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A História Ambiental e a Educação Ambiental como Ciência Social

História

A História Ambiental está relacionada com um espaço, tornando explícito a história de um lugar com toda a sua cultura material

INTRODUÇÃO

A História tem passado nas últimas décadas por uma profunda “revolução”. Temas objetos, conceito, métodos e técnica de análise tem se modificado e diversifica levando a História a perder as características de ciência descritiva que a marcaram por um longo período, dentro deste princípio gostaríamos de propor um diálogo entre a história e sua jovem cria, uma disciplina nova e ainda pouco conhecida no Brasil – a História Ambiental.

Este novo campo do conhecimento vem sendo construído há cerca de quinze anos, praticado principalmente nos EUA na Austrália e em alguns outros países de língua inglesa, começa a surgir ainda de forma incipiente no Brasil no final da década de 90, até porque nas duas décadas que a antecedem a melhor História do Brasil foi feita com forte sotaque inglês, o regime militar havia sufocado a pesquisa acadêmica: acervos foram fechados, documentos jogados às traças, professores se exilaram ou foram expulsos; somente uma pequena casta de especialistas encontrava espaço para atuar e mesmo entre estes, o estudo sobre o meio-ambiente não era prioridade.

Ao entrarmos no século XXI, percebemos uma migração do foco de interesse; até pouco tempo o assunto tradicionalmente importante aos historiadores era a política, a economia; conseqüentemente o único campo que merecia interesse era o Estado Nacional, ou seja, a temas relacionados com o funcionamento das instituições formadoras do Estado, mas há algum tempo assistimos ao florescimento de estudos das Ciências humanas e Sociais neste contexto os historiadores começam a abandonar um pouco a certeza de que o passado teria sido tão integralmente representado por poucos indivíduos ou tão-somente por interesses do Estado, começam a “desenterrar” camadas de história da vida e pensamento das pessoas comuns e reconceituam a História de baixo pra cima.

Esta nova História totalizante, globalizante, interdisciplinar em oposição à historiografia tradicional traz consigo um novo conceito sobre o meio ambiente – é nesta visão que a História Ambiental se insere – ao tratar o papel da natureza na vida humana, como um agente e presença histórica, impõe uma visão global, à medida que fenômenos que ocorrem ou ocorreram no meio ambiente não ficam restritos ás fronteiras dos Estados nacionais; ao tentarmos entendê-los e associá-los à evolução das práticas sociais, precisamos ter uma visão mais integrada do mundo, não mais restrita a fronteiras políticas, ligando assim a história natural a história social.

A característica básica da História Ambiental e da Educação Ambiental, que atuam nos questionamentos científicos e técnicos sobre preocupações sociais, econômicas, e políticas a respeito do tema ecologia e meio ambiente, objetivando criar uma visão interdisciplinar, interessada em tratar do papel da natureza e do lugar na natureza na vida humana e na história do Homem.

Como campo do conhecimento visa romper com a dicotomia homem – natureza e retirar as questões meramente ambientais de seu gueto. O historiador ambiental não pode se dar ao luxo de fazer dos problemas epistemológicos da história um problema científico ou intelectual apenas, é algo que, tendo rompido os muros acadêmicos provoca o historiador, torna-se um problema cívico e até moral, e o instiga a “prestar contas”.

FUNDAMENTAÇÃO HISTÓRICA

Quando o homem descobriu o tempo geológico da Terra, aproximadamente 4,5 bilhões de anos, igualmente descobriu que a presença humana era uma pequena nota de rodapé da última página doe livro da vida planetária.

Há oito mil anos, o Brasil possuía 9,8% das florestas mundiais. Hoje, o país detém 28,3%. Dos 64 milhões de km2 de florestas existentes antes da expansão demográfica dos humanos, restam menos de 15,5 milhões, cerca de 24%%, segundo estudo da Embrapa Monitoramento por Satélite sobre a evolução das florestas mundiais.

Dos 100% das florestas originais, a África mantém hoje 7,8%, a Ásia 5,6%, a América Central 9,7% e a Europa – o pior caso – apenas 0,3%.

