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Uma análise da educação brasileira

Educação

Educação promove o desenvolvimento, o crescimento econômico e o progresso de uma nação.

Educação cidadã vs. utilitária

'A educação brasileira nunca foi olhada com prioridade porque foi uma concessão da classe dominante para produzir gente para atuar no mercado de trabalho'. Miguel Nicolelis, neurocientista, afirma, claramente, como a elite brasileira trata, desde sempre, a educação neste país.

É consenso, que a educação promove o desenvolvimento, o crescimento econômico e o progresso de uma nação. De outra forma: seu valor é inquantificável. Mais que isso: é patrimônio cultural do povo e o alicerce da nossa soberania. Na verdade, ao Estado cabe estimulá-la. Porém, dentro de uma perspectiva educacional libertária, ou seja, que assegure o pleno desenvolvimento físico, intelectual e ético do homem. Por isso, é bom lembrar aos governantes que a escola é um espaço sincrético e mestiço. Ou melhor, escola é local de criação, de reelaboração e desenvolvimento de projetos que promovam o nosso desenvolvimento. É lugar de aprendizado. Na prática, para nossa elite, educação não é urgência. Prioridade para eles é a manutenção do poder a custa do atraso cultural de nosso povo.

A meu ver, a educação no Brasil, mais exatamente, na segunda metade do século passado e neste, tomou outros rumos e perdeu, de vez, o foco humanista, principalmente, durante os governos militares (1964-85). Com o fim da ditadura militar, passamos à redemocratização do país. No governo Itamar Franco, o controle inflacionário, a estabilidade econômica (Plano Real) e o funcionamento das instituições democráticas levaram o Brasil ao desenvolvimento e crescimento econômico. Nos governos seguintes, Fernando Henrique e Lula, foi mantida a austeridade econômica e uma melhoria na condição de vida da população.

Faltam profissionais técnicos

É claro que a conjuntura internacional (recessão europeia e estadunidense) favoreceu esse desenvolvimento. Resultado: passamos de décima a oitava economia mundial. De outro lado, essa estabilidade neoliberal teve um grande custo social. Desemprego. Dessa forma, com a globalização, empresários e empresas, cada vez mais, passaram a cooptar o poder público no sentido de pressionar por uma educação que atenda às demandas do mercado. Um ensino utilitarista. Isso acontece na medida em que a industrialização passou a exigir trabalhadores mais qualificados para os setores produtivos industriais.

A revista Época (24/10) tem uma matéria interessante sobre os profissionais da área técnica. Traz um guia para quem aspira à carreira na área. Está claro, portanto, que uma educação cidadã (libertária e humanística) não interessa ao setor produtivo. Contudo, há exceções. Essa onda parece que veio para ficar. Podemos verificar isso no ensino médio e universitário. Deixo claro que não sou contrário à formação técnica.

Na realidade, o ensino se tornou um grande negócio cuja exigência maior é padronizar o trabalhador para o mercado de trabalho. Não importa que seja um alienado indiferente aos problemas sociais e políticos do país. Hoje, o fato é que, cada vez mais, os profissionais de carreiras técnicas são os mais caçados pelo mercado. Época revela ainda que faltam profissionais em quantidade suficiente em áreas como petróleo, automação industrial, construção civil, meio ambiente, tecnologia e ciência da informação. Assim, é muito forte essa pressão por parte das empresas.

Os conglomerados educacionais

Não tenho dúvida que essa visão de educação, centrada apenas nas demandas do mercado, não colabora para o pleno desenvolvimento do potencial humano. De outro lado, trouxe desequilíbrios significativos e prejudiciais aos alunos e educadores, bem como à própria educação. É por isso que na Europa, EUA e Japão, existe um movimento – por parte das famílias – no sentido de querer tomar as rédeas do processo ensino e aprendizado de seus filhos. É o chamado homeschooling.

No Brasil, as famílias já reivindicam essa opção. Elas sabem que o atual modelo de educação (público e privado) não consegue atender satisfatoriamente às novas exigências da atualidade. Por sua vez, o Estado brasileiro se nega a reconhecer essa situação. Aliás, a ingerência excessiva do Estado castra outros modelos educacionais.

Está claro, portanto, que a educação perdeu o rumo e o foco – mais precisamente, quando passou a formar mão-de-obra exclusivamente para o mundo do trabalho e se transformou em grande negócio. No fim do século, nas décadas de 80 a 90, surgiram os gigantescos conglomerados educacionais.

Educar é um processo global

Outra coisa: o texto de Época não discute se o ensino utilitário resolve o problema da mão-de-obra no país. Em curto prazo pode até ser, mas e no longo prazo? Esse tipo de educação é uma maquiagem da realidade. É uma educação fragmentada. Mutilada. Por fim, o que promove a verdadeira transformação na estrutura social é uma educação que leva em conta o ser humano. Por outro lado, precisamos também melhorar os cursos de ciências humanas e seu enfoque humanista. Portanto, precisamos de bons profissionais de ensino, capacitados e valorizados profissionalmente.

Por fim, o discurso oficial e parte da mídia, muitas vezes, desqualifica o trabalho docente. Na verdade, escola ruim interessa a quem está no poder, bem como, às próprias empresas. Há algumas exceções. Governos entram e saem, mas a realidade é a mesma. Educar é um processo global cujo foco é o educando, a família (responsável) e a comunidade local. Sem a participação e a mobilização da sociedade civil, as mudanças e transformações que são necessárias não vão ocorrer.(Ricardo Santos é jornalista e prof. de História)


Publicado por: RICARDO SANTOS

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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