GERAÇÃO SCROLL: A ESCOLA REFÉM DAS TELAS

Breve discussão sobre o surgimento do chamado sujeito scrollview e da cultura da aparência, ambos decorrentes do uso excessivo das telas.

GERAÇÃO SCROLL: A ESCOLA REFÉM DAS TELAS

O retorno às aulas no segundo semestre traz consigo uma reflexão profunda e exigente: o contraste entre o universo analógico, o hiperestímulo das telas midiáticas (agora impulsionado pelos algoritmos poderosos da inteligência artificial) e o processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Assim, temos o contraste do ambiente educacional, com expressão na reflexão e pensamento crítico e alunos deslumbrados com as promessas das telas coloridas, indicando um mundo imaginário, distante da realidade e do conhecimento científico.

Emerge daí o sujeito scrollview e a cultura da aparência. Tem-se, aqui, estudantes com atos mecânicos de deslizar telas incessantemente. Daí a importância da discussão em torno da busca tóxica por aprovação virtual dos demais, além do vício nos “likes” e na obsessão por uma estética corporal irreal que promete beleza e saúde de forma fácil e rápida. Tudo sem esforço, “liso” e isento de questionamentos familiares. Isso reforça a tese da busca frenética pela aprovação algorítmica em que crianças e adolescentes mendigam por “likes”, “corações”, disputando os segundos de sua existência com o império algorítmico das big techs. É um esforço para a validação da própria identidade.

Dessa maneira, na compreensão desse momento que já se transformou num fenômeno preocupante, encontra-se o pensamento de Guy Debord (1931-1994), que, em sua obra clássica “A Sociedade do Espetáculo” (1967), já alertava para a sociedade da representação. Hoje, de outro modo, desponta o “espetáculo” que cabe no bolso, através das telas digitais, prometendo beleza e saúde milagrosas, sem filtro ético. No entanto, o filtro das mídias se desfaz no “quarto escuro”, trazendo a frustração crônica e um vazio existencial alarmante, desesperador e agonizante.

Soma-se a isso, em muitos casos, o vício desenfreado dos pais e responsáveis, agora imersos também no vício digital dos jogos online, roletas virtuais e nos esquemas de cliques que corrompem o ambiente familiar com a promessa do dinheiro fácil e da vida sem esforço, do lucro rápido e da falsa sensação de ganho. Essa realidade nos leva diretamente ao diagnóstico de Zygmunt Bauman (1925-2017), que, em sua obra “Modernidade Líquida” (2000), já alertava para a ideia de que as instituições, os valores e a noção de futuro perderiam sua solidez, cedendo espaço à fluidez e à instabilidade. Agora, temos a troca do processo de ensino-aprendizagem, a robustez científica e acadêmica substituídas pela liquidez tóxica e devastadora do giro na roleta virtual e do sujeito mega scrollview.

O ápice do problema reside na gravidade de muitos pais e responsáveis colocarem os próprios filhos menores para realizarem cliques e interagirem com jogos de azar, uma terceirização absurda e um estímulo precoce que certamente resultará numa dependência patológica. O desdobramento de tal orientação se faz presente nos sintomas físicos e no comportamento dos estudantes no ambiente escolar, facilmente identificados pela equipe gestora, professores e funcionários: alunos com sono, irritados, sem vontade de estudar, apáticos, agressivos, alunos com sensação de tontura, desmaios, ausência de apetite, idas ao banheiro com celulares escondidos para continuarem deslizando as telas em apostas e outras plataformas viciantes, a exemplo do jogo do “tigrinho”.

Vale ressaltar, entretanto, a importância das mídias sociais e das tecnologias informacionais para o universo da educação e do aprendizado. Mas, há que se destacar, de outro lado, a demarcação rígida de seus limites com ações práticas no cotidiano dos alunos no ambiente escolar: critérios para o uso de celulares nas escolas, incentivo aos clubes de leitura, jogos de xadrez, esportes e demais atividades analógicas.

Mais que isso, cabe destacar, também, a importância de políticas públicas efetivas, enfatizando critérios para o bloqueio de IP de redes de apostas e a prevenção ativa e criteriosa na liberação de Wi-Fi das escolas públicas. A garantia do letramento digital dos responsáveis também deve ser enfatizada nesse processo, além da responsabilidade das casas de apostas e das big techs com filtros de bloqueio, exigência de biometria facial e outros recursos tecnológicos que inibam e bloqueiem o uso dessas plataformas por crianças e adolescentes.

Enfatiza-se, ainda, o que descreve Byung-Chul Han (1959), filósofo sul-coreano, em sua magistral obra “Sociedade do Cansaço” (2010): somos vítimas de uma autoexploração e de uma positividade tóxica que nos levam ao esgotamento neuronal, levando-nos ao adoecimento. Na mesma direção, destaca-se o alerta de Neil Postman (1931-2003), em sua obra: “O Desaparecimento da Infância” (1982), ao argumentar que as mídias de massa destruíram as barreiras que distinguem o mundo adulto do infantil. Dessa maneira, ao exporem-se as crianças aos segredos e às armadilhas da ganância e aos vícios sem filtros, a infância nitidamente desaparece, evapora. Infelizmente, aqui reside a epidemia do “sujeito scrollview”, tornando as escolas reféns das telas midiáticas e os estudantes, vítimas da falsa promessa de bem-estar e sensação de poder. A educação certamente vencerá, pois seu autêntico papel tem como horizonte a liberdade serena e os princípios da ética e do bem comum.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Tradução de Suzana Machado de Moura e J. A. Monteiro. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.


Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/geracao-scroll-a-escola-refem-das-telas.htm