O Brasil ainda detém 69,4% de suas florestas originais. O paradoxo é que, em vez de ser reconhecido pelo seu histórico de manutenção da cobertura florestal, o país é severamente criticado pelos campeões do desmatamento e alijado da própria memória.

É certo que um dos primeiros atos dos portugueses que por aqui chegaram em 1500 foi abater uma árvore para montar a cruz, gesto premonitório do resultado da ocupação européia na Mata Atlântica, afinal, já fazia sua primeira vítima há quinhentos anos. Nos cinco séculos que se seguiram, cada novo ciclo econômico de desenvolvimento do país significou mais um passo na destruição de uma floresta de um milhão de quilômetros quadrados, hoje reduzida a vestígios.

Nesse desdobramento trágico de uma lógica sempre apresentada como inexorável pelos defensores da civilização é que nos vemos em meio a uma nova realidade; como se passou do naturalismo à ecologia (termo criado em 1866) e deste á História Ambiental e como evoluiu a história do pensamento sobre as relações homem / natureza?

É fundamental a todo campo do conhecimento que este tenha seus limites bem traçados, que seja bem conhecida a natureza de suas preocupações, que tenha seus objetivos bem definidos e que, ao se fundar, possa trazer uma nova e real contribuição do mundo em que vivemos – condição essencial para o nascimento de qualquer ramo da ciência.

Dessa maneira nenhuma ciência ou disciplina acadêmica pode tomar seu objeto como “dado”. Este que estar claramente definido – em alguns casos, como este precisa efetivamente ser construído – assim como claras devem ser também as razões de tal escolha, de tal forma que o primeiro passo em qualquer processo do descobrimento deve ser a definição de um campo de estudo ou domínio.

A natureza de um domínio e seus componentes sugere quais conceitos formam o corpo técnico e como estes devam ser aplicados, como os objetos que o formam devam ser descritos e como tais descrições possam e devam ser melhoradas e modificadas.

Se, no caso da História Ambiental, esta nova disciplina, se apóia nos métodos e em alguns conceitos de História, por outro lado lembremo-nos que a interdisciplinaridade que caracteriza este novo ramo do conhecimento parece atingir com crueldade esses conceitos, arriscando-se a lançar-lhes no senso comum. Acreditamos, entretanto que a História Ambiental assim como outras áreas do conhecimento terá mais nítido seu objetivo, na medida em que nos permita traçar sua historiografia.

Ainda no alerta interdisciplinar, podemos observar que A História Ambiental inclui diferentes dimensões; daí a dificuldade em reconhecê-lo, classificá-lo ou tentar cercá-lo dentro dos estreitos limites temáticos, como normalmente procedemos com as demais ciências.

Temas, abordagens, objetivos, métodos e formas de narrativa, tudo tem sido construído pouco a pouco, através da elaboração de trabalhos originais e interessantes daquilo que hoje já se pode denominar de “História Ambiental”.

As origens: metodologias, temas

Observando os mentores da “École des Annales” Marc Bloch, Lucien Febvre e, Fernand Braudel, vemos que fizeram importantes caminhadas dentro do que viria a se convencionar como história ambiental: Bloch, com os estudos sobre a vida rural na França; Febvre, com textos sobre geografia social; e Braudel com a concepção de que o ambiente molda o homem – uma história vista do ângulo superior da natureza –, com destaque para a sua obra sobre o Mediterrâneo.  Todavia, viria a ser Aldo Leopold, biólogo e conservacionista, quem lançaria as bases da chamada “Ética Ecológica” com o livro, publicado postumamente em 1949, A Sand Country Almanac (na edição em português: Pensar como uma Montanha).

O ambiente emerge como um pensamento holístico, buscando reintegrar as partes de uma realidade complexa, ambicionando completar as visões parciais e o desconhecimento da natureza. Neste contexto cabem algumas perguntas, qual história é ambiental? É a análise da história do ambiente ou uma nova maneira de olhar a História?

A fim de compreendemos como a natureza se organizou e funcionou no passado, levando em conta o físico o biológico, o natural, torna-se necessário reconstruir a paisagem daquele passado, logo a necessidade de estreitar laços com botânicas, zoologia.

