Imagine que você compra uma passagem da sua companhia aérea favorita, mas, na hora de embarcar, percebe que o avião pertence a outra empresa. Nada deu errado no sistema e ninguém trocou sua reserva por engano. O que aconteceu é algo muito comum na aviação moderna: duas companhias decidiram compartilhar o mesmo voo. Esse tipo de parceria, chamado de “codeshare”, virou parte do dia a dia de quem viaja de avião, mesmo que a maioria das pessoas nunca tenha ouvido esse nome.
Na prática, o codeshare funciona como uma espécie de carona combinada entre empresas. Uma companhia opera o voo, com seu avião, sua tripulação e seus procedimentos, enquanto outra companhia tem permissão para vender assentos nesse mesmo voo, como se fosse dela. Para o passageiro, isso pode até parecer invisível, mas muda bastante a forma como as empresas organizam suas rotas, ampliam sua presença em outros países e oferecem conexões que não conseguiriam com seus próprios aviões.
Esses acordos surgiram como uma solução criativa para enfrentar a competição intensa do setor aéreo. Em vez de gastar milhões abrindo novas bases ou comprando mais aviões, as empresas perceberam que poderiam se unir em determinados trechos. Assim, ofereciam mais destinos no mapa, aumentavam a conveniência para o passageiro e, ao mesmo tempo, reduziam riscos financeiros. O resultado foi um crescimento rápido das malhas internacionais e uma sensação de que todas as companhias estão conectadas de alguma forma.
Mas o codeshare não traz apenas vantagens. Em algumas situações, quando duas empresas que já competiam entre si passam a cooperar, o efeito pode ser o contrário do esperado. Em vez de mais opções e preços menores, o passageiro pode enfrentar menos alternativas de horários e tarifas mais altas. Como cada mercado funciona de um jeito, os impactos variam bastante, e é por isso que muitos pesquisadores começaram a olhar para o fenômeno com mais atenção.
Um estudo do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), conduzido pelo Núcleo de Economia do Transporte Aéreo (NECTAR-ITA), investigou como esses acordos funcionaram no Brasil ao longo dos anos. A pesquisa analisou diversos casos, desde parcerias entre empresas tradicionais até acordos mais recentes envolvendo companhias nacionais e estrangeiras. O objetivo foi entender se essas colaborações ajudaram os passageiros, fortaleceram as empresas ou criaram problemas de concorrência.
Os resultados mostraram que, no Brasil, os efeitos nem sempre foram positivos. Em vários momentos, especialmente quando grandes empresas se uniram em rotas importantes, os acordos acabaram reduzindo a competição. Isso significa que, apesar de permitir que as empresas crescessem e enfrentassem períodos difíceis, como crises econômicas ou queda na demanda, o consumidor nem sempre se beneficiou com mais oferta ou preços menores. Em outras palavras, o impacto desses acordos depende muito de quem está envolvido e de como o mercado está organizado.
Ainda assim, o codeshare continua sendo uma peça fundamental da aviação moderna. Ele ajuda companhias a sobreviverem em um setor complexo, facilita viagens internacionais e dá ao passageiro a impressão de que o mundo está mais conectado. A discussão sobre seus benefícios e riscos continua, e pesquisas como a do ITA ajudam a entender melhor como equilibrar a colaboração entre empresas e a proteção dos consumidores.
MENDES, Lucas T. de B.; OLIVEIRA, Alessandro V. M. Acordos de codeshare entre companhias aéreas: revisão da literatura com auxílio de inteligência artificial. Communications in Airline Economics Research, 202117833, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5281/10.5281/zenodo.17899507.
Publicado por:
Lucas T. B. Mendes
Alessandro V. M. Oliveira
Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/curiosidades/o-curioso-mundo-do-compartilhamento-de-assentos-entre-companhias-aereas.htm