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O Ecomuseu como ferramenta pedagógica e de integração

Pedagogia

Saiba o que é um Ecomuseu e como ele pode ser utilizado como ferramenta pedagógica e de integração.

“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele...” Hanna Arendt

INTRODUÇÃO

De acordo com Thompson (1992) é por meio da história que as pessoas comuns procuram compreender as “revoluções” e mudanças por que passam em suas próprias vidas: transformações sociais, culturais, guerras, mudanças comportamentais, econômicas, transformações tecnológicas etc. Através da história local, um bairro ou uma cidade procura um sentido para sua própria natureza em mudança, em constante transformação e assim estabelecem-se os vínculos. “Ter controle sobre o patrimônio é ter controle sobre a lembrança” (MAGALHÃES, 2009: 35).

Em um mundo multimídiático, em que a velocidade e a quantidade de informação confundem e podem até mesmo alienar e acabar “desinformando”, são necessários saberes organizados, dinâmicos e integrados, a educação precisa estar em sintonia com o contexto histórico, político e social, viabilizando ao estudante compreensão da realidade em que vive de forma abrangente.

A escola é, em nossa concepção, um lugar onde além de se transmitir conhecimentos, formam-se cidadãos, sendo assim, acreditamos que ela deve ser capaz de oferecer uma base cultural comum a todos os alunos, pois na escola os alunos formam suas identidades no âmbito individual e coletivo e estabelecem relações com diferentes grupos sociais, assim inicia-se a chamada socialização secundária. O processo ensino/aprendizagem deve incluir variadas possibilidades pedagógicas que estimulem um olhar mais amplo sobre a diversidade cultural.

Ensinar exige o uso de vários tipos de ferramentas educacionais. Algumas são uma necessidade, e outras tornam o ensino e a aprendizagem muito mais interessantes. Muitas ferramentas pedagógicas são usadas para auxiliar no processo ensino-aprendizagem, enquanto outras são usadas para a organização e preparação docente. Buscamos aqui, a partir da experiência de alguns professores que atuam em escolas da rede pública estadual e municipal, bem como particulares, localizadas no bairro de Sepetiba, Zona oeste da cidade do Rio de janeiro e imediações, explicitar a “utilização” do Ecomuseu enquanto ferramenta pedagógica de extrema valia para o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Entendemos aqui Ferramenta pedagógica como uma expressão de significado amplo, como facilitadora da aprendizagem, sabendo que para fins pedagógicos essas ferramentas dependem muitas vezes da intenção de quem as está utilizando, com quais objetivos, estratégias e qual é o público especifico que se deseja atingir.

Os museus locais, de perfil comunitário buscam, com a participação da população, ter o museu como um importante instrumento para o desenvolvimento e para o entendimento de sua realidade. Apreender seu território, sua paisagem, seus patrimônios, suas memórias, suas histórias, conhecer a si mesmo, e a partir dai revigorar a autoestima, elemento basilar para que ocorra um diálogo mais democrático, que permita escutar os ecos do silêncio, bem como para que se permita rejeitar os moldes impostos há muito tempo pelos centros hegemônicos de poder, que construíram ideologias que marginalizam as culturas das populações menos favorecidas.

A educação patrimonial, em nossa concepção, possui caráter formador de identidades, e, o que propomos aqui é transformar o saber escolar, torná-lo um saber relacionado com as necessidades específicas da localidade, para que a bagagem adquirida na escola permita que o aluno, o cidadão, intervenha positivamente e seja produtivo no meio social, a partir de um trabalho de cooperação entre o museu comunitário ou Ecomuseu e a escola.

JUSTIFICATIVA

A educação é componente consubstancial de qualquer política de desenvolvimento, não só como bem em si e como mais eficaz instrumentação de cidadania, mas igualmente como o primeiro investimento tecnológico. Segundo essa linha, o educador passa a ser o problematizador que desafia os educandos que são agora investigadores críticos, permeados por constantes diálogos, pois a educação como prática de liberdade deve negar o conceito de isolamento e abstração do ser humano, assim como tornar o mundo uma presença constante em seu diálogo.

