Por que tantos estudantes frequentam diariamente a escola e, ainda assim, não conseguem atribuir sentido ao que aprendem?
Em muitas escolas brasileiras, é cada vez mais comum encontrar estudantes que frequentam diariamente as salas de aula, mas que não conseguem atribuir sentido à experiência escolar. A desmotivação, a ausência de perspectivas e a dificuldade em construir um projeto de vida revelam que o desafio da escola contemporânea ultrapassa a garantia da aprendizagem dos conteúdos curriculares. Trata-se, sobretudo, de promover experiências que fortaleçam a identidade, o sentimento de pertencimento e o reconhecimento dos estudantes como sujeitos de direitos.
Entre os diferentes grupos que frequentam a Educação Básica, a adolescência representa um período particularmente sensível, por ser uma das fases mais significativas do desenvolvimento humano, marcada pela construção da identidade, da autonomia, do pensamento crítico e dos projetos de vida. Nesse período, a escola assume papel decisivo ao favorecer não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também a formação ética, cidadã e socioemocional dos estudantes, promovendo experiências de acolhimento, pertencimento e reconhecimento.
Essa perspectiva permite compreender que a identidade dos estudantes é diretamente influenciada pelas condições sociais em que vivem. Em escolas públicas, especialmente aquelas localizadas em comunidades marcadas por vulnerabilidades socioeconômicas, é comum encontrar jovens oriundos de famílias de baixa renda, muitos filhos de agricultores ou trabalhadores informais, que enfrentam limitações materiais e simbólicas para projetarem perspectivas de futuro. Em muitos casos, esses estudantes demonstram dificuldades para atribuir sentido à escolarização, apresentando dificuldades para elaborar projetos de vida, o que pode refletir diretamente na motivação para aprender e permanecer na escola.
Diante desse cenário, emerge uma questão central: como a escola pode tornar-se um espaço em que os estudantes se reconheçam e encontrem sentido para aprender? Responder a esse desafio implica compreender que educar vai além da transmissão de conhecimentos, exigindo práticas que promovam pertencimento, protagonismo e projeto de vida.
Este artigo defende que a perda de sentido atribuída por muitos estudantes à experiência escolar está relacionada à fragilidade dos processos de construção da identidade e do pertencimento. Assim, uma educação comprometida com a formação integral deve reconhecer as diferentes identidades presentes na escola, fortalecendo vínculos e favorecendo a construção do projeto de vida.
A identidade é compreendida como um processo contínuo de construção, influenciado pelas relações sociais, culturais e históricas estabelecidas ao longo da vida. Não se trata de uma característica fixa ou essencial do indivíduo, mas de um movimento permanente de produção de sentidos sobre si mesmo e sobre o mundo. Sob essa perspectiva, o sujeito constitui sua identidade nas interações sociais, nas experiências vividas e no reconhecimento proporcionado pelos diferentes grupos dos quais participa.
Nesse sentido, Stuart Hall (2006) compreende a identidade como um processo dinâmico e histórico de construção social. Para o autor, as identidades não são naturais nem imutáveis, mas produzidas e ressignificadas continuamente pelas relações culturais, sociais e políticas. Assim, tal construção ocorre a partir das experiências vividas, das representações sociais e do reconhecimento que recebe dos grupos aos quais pertence.
Para compreender as transformações ocorridas na forma como o sujeito percebe a si mesmo, Hall apresenta três concepções de identidade. A primeira corresponde ao sujeito do Iluminismo, concebido como um indivíduo dotado de uma identidade fixa, racional, estável e centrada em si mesmo. Nessa perspectiva, predominava a ideia de que cada pessoa possuía uma essência permanente, pouco influenciada pelas transformações sociais e culturais.
Posteriormente, emerge a concepção do sujeito sociológico, cuja identidade passa a ser compreendida como resultado das relações estabelecidas entre o indivíduo e a sociedade. A família, as instituições, a cultura, o trabalho e os diferentes grupos sociais deixam de ser apenas cenários da vida humana para tornarem-se elementos constitutivos da identidade. Sob essa ótica, o sujeito constrói sua percepção de si mesmo por meio das interações sociais e do reconhecimento recebido em seus diferentes espaços de convivência.
Embora Hall não desenvolva sua teoria especificamente no campo educacional, suas reflexões permitem compreender a escola como um dos principais espaços de construção, negociação e ressignificação das identidades. Ao ingressar na instituição escolar, o estudante amplia seu universo de relações, entra em contato com diferentes formas de pensar, convive com a diversidade e passa a reconstruir continuamente sua maneira de compreender a si mesmo e ao mundo. Nessa perspectiva, a escola deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conhecimentos para assumir papel significativo na construção identitária.
