inseparável da participação na vida coletiva,  que impõem-se a necessidade de uma nova   representação da vida social  (TOURAINE, 1984, p.9).  No entanto, isto  não significaria  a emergência de um modelo  de análise do ator sem referência ao sistema social, mas a proposição de uma substituição de noções como sociedade, evolução e papel, por uma representação da vida social cuja  ênfase maior é nas noções de historicidade, movimento social e sujeito. (idem, p.11).   Partindo desta perspectiva, o essencial é que a superação crescente entre o ator e o sistema seja substituída pela sua interdependência, a partir da idéia de sistema de ação. Isto quer dizer, segundo Touraine, que ao contrário da sociologia clássica, onde se unia cultura, organização social e evolução na constituição de grandes conjuntos, denominados sociedades, devem-se separar essas categorias a fim de se criar um espaço de problemas para instalação da sociologia. 

Primeiramente, a cultura, que deve ser entendida como um desafio, um conjunto de recursos e de modelos onde os atores sociais procuram gerir, controlar, apropriar-se ou cuja transformação e organização social negocia entre si. As suas orientações são determinadas pelo trabalho coletivo, pelo nível de ação ou nível de historicidade (produção de si), que as coletividades exercem sobre si mesmas.

Nesta perspectiva, defende o autor que, assim como é importante à reconstrução das relações entre cultura e sociedade, igualmente importa a transformação das relações entre estrutura social e desenvolvimento histórico. Mas, enfim, quem são atores sociais de que Touraine fala? Para esse autor, que tem como referência de análise a sociedade industrial, o movimento operário aparece como um ator central, tendo claro, no entanto, que ao contrário de décadas passadas em que o ator social falava em nome da História e do progresso, a referência, a partir dos anos 80, passa a ser falar em seu próprio nome, como sujeito determinado. Mais recentemente, o sujeito mulher aparece como foco de intervenção sociológica de Touraine (2009), assim como outros grupos tidos como minorias sociais, como os homossexuais e os jovens.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco zero, 1983.

CUIN, Charles-Henry, GRESLE, François. História da sociologia. São Paulo: Ensaio, 1994. p. 263-269. (Cadernos Ensaio, série pequeno formato).

GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4 ed. Porto Alegre: editora Artmed, 2005.

ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: editora Ática, 1983. (Coleção Grandes Cientistas Sociais, nº39).

TOURAINE, Alain. Pensar outramente: o discurso interpretativo dominante. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

___________. Igualdade e diversidade: o sujeito democrático. São Paulo: EDUSC, 1998.

 ________. O retorno do actor: ensaio sobre sociologia. Lisboa: Instituto Piaget, 1984. (Coleção Economia e Política).        

Graduada em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela UFC. .


Publicado por: Maria Alda de Sousa

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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