Segundo Freire (1987), "ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo", ou seja, a educação problematizadora é como prática de liberdade; exige de seus personagens uma nova concepção de comportamento. Ambos são educadores e educandos, aprendendo e ensinando em conjunto, mediatizados pelo mundo. Aprender é apenas meio. A qualidade da formação básica é o fator modernizante mais eficaz da sociedade.

Do vínculo com o passado se extrai a força para a formação da identidade (Bosi, 2004, p.16), partindo desta afirmativa de Bosi, pretendemos estimular os alunos/cidadãos e interagir a partir das ações realizadas pelo Ecomuseu de Sepetiba em parceria com as instituições educacionais locais, públicas e privadas da localidade, visando o despertar do educando para sua realidade, bem como para a importância de sua participação e influência no meio em que vive, e claro buscar uma participação efetiva dos alunos não só como aprendizes, mas também como “agentes”.

O patrimônio cultural em seu aspecto histórico sempre esteve ligado ao processo educacional e de formação de identidades, neste contexto ele surge como ferramenta de representação da memória, o patrimônio representa momentos históricos e a maneira pela qual o “deciframos” e compreendemos é o sentido que atribuímos a ele; nesta perspectiva uma interpretação tradicional sobre o patrimônio possui, a nosso ver, caráter alienante, onde o interesse das classes dominantes acaba por sobrepujar a memória social.

Para atingirmos tal objetivo, a educação patrimonial abre um leque de possibilidades para construção das identidades e memórias coletivas e de noções que envolvem o exercício da cidadania, como os direitos humanos e os valores da alteridade, da ética, da solidariedade, além disso, a educação patrimonial tem o papel de conscientizar os alunos da responsabilidade de cada um pelo bem da coletividade. Nas palavras de Odalice Priosti, o Ecomuseu “ao labutar em favor do desenvolvimento da comunidade, deve levar em conta os problemas e questões colocadas em seu âmago, tratando-os de maneira crítica analítica e estimulando o processo de conscientização, mobilização e a criatividade da população, para isso utilizando as informações do seu passado e presente para que ela venha a pensar o futuro de forma questionadora e esperançosa. Ainda de acordo com  Odalice Priosti o Ecomuseu “é um espaço de relações entre uma comunidade e seu ambiente natural e cultural, onde se desenvolve, através das ações de iniciativa comunitária, um processo gradativamente consciente e pedagógico de patrimonialização, apropriação e responsabilização dessa comunidade com a transmissão, cuidado e transformação do patrimônio comum e, consequentemente, com a criação do patrimônio do futuro.

Sendo assim, o Ecomuseu adquire uma função educativa, ao viabilizar que os sujeitos envolvidos possam desenvolver o senso critico, ou seja, o Ecomuseu “educa” através da conscientização e da reflexão.

“(...) todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje (...). Temos de saber o que fomos para saber o que seremos”. (FREIRE, 1982, p. 33). Ensinar não é transmitir dogmaticamente conhecimentos, mas dirigir e incentivar com habilidade e método, a atividade espontânea e criadora do educando. Nessas condições, o ensino compreende todas as operações e processos que favorecem e estimulam o curso vivo e dinâmico da aprendizagem (Santos 1961). O Ecomuseu deve ser uma expressão do homem e da natureza. Por isso, o objeto neste contexto não é apenas o homem ou o meio ambiente que o cerca, mas a relação que se dá entre os dois e todas as possíveis relações entre o homem e o Real que acontecem no território determinado.

Seguindo o pensamento de Odalice Priosti, ponderamos que a ideia de práticas de liberdade e de “ações culturais libertadoras”, propostas por Freire, podem ser empregadas também para pensar a libertação das subjetividades através de práticas criativas e inventivas, que se disseminam rizomaticamente pelo campo social, almejamos ponderar uma libertação que não derive apenas de relações de oposição, mas que seja também uma libertação das subjetividades naquilo que elas possuem de mais inventivo e singular.