Da mesma forma, seguindo a investigação para o domínio sócio-econômico, precisamos relacionar como interage e modela ferramentas de trabalho, modos de produção, relações sociais, instituições, ou seja, inclui-se o estudo do poder de tomada de decisão de uma dada sociedade referente ao meio ambiente.

Ao limitar um espaço ou um corpo para ser estudado: um vale de um rio, uma ilha, um trecho de terras florestais, um litoral, uma determinada área de ocorrência de um recurso natural de alto valor comercial. As análises, portanto, focalizam uma região com algum grau de homogeneidade ou identidade natural e assim a historiografia ambiental se identificaria também com a história regional.

Já no campo filosófico uma interação tangível e exclusivamente humana na qual percepções, valores éticos, mitos e outras estruturas de significação tomam parte do diálogo de um indivíduo ou grupo social com a natureza.

Observa-se, portanto marcas que facilitam a compreensão do que seja esta ciência, desenvolvimento, ética, econômica, política, antropocentrismo, mitos, religião, elementos que certamente compõe a História.

Segundo Bloch (1974) “A História é a Ciência dos Homens no Tempo”. Essas são as ações que os homens de diversos lugares, em diferentes contextos, faz de tempos em tempos, através dessa temporalidade e que podemos estabelecer relações de permanências e transformações. A História Ambiental não é apenas a abordagem da questão ambiental no tempo em que se encontra o meio ambiente, mas nos leva a pensar historicamente nas relações estabelecidas entre Homem-Natureza.

ATUALIDADE

Análises que privilegiam as relações entre homem e meio ambiente são de grande importância na formação de uma consciência crítica relativamente à importância da preservação do meio ambiente visando uma melhor qualidade de vida. Uma das mais nefastas conseqüências do advento do sistema capitalista foi à aceleração da depredação dos meios naturais. Hoje podemos ver o mundo inteiro, não apenas por nossos satélites, mas no contexto dramático e vertiginoso dos problemas ambientais, a expressão natureza intocada é um mito, nunca houve tal realidade; o homem se considera um ser superior e, portanto acima da natureza não como parte integrante da mesma. Desmata, poluí degrada tudo em seu próprio benefício sem importar com as repercussões que suas ações trarão a posteriori.

Em termos historiográficos Sérgio Buarque de Holanda salientou que as relações com a natureza no Brasil estiveram perpassadas por geração de riqueza ao colonizador. Já Caio Prado Junior observou o caráter predatório das riquezas naturais brasileiras, a serviço do capital Segundo esse autor, esse aspecto de relacionamento homem-natureza, é uma atividade econômica permanente da colonização ao século XX. O historiador norte-americano Warren Dean, por sua vez, enfatizou que as queimadas e o nomadismo da agricultura proferida por latifundiários, no Brasil do século XIX compreendiam os recursos naturais enquanto recursos inesgotáveis. Devido a isso simplesmente negligenciavam a preservação ou mesmo recomposição das condições de disponibilidade desses recursos.

Pensar historicamente a relação Homem-Natureza ajuda-nos compreender, para mencionarmos Braudel (1983), “o evento em longa duração”. O homem sempre considerou a satisfação pessoal e presente no discurso contemporâneo, A pesquisa histórica, entretanto, vem revelando que a preocupação intelectual com os problemas "ambientais" esteve presente, ao menos no mundo de expressão européia, desde o final do século XVIII, ocupando um lugar relevante no processo de construção do pensamento moderno. A grande novidade das últimas décadas esteve na difusão desse tipo de debate para uma parcela muito mais ampla da esfera pública. Os saberes acadêmicos foram desafiados e estimulados por tal movimento. Não é por acaso que nas últimas décadas organizaram-se iniciativas de ensino e pesquisa em economia ecológica, direito ambiental, engenharia ambiental, sociologia ambiental etc. Estabeleceu-se um movimento de mão dupla, em que as produções científicas influenciaram e foram influenciadas pelas ações públicas.