Por fim, Hall apresenta a concepção do sujeito pós-moderno, caracterizado por identidades múltiplas, fluidas e em permanente transformação. As mudanças culturais, os processos de globalização, o avanço das tecnologias digitais e a influência das mídias ampliam as possibilidades de pertencimento e fazem com que o indivíduo assuma diferentes identidades ao longo de sua trajetória. Assim, já não é possível compreender a identidade como algo único e definitivo, mas como um processo continuamente reconstruído diante das transformações sociais e culturais.
À luz das reflexões de Stuart Hall, compreende-se que a identidade não constitui uma essência imutável, mas um processo permanente de construção, reconstrução e negociação, marcado pelas relações sociais, pelas experiências vividas e pelos diferentes contextos culturais. Essa compreensão reforça a importância de a escola reconhecer e valorizar as múltiplas identidades presentes em seu cotidiano, favorecendo o sentimento de pertencimento e contribuindo para a formação integral dos estudantes. Quando esse reconhecimento não acontece, a experiência escolar tende a perder significado, comprometendo o vínculo dos jovens com a aprendizagem e com a construção de seus projetos de vida.
A literatura brasileira contemporânea oferece importantes contribuições para a compreensão das relações entre identidade, pertencimento e desigualdade social. A obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus (1960), constitui um dos mais relevantes registros da realidade das populações marginalizadas no Brasil. A autora, mulher negra, catadora de papel e moradora da favela do Canindé, narra a experiência cotidiana da pobreza extrema, da fome e da exclusão social. Ao comparar a cidade de São Paulo a uma casa, na qual os bairros nobres representam os quartos e a favela corresponde ao "quarto de despejo", Carolina denuncia o processo de invisibilização das populações periféricas, evidenciando as profundas desigualdades estruturais da sociedade brasileira.
De maneira semelhante, Conceição Evaristo, em Olhos d'Água (2014), retrata as experiências de pessoas negras, pobres e periféricas, cujas histórias são marcadas pela exclusão social, pelo racismo, pela violência e pela negação de direitos. Entretanto, a autora também evidencia elementos como a ancestralidade, a resistência, a afetividade e a solidariedade como formas de enfrentamento das adversidades. Sua proposta estética, denominada "escrevivência", transforma vivências individuais e coletivas em instrumento de denúncia das injustiças sociais e de valorização das vozes historicamente silenciadas.
As obras de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo revelam que a construção da identidade está profundamente relacionada às condições materiais de existência e às formas de reconhecimento social. Ao serem incorporadas ao contexto escolar, essas narrativas possibilitam que estudantes, especialmente aqueles pertencentes às camadas populares, encontrem representatividade em narrativas e personagens cujas vivências dialogam com suas próprias experiências. Além de ampliar a identificação dos estudantes com a literatura, essas obras favorecem reflexões sobre desigualdade, racismo, pertencimento e cidadania, aproximando os conteúdos escolares das realidades vividas pelos educandos. Essa identificação fortalece o sentimento de pertencimento e contribui para a formação de uma consciência crítica acerca das desigualdades sociais.
Nessa perspectiva, compreender quem o estudante é, de onde vem e quais são suas expectativas torna-se condição essencial para a elaboração de práticas pedagógicas significativas. Uma escola comprometida com as identidades culturais, sociais e territoriais de seus alunos, amplia as possibilidades de aprendizagem, fortalece vínculos e favorece a construção de projetos de vida mais consistentes. Mais do que preparar os jovens para avaliações externas ou para o mercado de trabalho, a educação deve contribuir para que eles compreendam seu lugar no mundo e reconheçam seu potencial como sujeitos históricos capazes de transformar a realidade em que vivem. Trata-se de uma prática que rompe com a lógica da mera reprodução de conhecimentos e valoriza as experiências dos estudantes como ponto de partida para uma aprendizagem significativa, crítica e emancipatória. Assim, reconhecer a identidade dos estudantes, especialmente daqueles historicamente invisibilizados, constitui não apenas uma estratégia pedagógica, mas também um compromisso ético da escola com a promoção da equidade e da justiça social.