A museologia da libertação seria, a nosso ver, o processo pelo qual as comunidades podem construir uma memória enquanto resistência, uma memória que não se sujeita a um modelo que lhe foi imposto, mas que com ele negocia, imitando-o e diferenciando-se dele de múltiplas maneiras. Numa outra perspectiva, a própria criação de museus por iniciativa das comunidades reforça a ideia de que a libertação de que tratamos aqui se refere também à libertação das forças vivas, endógenas da comunidade no seu exercício de subjetivação. Para isso propomos que os alunos/educandos sintam-se parte de todo o processo museológico, que participem, que reconheçam e auxiliem na construção do “seu museu”, uma vez que um Ecomuseu nunca está concluído, justamente por ser endógeno e emanar do amago da comunidade, de seus anseios, necessidades e esperanças.

Experiências enriquecedoras: Criando conexões – o Ecomuseu como ferramenta de integração e pedagógica

A museologia da libertação representa uma produção de processos museológicos diferenciados, “os novos museus” – museus que colocam os sujeitos no centro de sua preocupação, em vez dos objetos e das coleções que eles produziram. Ou seja, são museus nos quais a intenção primeira não é a conservação ou a sobrevida dos bens de uma coleção ou de uma coleção de patrimônios, mas, primordialmente, o desenvolvimento de uma comunidade consciente e responsável para “o agir” e “o criar”, capacitada para a construção de sua memória e para o exercício da cidadania. Portanto, estamos tratando aqui de criação, onde os fatores essenciais e determinantes são as singularidades de cada comunidade. É nesse sentido que o exercício da “escuta” é adotado como o método nos ecomuseus e museus comunitários e neste sentido a “Escola” é fundamental.

Educar, enquanto ação regulamentada que acontece dentro ou fora da esfera escolar, não pode estar isolada do contexto social em que os sujeitos estejam incluídos, envolvidos, devemos então ter como ponto inicial a compreensão da realidade prática e democrática, ou seja, uma educação que tenha um significado real na vida do educando, tangível, através da sua participação ativa no ato de aprender. Esta comunicação eficaz entre os indivíduos é possível apenas em um ambiente abalizado nos princípios da democracia, o diálogo só é possível quando todos os envolvidos são respeitados, esse ambiente de reciprocidade é a característica necessária ao trabalho educativo em um museu de comunidade, para que o aluno, através do reconhecimento do seu direito de participação, possa se compreender como parte de um grupo único e diverso, um cidadão independente e consciente do seu papel, que está inserido numa comunidade dirigida por direitos e deveres, onde o patrimônio é um elo entre os indivíduos.

Nossa riqueza patrimonial está relacionada a todas as áreas do conhecimento, assim, o estimulo ao desejo de conhecer e de compreender, o desenvolvimento de ações para valorizar e preservar nossos bens culturais e o incentivo a sentimentos de pertencimento a um lugar compõe movimentos essenciais que podem ser trabalhados não só pela área de história como também estendidos a todos as outras áreas do conhecimento que formam o currículo escolar, em suas múltiplas possibilidades, o trabalho com o patrimônio histórico, ambiental e cultural deve ser contemplado como parte do projeto político pedagógico da escola.

A educação patrimonial possibilita ao aluno perceber que os patrimônios fazem parte de nossa história, tal percepção lhe propicia a oportunidade de conhecer e vivenciar os costumes, a natureza e a cultura local, construindo vínculos de afetividade e de sintonia com as pessoas e o lugar onde vive. O acesso ao conhecimento e às vivencias relacionadas às diversas manifestações culturais ajudam o professor a explorar a percepção e o entendimento sobre o que vem a ser patrimônio cultural, histórico e ambiental como prática social.

Estratégias/ Objetivos gerais e específicos

Um dos objetivos principais deste projeto é levar o aluno a compreender que faz parte de uma coletividade e quem tem responsabilidades. Acreditamos que ao perceberem-se e aceitarem-se como parte de uma comunidade, passam a mensurar a importância do outro, e consequentemente assumem sua responsabilidade no âmbito coletivo enquanto cidadãos, os educandos/alunos identificam-se como parte de um grupo social, indivíduos que estão inseridos numa comunidade com determinada cultura, em determinado momento histórico, a colaboração é percebida então como uma ferramenta de integração, que irá viabilizar o contato entre os sujeitos em benefício de algo interessante a todos. O museu poderá, a partir de então, ser verdadeiramente abarcado como uma unidade integrada, constituído através da participação de todos os cidadãos.

