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A maior loucura

Psicologia

A loucura sob vários aspectos, o que define um louco segundo o autor, projetos sociais em manicômios.

Em um trecho da canção “Vaca Profana”, o cantor e compositor Caetano Veloso diz que “de perto ninguém é normal”. De fato, é difícil apontar alguém que não tenha as suas manias ou os seus momentos de desequilíbrio emocional, nos quais se perde – mesmo que por alguns instantes – o fio condutor da razão. Ser louco pode significar, em algumas circunstâncias, ter coragem de tomar decisões ou de dar um passo na vida até então tidos como impossíveis... Ser louco pode implicar ainda adotar um pensamento ou uma conduta que venham a ferir os parâmetros convencionais de normalidade de uma sociedade.

“Mais louco é quem me diz e não é feliz”, eternizaram Arnaldo Baptista e Rita Lee na música “Balada do Louco”, retrucando nitidamente o rótulo ganho por eles e seus companheiros dos Mutantes – uma das melhores bandas nacionais de rock que já se teve notícias. Ter um comportamento incompreensível para o próprio tempo em que se viveu pode resultar exatamente em rótulos que demoram para ser desfeitos. Antes de chegar a ser apontado pelas religiões ocidentais como o maior mártir de todos os tempos, o Jesus histórico foi, antes, tido como um louco por inúmeros de seus contemporâneos.

Nas cartas do Tarô a figura do Louco pode ser entendida, num certo aspecto, como aquele que se desprende de tudo e de todos em busca da aventura maior que é encontrar a si mesmo. Este árduo encontro, muitas vezes, pode mesmo significar um tipo de isolamento, de parada para um auto-conhecimento. E o que há de loucura nisso? Talvez o próprio ato de sair de dentro da engrenagem que move o cotidiano das pessoas!

Até o momento abordei basicamente uma forma parecida de enxergar a loucura. No entanto, há ainda aqueles que perdem todas as referências da realidade, seja por problemas hereditários, seja por qualquer outro que os faça perder suas faculdades mentais. Estes, quando não são criados desmazeladamente por suas famílias, terminam seus dias nos manicômios, que, em sua maioria, existem como verdadeiros depósitos de doentes. Isso para não falar dos métodos brutais que já fizeram história em inúmeras reportagens de denúncia da mídia escrita e televisada, a exemplo do uso de eletrochoques e de remédios dopantes, além do abandono que coloca muitos pacientes na condição de bichos relegados.

Felizmente, existem trabalhos sendo realizados nestes lugares por pessoas sérias, que parecem apontar saídas para os que já foram excluídos pela própria natureza – presos em suas próprias dificuldades físicas – e que receberam uma punição ainda mais cruel pela sociedade em que vivem. No Instituto Philippe Pinel, no Rio de Janeiro, os pacientes podem resgatar sua auto-estima e, por que não, um elo com o mundo exterior, através de aulas de informática e cidadania. O projeto chegou a um dos manicômios mais conhecidos do país através da ajuda do CDI-Comitê pela Democratização da Informática, uma ONG que estrutura escolas de informática em comunidades carentes.

O projeto tem levado doentes mentais a aprenderem a manipular programas de desenho, possibilitando que eles encontrem outras formas de se expressar. São iniciativas como esta que fazem o ser humano se aproximar de um caminho mais nobre e mais estreito às soluções para grande parte de seus problemas.

A maior loucura não está dentro dos hospitais psiquiátricos ou andando sem rumo pelas ruas das cidades do mundo. Está nos atos tidos como racionais, de pessoas tidas como normais, que só provocam a desigualdade, a miséria e a infelicidade, mas que são postos em prática em nome da ordem e do progresso.


Publicado por: Roberto D´arte

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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