O curta-metragem Alike (2015) mostra a trajetória de um pai e de seu filho em uma rotina urbana marcada pela padronização, pela aceleração do cotidiano e pela automatização das relações humanas. Ao longo da narrativa, observa-se que, à medida que a criatividade, a sensibilidade e a espontaneidade do menino são reprimidas, o mundo ao seu redor torna-se progressivamente cinzento, simbolizando a perda de significado das experiências vividas. Incapaz de expressar sua singularidade, a criança deixa de reconhecer-se no ambiente em que está inserida, revelando a ausência de pertencimento.
Essa representação suscita uma importante reflexão sobre o contexto escolar: Quantos estudantes vivenciam realidade semelhante? Quantos não conseguem reconhecer sua identidade no espaço da sala de aula e passam a compreender a escola apenas como um lugar de reprodução de conteúdos, desprovido de significado para suas vidas? Quando a aprendizagem se restringe à memorização e à repetição de conhecimentos, sem considerar as experiências, os interesses, os talentos e as potencialidades dos estudantes, corre-se o risco de invisibilizar habilidades que poderiam ser desenvolvidas e valorizadas. Nesse cenário, o sentimento de pertencimento enfraquece, comprometendo não apenas o processo de aprendizagem, mas também a construção da identidade, da autonomia e do projeto de vida dos educandos.
A realidade simbolizada em Alike encontra respaldo nas reflexões de Antônio Carlos Gomes da Costa acerca do desenvolvimento humano. Para o autor, a dificuldade de reconhecer-se como sujeito, de valorizar suas potencialidades e de encontrar sentido em sua trajetória compromete não apenas a autoestima, mas também a capacidade de construir um projeto de vida. Assim, compreender a relação entre identidade, pertencimento e desenvolvimento humano torna-se essencial para repensar o papel da escola na formação integral dos estudantes.
Ao discutir o desenvolvimento humano, Antônio Carlos Gomes da Costa (2001) afirma que a construção da identidade é fundamental para a formação integral. Segundo o autor, compreender-se sem aceitar-se pode desencadear uma crise de identidade, comprometendo o autoconceito, a autoconfiança e a autoestima. Por outro lado, quando o indivíduo reconhece seu próprio valor, fortalece sua identidade e passa a projetar o futuro de forma coerente com seus talentos, interesses e propósitos.
Essa compreensão traz importantes implicações para a educação. Em um contexto escolar marcado pela padronização das aprendizagens, torna-se necessário questionar se a escola tem favorecido o autoconhecimento, o reconhecimento das diferenças e o sentimento de pertencimento. Sem essas condições, torna-se mais difícil que o estudante desenvolva autoestima, atribua sentido à experiência escolar e construa seu projeto de vida.
Nessa perspectiva, o projeto de vida vai além do planejamento profissional: constitui um processo de construção de sentido. Cabe à escola criar condições para que cada estudante reconheça sua identidade, fortaleça sua autoestima e desenvolva autonomia para fazer escolhas conscientes e comprometidas com seu desenvolvimento humano (FREIRE, 1996; COSTA, 2001).
Os estudantes tendem a perder o sentido da experiência escolar quando não se reconhecem nas práticas pedagógicas, quando suas histórias são invisibilizadas e quando a escola prioriza exclusivamente a transmissão de conteúdos, em detrimento da construção de vínculos, do reconhecimento das identidades e do desenvolvimento do protagonismo. Assim, mais do que ensinar saberes sistematizados, cabe à escola criar condições para que cada estudante encontre razões para permanecer, aprender e projetar seu futuro.
Refletir sobre práticas pedagógicas que estimulem a autoria e o pensamento crítico implica desenvolver estratégias que valorizem a história de vida dos estudantes, reconheçam diferentes formas de aprender e promovam o protagonismo estudantil. Ao assumir um papel ativo no processo de aprendizagem, o estudante fortalece o sentimento de pertencimento e encontra condições para construir seu projeto de vida.
Conforme Freire (1989), a leitura do mundo precede a leitura da palavra, indicando que toda aprendizagem parte das experiências e da realidade vivida pelos sujeitos. Sob essa perspectiva, práticas pedagógicas que valorizam as histórias de vida dos estudantes favorecem a construção de aprendizagens significativas e fortalecem o sentimento de pertencimento ao ambiente escolar. Com essa visão freireana, pode-se afirmar que desenvolver projetos interdisciplinares voltados para a valorização do convívio do estudante, estimulando a leitura e a escrita, contribuem para que os estudantes atribuam novos significados às suas experiências escolares.
