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As faces da beleza

Sociologia

Artigo sobre o filme "American Beauty" do diretor Sam Mendes, seus personagens, história,...

As Faces da Beleza - Artigo sobre o filme "American Beauty"

“Uma razão de ser do aspecto coercitivo da cultura confere a organização social seu estatuto de compromisso precário: o homem não pode viver plenamente feliz nela, mas não consegue sobreviver sem ela”.
(Sigmund Freud, “O mal-estar na civilização”)

“Essa felicidade que supomos (...)

Existe sim: mas não a alcançamos

Porque sempre está onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos”.

(Vicente de Carvalho, poeta brasileiro)

American Beauty (Beleza Americana), do diretor Sam Mendes, é muito mais que uma ficção e a sua beleza vai muito além do significado estético figurativo dos dicionários.

As duas epigrafes que abrem minha resenha ilustram a discussão filosófica e social que a película propõem.

O titulo do filme apresenta uma ambigüidade proposital. A “beleza americana” pode está se referindo a beleza física e sexual, assim como, a uma rosa, muito cultivada nos EUA, que não tem espinho, nem cheiro, uma metáfora sobre o “vazio” do cidadão americano comum (a beleza da vida diária, ou a sua falta).

“Beleza Americana” coloca em xeque-mate o “american way of life” (jeito americano de viver), com ironia, sarcasmo, ceticismo e critica profunda da estrutura sociológica da modernidade, dos indivíduos e seus conflitos psicossociais. Coloca em xeque-mate a falsa sociedade, sua hipocrisias, a sexualidade, a sociedade de consumo, os estereótipos da beleza e as relações humanas.

O filme é um convite para refletirmos sobre a artificialidade da vida e sobre a “coisificação” humana no mundo globalizado construído por propagandas, o que nos remete a um discurso existencialista de quem realmente somos, se somos verdadeiramente alegres e, sobretudo, se gostamos de quem (ou, o que) somos.

O filme destaca uma típica família americana de classe media. Narrado postumamente por Leter Burnham, pai de família, meia-idade, executivo de trabalho exaustivo. Sua família é composta por Carolyn, esposa adultera, e Jane, típica adolescente insegura.

As cenas de masturbação de Lester representam a ideologia do filme e sua condição naquele momento: uma vida sem orgasmo (simbolicamente e literalmente falando), uma vida de voyeurismo.

Lester era definitivamente “odiado” pela família, vivia um casamento de fantoche, não conversava com a filha. A hora do jantar era um momento de mesmice e tédio. Não havia diálogo. Lester era um marido fracassado, um pai fracassado – um homem fracassado.

Lester era uma metáfora de todos nós. Sobrecarregado por anos de rotina, condicionamentos sociais, preocupação com objetos materiais que compramos durante a nossa existência e com aqueles que ainda não adquirimos, perdendo assim o entusiasmo de viver.

Sua esposa, Carolyn, é obcecada pela boa imagem, pelo profissionalismo de sucesso. Consumir era seu jeito de se sentir bem em harmonia com a sociedade, mas no fundo era frustrada e desestruturada. Tentava preencher a vida adquirindo “coisas”, tentando produzir uma sensação de bem-estar. Começa a trair o marido com o próspero correto de imóveis, Buddy Kane, homem que esbanja imagem e status quo.

Sua filha Jane é completamente insegura, na aparência e na personalidade. Sua amiga é Ângela, verdadeira beleza americana que odiava as “pessoas comuns”, caricatura da “american girls” (menina americana), sedutora e (in) experiente.

É por Jane que Ricky, seu novo vizinho, começa a se interessar. Ricky tinha o estereótipo de “louco”, pois não era compreendido pela cultura social, ou mesmo, a cultura social não o compreendia, mas não tinha nenhum problema mental patológico. Ele observava toda a vida com as lentes da sua câmera de vídeo, era um prolongamento de seu corpo, uma simbiose, sempre se mantendo afastado. Pois é na simplicidade de Jane que ele encontra sua maior beleza. Uma das cenas mais filosóficas do filme é a que Ricky mostra para Jane o que ele considera sua filmagem mais bonita: um saco plástico. Um saco plástico “dançando no vento” com a sua “eletricidade”. Essa cena é a metáfora da felicidade, que está nos lugares mais simples, é, sobretudo, metáfora da beleza, que está nos olhos de quem vê. A beleza é dialética, mas após assistir ao filme posso dizer que podemos chamar de beleza aquilo que merece ser lembrado.