Propomos aqui algumas estratégias/etapas para realização deste projeto:

Realização de rodas de lembrança/ Roda de conversas:

1 - é de suma importância que o trabalho pedagógico, especialmente com a educação patrimonial tenha como ponto de partida os conhecimentos prévios dos educandos/alunos. Para tanto, o professor (a), em parceria com o educador do ecomuseu indagará os educandos sobre as manifestações culturais que eles conhecem, esse procedimento os auxiliará a identificar os bens culturais que os cercam ou que são por eles conhecidos, o objetivo é introduzi-los a temática do patrimônio cultural.

2 - A partir das manifestações dos educandos/alunos acerca dos patrimônios culturais que conhecem deve-se listá-los, buscando caracterizá-los para que eles possam identificá-los como sendo materiais ou imateriais, tangíveis ou intangíveis, objetivando a construção de uma classificação ou categorização inicial, exemplificando manifestações do patrimônio cultural.

3 - Em seguida é importante que os educandos/alunos sejam questionados sobre a importância dos itens apresentados na lista para a comunidade em que vivem, para a cidade, para o país, objetivando provocar a reflexão sobre os valores atribuídos aos bens listados. (desenvolver a ideia de patriminio, valorização dos referenciais)

4 - O (a) professor (a) e o (a) educador (a) do ecomuseu, podem escolher um objeto, um item da lista para ser trabalhado como objeto de memória, construindo uma espécie de inquérito de investigação com perguntas do tipo: “onde e quando foi feito?”, “qual o aspecto físico deste objeto?”, “Ele tem valor monetário?”, “qual o seu valor?”. A partir disso, dividi-los em grupos e orientá-los a criar organogramas dos objetos listados por eles.( Inventário)

5 - Realização de entrevistas: a proposta é escolher um grupo de moradores mais antigo do bairro/ localidade e fazer entrevistas com eles, a fim de desvendar um pouco da rede cotidiana da história e da memória local. Será necessário cumprir as seguintes etapas: A- Definição de número de entrevistados e critério de escolha dos moradores a serem entrevistados;

B - elaboração do roteiro de entrevistas, com as perguntas e a explicação da finalidade da atividade – após a realização das entrevistas os educandos/alunos devem transcrevê-las – será necessária a confecção de um texto, onde o aluno/educando deverá relatar como se sentiu ao ter contato com a memória da comunidade e transcrever e analisar os trechos mais marcantes das entrevistas. (as entrevistas poderão ser realizadas no mesmo dia da roda de conversa).

6 - Construção de uma “caixa de lembranças”, da família, da escola, da igreja, fica a critério dos alunos, da turma, dos professores. Os alunos devem ser orientados a escolher evidências que possam ajudar a contar a história da família, da escola, da igreja, do bairro etc. essas evidências podem ser fotos, objetos, utensílios, roupas, uniformes, jornais, brinquedos, livros, cadernos, documentos etc. os alunos devem listar os objetos atribuindo a cada um deles um comentário explicando a razão pela qual foi inserido na caixa.

7 - Realização dos passeios de reconhecimento – em primeiro lugar o professor deve buscar textos geradores que darão subsídios ao conhecimento da história e memória local, esses textos devem ser lidos e debatidos – Devem ser considerados alguns pontos: quem é o autor do texto e qual o seu papel na comunidade – quando o texto foi escrito – onde foi veiculado e qual a sua finalidade – em seguida deve ser feita a discussão sobre o trabalho de campo ( o passeio de reconhecimento) materiais necessário ( máquina fotográfica, celular, etc.) – em seguida cada grupo deve realizar um texto coletivo e uma “mostra” de fotografias tiradas por eles.

Acreditamos que é possível envolver os professores de todas as disciplinas do currículo no projeto, a avaliação dos alunos/educandos ficará a critério de cada professor, entretanto a participação do educador do Ecomuseu nas etapas 4, 5,6 e 7 é de suma importância, pois a orientação de quem já realiza um trabalho de inventário, de reconhecimento e conscientização se faz imprescindível neste momento.


Publicado por: Bianca Wild

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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