Imagine que você abre um aplicativo para comprar uma passagem de avião e se depara com duas ofertas para o mesmo destino. Uma é de uma companhia tradicional, com direito a mala despachada, lanchinho incluso e marcação de assento “de graça”. A outra é bem mais barata, mas avisa logo: bagagem paga à parte, nada de refeição elaborada, assento aleatório e embarque em um aeroporto mais distante do centro. Muita gente nem pensa duas vezes e escolhe a mais barata. Essa cena, cada vez mais comum, é o retrato da força das companhias aéreas de baixo custo no mundo.
Essas empresas, conhecidas como low-cost carriers (ou simplesmente LCCs), seguem uma lógica simples: cortar tudo o que não é essencial para levar o passageiro de um ponto a outro, para conseguir cobrar menos na passagem. Em vez de oferecer muitos mimos a bordo, elas focam em voar com o avião cheio o maior tempo possível, usar o mesmo modelo de aeronave para reduzir custos de manutenção, vender principalmente pela internet e, muitas vezes, operar em aeroportos menores e mais baratos. Serviços como bagagem despachada, alimentação e escolha de assento viram “extras” pagos à parte. O resultado é um bilhete mais acessível, que atrai pessoas que antes viajariam de ônibus — ou simplesmente não viajariam.
Esse movimento ficou tão marcante em alguns países que até ganhou nome próprio. Nos Estados Unidos, por exemplo, a entrada da Southwest Airlines em várias rotas provocou quedas significativas nas tarifas aéreas e aumento do número de passageiros, fenômeno batizado de “Efeito Southwest”. Outras empresas de baixo custo ao redor do mundo passaram a replicar e adaptar esse modelo, pressionando as companhias tradicionais a mudarem seu jeito de operar. Algumas tiveram que reduzir preços, outras passaram a copiar parte das estratégias das low-cost, como vender tarifas “peladas” e cobrar por quase tudo o que é adicional. Ao mesmo tempo, o crescimento desse tipo de empresa ajudou a popularizar o avião como meio de transporte em vários países.
Um estudo do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), conduzido pelo Núcleo de Economia do Transporte Aéreo (NECTAR-ITA), investigou justamente qual é a importância das companhias de baixo custo para a aviação atual e como elas estão redesenhando o mercado. Em vez de olhar para um único país ou uma única empresa, o trabalho reuniu pesquisas recentes feitas no mundo todo para entender um quadro mais amplo. Os autores organizaram essas evidências em cinco grandes temas: como as low-cost afetam outras companhias aéreas, como impactam os aeroportos, como mexem com a demanda por viagens, de que forma influenciam as escolhas dos passageiros e que consequências trazem para regiões inteiras. A ideia é mostrar que o efeito das low-cost vai muito além de “passagem barata”.
Em relação às companhias aéreas tradicionais, o estudo mostra que a simples presença de uma low-cost numa rota já é suficiente para forçar uma reorganização do mercado. Para não perder passageiros, empresas estabelecidas tendem a reduzir tarifas, ajustar horários para fugir da concorrência direta, trocar o tipo de avião usado em determinadas rotas e até rever toda a estratégia de rede. Em alguns casos mais extremos, o avanço das low-cost acaba encolhendo o espaço das companhias de voos charter (aqueles fretados por agências de turismo), que precisam mudar de modelo de negócio ou se aproximar do estilo low-cost para sobreviver. Ou seja, quando uma empresa de baixo custo entra em um mercado, ela não apenas oferece uma nova opção ao passageiro: ela obriga todo mundo ao redor a se mexer.
O estudo também destaca que o impacto das low-cost vai além das empresas e chega aos aeroportos e aos próprios viajantes. Em termos de infraestrutura, a presença dessas companhias pode ajudar a transformar aeroportos regionais em nós importantes de conexão, melhorando a acessibilidade de cidades que antes tinham poucas opções de voo. Ao mesmo tempo, os resultados não são iguais em todos os lugares: em alguns aeroportos, a operação de baixo custo melhora a eficiência e ajuda nas finanças; em outros, o ganho é pequeno, porque as tarifas cobradas das companhias são mais baixas e a estrutura precisa crescer para atender ao novo movimento. Do lado do passageiro, as pesquisas analisadas pelo ITA mostram que as low-cost influenciam desde a escolha do aeroporto até decisões maiores, como qual destino visitar ou até em qual universidade estudar, quando há um aeroporto com voos baratos por perto.
Outro ponto importante é o impacto sobre o turismo e o desenvolvimento regional. Segundo o estudo, as companhias de baixo custo têm sido decisivas para aumentar o fluxo de turistas em vários países e para aproximar regiões antes consideradas “periféricas” do mapa global da aviação. Ao ligar cidades menores diretamente a grandes centros, elas facilitam viagens de lazer, visitas a familiares que moram fora e até oportunidades de estudo e trabalho. Em áreas com população espalhada, ilhas ou economias pequenas, um modelo híbrido de baixo custo pode ser a chave para manter rotas viáveis, conectar comunidades e incentivar atividades econômicas ligadas ao transporte aéreo.
No fim das contas, o trabalho do ITA mostra que as companhias de baixo custo funcionam como um grande acelerador de mudanças na aviação. Elas barateiam viagens, aumentam o acesso ao transporte aéreo, pressionam concorrentes a se tornarem mais eficientes e ajudam a colocar novos pontos no mapa dos voos regulares. Mas também trazem desafios: precisam ser acompanhadas de perto por órgãos reguladores, exigem planejamento de infraestrutura e nem sempre garantem, sozinhas, mais bem-estar para a população, especialmente quando há risco de concentração de mercado. Para o consumidor que compara preços no celular, tudo isso aparece resumido naquele botão “comprar” ao lado da tarifa mais em conta. Mas, por trás dessa escolha aparentemente simples, existe uma verdadeira revolução na forma de voar.
OLIVEIRA, Bruno F.; OLIVEIRA, Alessandro V. M. Low-cost carriers in aviation: significance and developments. Communications in Airline Economics Research, São José dos Campos, v. 1, 10671650, 2024.
Publicado por Alessandro V. M. Oliveira e Bruno F. Oliveira
Fonte: Brasil Escola - https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/brasil/como-as-companhias-aereas-de-baixo-custo-mudaram-a-forma-de-voar.htm