A Cartografia Escolar constitui um campo de conhecimento situado na interface entre Cartografia, Geografia e Educação, sendo fundamental para a formação de professores e para o desenvolvimento do pensamento espacial dos alunos. Conforme destacam Laís Campos e Loçandra Moraes, essa vertente não se limita ao ensino técnico dos mapas, mas compreende uma linguagem que deve ser apropriada pelo docente para mediar a construção do raciocínio geográfico. Nesse sentido, o professor precisa articular o “ensino do mapa” (conteúdos cartográficos) e o “ensino pelo mapa” (uso da linguagem cartográfica como metodologia para ensinar Geografia), integrando conceitos de forma indissociável.
Os documentos oficiais, em especial a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), reconhecem a linguagem cartográfica como essencial para o desenvolvimento do pensamento espacial na área de Ciências Humanas, estabelecendo competências que envolvem leitura, análise e produção de representações. Contudo, pesquisas de David Almeida e Gabriel Cavallini apontam uma tensão entre essa prescrição e sua materialização nos livros didáticos, sobretudo após a reforma do Ensino Médio, que reduziu a abordagem cartográfica nos materiais do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). Diante disso, cabe ao professor não apenas utilizar o livro didático, mas também complementá-lo com outras fontes e estratégias que garantam a centralidade da cartografia no ensino.
Do ponto de vista didático-metodológico, a Cartografia Escolar requer práticas que superem o uso ilustrativo de mapas. Autoras como Rosangela Doin de Almeida e Rosangela Spironello defendem a incorporação de múltiplas possibilidades que valorizem a experiência do aluno: a produção de atlas municipais, que aproximam o conhecimento do lugar de vivência; os mapas mentais, como expressão da percepção espacial; e a cartografia social e participativa, que envolve os estudantes no mapeamento de seus territórios. Em todas essas abordagens, a linguagem cartográfica é tratada como instrumento de leitura crítica do mundo, articulando conceitos geográficos, princípios do raciocínio espacial (localização, distribuição, extensão) e práticas que colocam o aluno como protagonista.
Outra dimensão fundamental é a inclusão. No trabalho com alunos com deficiência visual, a Cartografia Tátil torna-se imprescindível. Autores como Rosemy Nascimento e Silvia Ventorini mostram que a produção de mapas táteis com materiais de baixo custo (EVA, cola quente, texturas) permite que esses estudantes desenvolvam noções de localização e organização espacial, rompendo barreiras sensoriais. Exemplos práticos incluem a confecção de mapas do bairro ou da escola, explorados por meio do tato e da linguagem oral, demonstrando que a cartografia pode ser acessível a todos.
As tecnologias digitais ampliam ainda mais as possibilidades metodológicas. Tânia Seneme do Canto ressalta que os programas de mapeamento online e os globos virtuais interativos confundiram os papéis de produtor e leitor de mapas, permitindo que os próprios alunos criem representações espaciais de forma colaborativa. O uso pedagógico de ferramentas como Google Earth, geoportais e aplicativos de mapas colaborativos possibilita a exploração de múltiplas camadas de informação, articulando imagens, vídeos e textos, e exige do professor uma abordagem que vá além das convenções cartográficas tradicionais.
Apesar dos avanços – como a expansão das pesquisas na área, a realização de eventos periódicos e a institucionalização da disciplina Cartografia Escolar nas licenciaturas – persistem desafios importantes. Conforme discutido por Carla Juscélia e Lucas Giarola, a formação inicial ainda tende a fragmentar os conhecimentos geográficos e cartográficos, e a abordagem frequentemente privilegia aspectos técnicos em detrimento da linguagem cartográfica como instrumento de análise espacial. Além disso, a formação continuada é insuficiente, e a cultura de produção de mapas pelos alunos ainda não se consolidou na prática docente.
Diante do exposto, para que a Cartografia Escolar efetivamente se realize na dimensão prática, é necessário fortalecer a articulação entre universidade e escola, garantindo que a formação inicial e continuada priorize a integração entre teoria e prática. Sugere-se, ainda, que o professor adote sequências didáticas que progressivamente desenvolvam a alfabetização cartográfica (da localização simples à análise temática), utilize a avaliação formativa por meio da análise de mapas mentais e produções cartográficas dos alunos, e promova o uso crítico de tecnologias digitais aliado a materiais táteis e inclusivos. Somente com essa integração entre fundamentos teórico-metodológicos, escolhas didáticas conscientes e práticas significativas a Cartografia Escolar cumprirá seu papel central no ensino de Geografia.
ALMEIDA, David Rodrigues de; CAVALLINI, Gabriel Martins. Mapeando conhecimentos: intersecções entre os documentos de orientação curricular e o livro didático a partir da linguagem cartográfica. In: RICHTER, Denis; MORAES, Loçandra Borges; BUENO, Míriam Aparecida (org.). Cartografia Escolar & Ensino de Geografia: contribuições teórico-metodológicas. Goiânia: C&A Alfa Comunicação, 2024.
ALMEIDA, Rosangela Doin de. Cartografia escolar. Editora Contexto, 2015.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: ensino médio.2018. Disponível em:http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wpcontent/uploads/2018/04/BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site.pdf. Acesso em: 24 mar. 2026
CAMPOS; Laís Rodrigues; MORAES, Loçandra Borges. Cartografia Escolar e formação de professores de Geografia: história e contexto atual. In: RICHTER, Denis; MORAES, Loçandra Borges; BUENO, Míriam Aparecida (org.). Cartografia Escolar & Ensino de Geografia: contribuições teórico-metodológicas. Goiânia: C&A Alfa Comunicação, 2024.
CANTO, Tânia Seneme do. Cartografia e tecnologias digitais: novas abordagens e linguagens para a sala de aula. Editora CRV, 2023.
NASCIMENTO, Rosemy da Silva. Cartografia escolar e eficácia e para aprendizagem – desafios, experiências e inclusão. História, Natureza e Espaço – Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa NIESBF, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 38–64, 2023.
SOUZA, Carla Juscélia de Oliveira. GIAROLA, Lucas Luan. Escalas geográfica e cartográfica na formação docente em Geografia: contribuição da Cartografia Escolar. In: RICHTER, Denis; MORAES, Loçandra Borges; BUENO, Míriam Aparecida (org.). Cartografia Escolar & Ensino de Geografia: contribuições teórico-metodológicas. Goiânia: C&A Alfa Comunicação, 2024.
SPIRONELLO, Rosangela Lurdes. A cartografia escolar e a elaboração de mapas mentais na educação de jovens e adultos: contribuições para o processo de ensino-aprendizagem. Boletim Paulista de Geografia, v. 99, p. 213-230, 2018.
VENTORINI, Silvia Elena. A experiência como fator determinante na representação espacial do deficiente visual. Araçatuba: Universidade Estadual Paulista, 2007.
Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/geografia/cartografia-escolar-da-formacao-docente-a-sala-de-aula.htm