È óbvio que a História Ambiental por si só não resolverá os complexos sócio-ambientais planetários, nem associada à educação ambiental. Mas elas pode influir decisivamente para isso, quando formam cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres. Tendo consciência e conhecimento da problemática global e atuando na sua comunidade, haverá uma mudança no sistema, apesar de não possuir resultados imediatos, visíveis, também não será sem efeitos concretos. E por isso que (Reigota 2003, p.38) nos salienta que:

A educação ambiental não deve perder de vista os complexos desafios políticos, ecológicos, sociais e econômicos que apresentam a curto, médio e longo prazo. permite demonstrar a velocidade em que as mudanças ocorrem e como os acontecimentos estão inseridos em várias temporalidades: a curta duração, a dos acontecimentos breves, com datas e lugares determinados; na média duração, no decorrer da qual se dão às conjunturas, tendências políticas e/ou econômicas, que por sua vez, se inserem em processos de longa duração, com permanências e mudanças que parecem imperceptíveis. É o ritmo das estruturas, tais como a constituição de amplos sistemas produtivos de relações de trabalho, as formas de organização familiar e de sistemas religiosos, a constituição de percepções ecológicas estabelecidas na relação entre homem e natureza.

Por sua vez, os valores da autonomia, da cidadania e da justiça social são considerados princípios básicos da educação. [...]. A autonomia caracteriza as pessoas que tem consciência nítida de sua especificidade em determinada sociedade. A idéia de cidadania baseada na igualdade política entre todos os membros de uma nação enriqueceu-se (p.39). Com a exigência do direito á diferença, que resulta de uma participação política cada vez mais importante, grupos sociais se organizam com base em proposições especificas e romperam com a hegemonia do discurso único (índios, mulheres, idosos etc.).

Reigota (2000, p.08) enfatiza que:

A educação ambiental deve, portanto, capacitar os indivíduos ao pleno exercício da cidadania, permitindo a formação de uma base conceitual suficientemente diversificada técnica e culturalmente, de modo a permitir que sejam superados os obstáculos à utilização sustentável do meio [...]. Nos níveis formais e informais tem procurado desempenhar esse difícil papel resgatando valores como o respeito à vida e à natureza, entre outros, de forma a tornar a sociedade mais justa e feliz.

O debate, homem e natureza, esta perpassado pela temática Educação Ambiental. Essa deve ser entendida por sua dimensão política, no seguinte sentido de reivindicar e preparar os cidadãos para exigir justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza. A educação ambiental como educação política destaca inicialmente ma questão por que fazer, para depois analisar o como fazer. A temática História Ambiental e Educação Ambiental como Ciências sociais, se constituem e se consolidam em um momento histórico de intensas transformações mundiais, tendem a questionar as opções políticas atuais e o próprio conceito de educação vigente, exigindo-a inovadora e crítica.

CONCLUSÃO

A História Ambiental está relacionada com um espaço, tornando explícito a história de um lugar com toda a sua cultura material. Nesse aspecto ela se confunde com as histórias pessoais, com as trocas sociais possíveis entre a cultura visitada. Isso sem contar que ressalta o sentimento de pertencimento que associa o habitat ao lugar. Além disso, História e Educação Ambiental são temáticas que tem muito mais a dizer do que apenas com relação à questão ambiental.

Essas práticas podem e devem ser analisadas levando em considerações as relações: passado x presente, mediante isso podemos perceber as transformações e permanências, pelas quais o meio, assim como o homem, passou; não deve, portanto, ser encarada como um mero movimento de historiadores ambientalistas no seio da história, como um modismo efêmero. É sim um ramo de produção do conhecimento com fundamentais reflexões e embates filosóficos e historiográficos.

Sua real originalidade, não está no nome, mas no ideário de colocar a sociedade na natureza e no equilíbrio com que busca a interação, a influência mútua entre sociedade e natureza no tempo.

BIBLIOGRAFIA

DEAN, WARREN. A Ferro e Fogo. 3.Ed. Cia das letras 2001

CASCINO, FÁBIO. Educação ambiental: princípios, história, formação de professores Ed. SENAC 1999

LEOPOLD, ALDO. A Sand county Almanac. 2Ed. Oxford University Press, EUA2005

BRAUDEL,F. Une vie pour l’historie Magazine Literatire, n212 p.18-24, 1984 DRUMMOND, J.A. A História Ambiental e o choque das civilizações. Scielo : http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X1999000200018


Publicado por: Gisele Finatti Baraglio

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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