Ricky era viciado em drogas e vivia sobre a rígida disciplina militar do seu pai, Coronel Frank Fitts. Frank era um neurótico, homofóbico, que jamais permitiria que seu filho fosse gay, na verdade, era um hipócrita que escondia sua maior fraqueza. Nas primeiras cenas do filme ele é recepcionado na vizinhança por um casal gay, que são tratados a base de clichês e preconceitos, no entanto acho que o casal gay, é o único do filme, verdadeiramente sincero e saudável. Pertencente a marinha americana, Frank, era admirador do nazismo, e espancava seu filho constantemente. Sua esposa, mãe de Ricky, tem uma espécie de Alzheimer, mas percebe-se que ela utilizava isso como um mecanismo de fuga da realidade, a omissão.

É na escola de sua filha, numa coreografia esportiva, que Lester se apaixona por Ângela, amiga de Jane. É nesse momento que Lester vê uma solução para sua vida mecanizada, uma paixão. A projeção dessa figura no seu subconsciente é metaforizada pelas rosas vermelhas.

Lester percebe que não vive com honestidade, com comunicação. Sente que não é capaz de dizer o que realmente quer e fazer o que realmente quer. Quando conhece Ângela, ele entra em metamorfose. Ângela não é apenas um objeto de tesão sexual, é um objeto de liberdade para Lester. Exatamente nesse encontro Lester sente um desejo de transformação, e ao mesmo tempo em que coloca esse desejo em movimento é colocado em movimento pelo seu desejo.

Lester definitivamente extrapola as conveniências sociais. Vai trabalhar numa lanchonete, como na adolescência; começa a fumar maconha; troca a música clássica dos jantares por sucessos do seu tempo, como os Beatles; e compra um carrinho de brinquedo!

Ricky após apanhar do pai e ouvir da boca dele que “prefere ter um filho morto a um filho veado” pedi para Jane que fuja com ele, e ela vendo o relacionamento em sua família acabar, aceita. O Coronel Frank imaginando que Lester era homossexual dá um beijo nele e após se frustrar volta para casa chorando. Carolyn é abandonada pelo “rei dos imóveis” e influenciada pelos livros de auto-ajuda decide resolver seus problemas assinando seu marido, mas não irá conseguir concretizar seu desejo. Ângela após ser menosprezada pelo namorado da amiga tenta resolver sua frustração emocional transando com Lester. Ele tem tudo que sonhou, mas ao descobrir que ela é virgem, percebe a loucura que ia fazer e desconfia que não é mais o garoto de anos atrás. E para encerrar a trama, em um momento de nostalgia enquanto observa um retrato de família, Lester é assassinado por Frank, que num momento de desespero tenta recuperar sua honra, restaurando sua “masculinidade”.

Segundo o critico de cinema Carlos Bernardi: “Lester morreu, é verdade, mas de certa forma, já estava morto antes. No fundo, aceitou os ricos para poder viver com intensidade”.

Não existem na teia dramática do romance, personagens principais, todos eles são fundamentais para a estrutura dos conflitos. Sobretudo os personagens são espelhos de nós mesmos, com certeza nos identificamos com alguns deles, ou mesmo, já conhecemos alguns deles na nossa vida diária. O filme parece simples, mas só depois percebemos sua complexibilidade sociopsicológica, seus dilemas, e de certa forma, nossas hipocrisias, nossos medos e inseguranças. Certa vez meu avô me disse que dizer que somos hipócritas diminui nossa hipocrisia. Mais do que ficção, Beleza Americana, é uma fotografia da sociedade contemporânea, uma indagação sobre sua beleza de Narcíseo.

Como diria Chaplin: “Só a beleza e a sinceridade podem alcançar a felicidade”.


Publicado por: Waldir Araújo Carvalho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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