A escola pode perguntar-se: que mundo nossos estudantes leem antes de chegar à escola? Essa questão convida professores e gestores a reconhecerem que cada aluno chega à sala de aula trazendo experiências, valores, culturas e formas próprias de interpretar a realidade. A partir desse reconhecimento, o planejamento pedagógico pode incorporar práticas fundamentadas nos multiletramentos e no campo jornalístico-midiático, como rodas de leitura crítica, produção de textos opinativos, podcasts, cartas abertas e campanhas voltadas para questões presentes no cotidiano dos estudantes.
Para que essas práticas alcancem seus objetivos, é indispensável que a escola promova um ambiente de respeito, escuta e acolhimento. Contextos dessa natureza favorecem que os estudantes se sintam seguros para compartilhar suas histórias, sem receio de discriminação, ridicularização ou preconceito.
A produção de narrativas autobiográficas também representa uma estratégia potente de fortalecimento identitário. Ao incentivar que os estudantes transformem suas experiências em narrativas, a escola aproxima-se da noção de escrevivência, conceito elaborado por Conceição Evaristo, segundo a qual a escrita constitui um espaço de memória, resistência e afirmação identitária. Quando os alunos escrevem sobre suas trajetórias, deixam de ser apenas receptores de conhecimentos historicamente produzidos para tornarem-se autores de suas próprias histórias. Essas produções podem culminar na organização de um livro coletivo ilustrado pelos próprios estudantes, valorizando diferentes talentos e reconhecendo a escrita como instrumento de memória, autoria e pertencimento.
Em parceria com diferentes componentes curriculares, os multiletramentos podem ser promovidos. Ao reconhecer e valorizar a origem dos estudantes, seus sotaques, suas gírias e suas variedades linguísticas, a escola fortalece sua autoestima e reafirma suas identidades culturais. Usando o corpo como linguagem, palestras, danças e desfiles poderão romper o padrão estético imposto pelas redes sociais como uma forma de "linguagem opressora". Nessa perspectiva, os multiletramentos ampliam as possibilidades de expressão dos estudantes, reconhecendo diferentes linguagens, culturas e formas de produção de conhecimento. Dessa forma, a escola deixa de ser apenas um espaço de escolarização para tornar-se um espaço de reconhecimento, onde cada estudante encontra condições para afirmar sua identidade, fortalecer o sentimento de pertencimento e construir um projeto de vida com significado. É nesse movimento que a experiência escolar passa, de fato, a fazer sentido.
Ao longo deste artigo, buscou-se compreender por que tantos estudantes deixam de encontrar sentido na escola. As discussões evidenciaram que essa realidade não decorre apenas de dificuldades de aprendizagem ou da falta de interesse dos alunos, mas também da fragilidade dos processos de construção da identidade e do pertencimento no ambiente escolar.
Diante dessa realidade, a instituição escolar precisa assumir uma função que ultrapassa a transmissão de conhecimentos. Conforme Freire, ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e compromisso com sua emancipação, compreendendo a educação como prática da liberdade e da transformação social. Sob essa perspectiva, promover o pertencimento significa reconhecer os estudantes como sujeitos de direitos, capazes de transformar sua própria realidade.
As reflexões desenvolvidas ao longo deste estudo evidenciam que a identidade é construída nas relações sociais e culturais, sendo continuamente ressignificada ao longo da vida. Nesse processo, a escola assume papel decisivo ao reconhecer as histórias, as culturas e as potencialidades de seus estudantes, fortalecendo o pertencimento, a autoestima, o protagonismo juvenil e a construção do projeto de vida. Quando isso acontece, a instituição deixa de ser apenas um espaço de transmissão de conhecimentos e torna-se um ambiente de construção de identidades, produção de sentidos e formação humana. Aprender deixa de ser uma obrigação para transformar-se em uma experiência significativa. Mais do que cumprir o currículo, educar significa criar oportunidades para que cada estudante descubra quem é, reconheça seu valor e encontre razões para permanecer, aprender e projetar seu futuro. Assim, uma escola que acolhe, reconhece e valoriza seus estudantes é, sobretudo, uma escola que faz sentido.
ALIKE. Direção: Daniel Martínez Lara; Rafa Cano Méndez. Produção: Pepe School Land. Barcelona: Pepe School Land, 2015. 1 vídeo (8 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PDHIyrfMl_U. Acesso em: 28 jun. 2026.
COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Pedagogia da presença: da solidão ao encontro. 2. ed. Belo Horizonte: Modus Faciendi, 2001.
EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1993. (Originalmente publicado em 1960.)
Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/quando-a-escola-deixa-de-fazer-sentido-identidade-pertencimento-e-projeto-de-vida-como-caminhos-para-a-formacao-integral-dos-estudantes.htm