Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), divulgada em junho deste ano, apontou ampla adesão à Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de aparelhos celulares para fins não pedagógicos nas escolas do país. Segundo o levantamento, feito em parceria com o Instituto Alana e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, 92% dos gestores escolares afirmam que a legislação já está sendo implementada nas instituições.
Outros dados do estudo mostram que 97% dos gestores concordam que a medida contribuiu para ampliar a participação dos estudantes nas atividades pedagógicas e 95% avaliam que a restrição favoreceu a socialização presencial e a concentração durante as aulas. Importante notar também que 71% dos entrevistados discordam da afirmação de que a restrição ao uso dos celulares limita o desenvolvimento de habilidades digitais dos estudantes.
Esses resultados vão ao encontro do que ocorreu na Suécia: o país foi pioneiro na digitalização das escolas e depois liderou o recuo. Havia substituído livros por tablets e retornou aos livros, ao lápis e ao papel. Segundo o GEM Report da UNESCO, em 2026, já são mais de 100 sistemas educacionais nacionais, em 58% dos países do mundo, que já adotam o banimento nacional de smartphones nas escolas. Se pensarmos que em 2023 eram apenas 24%, temos um crescimento significativo e decorrente da crescente preocupação com o declínio da atenção, a “epidemia de solidão”, o cyberbullying e a influência do mundo digital sobre as crianças.
Mas nada disso significa que precisamos optar por tudo ou nada. Como diz Neil Postman, em seu livro Technopoly: The Surrender of Culture to Technology (Tecnopólio: A Rendição da Cultura à Tecnologia), "toda tecnologia é ao mesmo tempo um fardo e uma bênção; não é uma questão de 'ou um ou outro', mas sim de 'isto e aquilo’”. Ou seja, nos cabe entender, como pais, responsáveis e educadores, o que é cada aspecto para colocar limites e melhor conduzir a educação de nossos filhos e alunos.
O surgimento e a adoção de cada nova tecnologia - principalmente as que têm efeito disruptivo - sempre se tornam uma oportunidade para revermos nossa jornada e descobrirmos outras formas de fazer o que fazemos, incorporando, pelo menos em parte, essa tecnologia. Para além da adoção da ferramenta, podemos ter uma ressignificação da nossa jornada de trabalho. Agora, em tempos de IA generativa, podemos identificar quais etapas são algoritmizáveis e terceirizá-las às IA, sem abrir mão, logicamente, da nossa validação ao final. Então, temos aqui uma tecnologia como benção.
Mas, se pensarmos na mediação tecnológica, via aplicativos de comunicação, que corroeu a capacidade empática em conversas - como mostrou a pesquisa de Sara Konrath, publicada em 2011, que acompanhou quase 14 mil universitários americanos ao longo de três décadas - temos a tecnologia como um fardo. Outro exemplo é o estudo realizado por Yalda Uhls que indicou que adolescentes, depois de afastados cinco dias das telas, passaram a ler melhor as expressões faciais de outras pessoas.
Assim, podemos entender que uma escola tem a tecnologia a seu favor quando consegue avaliações personalizadas, dados individualizados, adaptação de materiais, ambientes com gamificação da aprendizagem e outras aplicações relevantes para o engajamento e para a aprendizagem dos alunos. Mas, também, quando compreende tudo que não é “algoritmizável” em seu fazer e que está, principalmente, nas relações estabelecidas entre educadores, alunos e famílias. Aí ela tem o cumprimento de sua missão num aspecto que não depende de tecnologia.
Em artigo recente no Financial Times, David Deming, de Harvard, apresentou dados consolidados desde os anos 1980 até os anos 2020 sobre empregabilidade e remuneração demonstrando a prevalência das competências sociais sobre as competências técnicas - mesmo no setor de tecnologia. Podemos concluir que a automação (a tecnologia) não está eliminando o humano do trabalho e sim que está tornando o que é essencialmente humano mais valioso (mais escasso, talvez)? Pensando na escola: se entregamos só competências técnicas, formamos para obsolescência; se entregamos só competências socioemocionais, formamos adultos despreparados para o mundo tecnológico.
Por fim, deixo uma reflexão aos educadores: o que é essencial e inegociavelmente humano na sua escola que não depende de tecnologia? E o que a sua escola pode fazer melhor - por todos os humanos - empregando tecnologia?
Estratégias de Governança Digital. Disponível em: https://www.gov.br/governodigital/pt-br/estrategia-de-governanca-digital/do-eletronico-ao-digital. Acesso em 14/08/2026.
Our Epidemic of Loneliness and Isolation. Disponível em: https://www.hhs.gov/sites/default/files/surgeon-general-social-connection-advisory.pdf. Acesso em 14/08/2026.
Sweden School Tablets versus Books. Disponível em: https://swweducation.org/sweden-school-tablets-vs-books/. Acesso em 14/08/2026.
Global Educational Monitoring Report 2026: Access and equity. Disponível em: https://www.unesco.org/gem-report/en/publication/equity-and-access. Acesso em 14/08/2026.
POSTMAN, Neil. Technopoly: The Surrender of Culture to Technology. Vintage Books.
MARKS, Robert J. Non-Computable You: What you do that Artificial Intelligence never will. Discovery Institute.
Changes in Dispositional empathy in American College Students over time: a meta-analysis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20688954/. Acesso em 14/08/2026.
Five days at outdoor education camp without screens improves preteen skills with nonverbal emotion cues. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0747563214003227. Acesso em 14/08/2026.
How to AI-proof your job. Disponível em: https://www.ft.com/content/5e2593a3-e834-4822-bbc8-7cb27086af24?syn-25a6b1a6=1. Acesso em 14/08/2026.
Por Idelfranio Moreira, diretor de ensino e inovações do SAS Educação.
Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/tecnologia-fardo-e-bencao.htm