O que a paisagem revela? Geodiversidade, riscos ambientais e a ocupação do espaço geográfico

Breve discussão sobre o conceito de paisagem à luz da geografia.

Imprimir
A+
A-
Compartilhar
Facebook
X
WhatsApp

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com

A paisagem, tal como se apresenta ao observador em qualquer porção do Espaço Geográfico, congrega um conjunto indissociável de elementos do meio geobiofísico – rochas, minerais, relevo, solos e biota – que se encontram em permanente e dinâmica transformação, esculpidos por processos geológicos, hidrológicos e atmosféricos, sendo igualmente, e de maneira cada vez mais intensa, continuamente remodelados pela ação antrópica. A origem primeira dessas paisagens, em relação ao seu substrato abiótico, é fruto da atuação combinada de processos endógenos, como a tectônica, o vulcanismo e a sismicidade, que promovem a geração de massa rochosa e a criação de relevos, e de processos exógenos, tais como o intemperismo, a erosão e a sedimentação, que atuam na esculturação e no arrasamento das formas de relevo previamente geradas.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Este entendimento nos conduz ao conceito de “paisagem geomorfológica”, que, segundo Marcelo Eduardo Dantas e Ana Luiza Coelho Netto, pode ser definida como a resultante espacial da interação entre as diversas variáveis do meio físico – relevo, rocha, solo, vegetação e uso – que, por sua vez, regula a distribuição das águas e a dinâmica dos processos geomorfológicos em diferentes escalas espaço-temporais.

Etimologicamente, o conceito de paisagem deriva do vocábulo francês paysage, que, assim como seu contemporâneo alemão landschaft, surgiu entre os séculos XV e XVI, em fins da Idade Média, com um claro significado espacial e delimitado, representando um recorte geográfico de uma área ocupada por aglomerações humanas e seus arredores, estando sua gênese fortemente associada ao modo de produção feudal. Contudo, foi apenas no decorrer do século XIX, com os trabalhos do naturalista alemão Alexander von Humboldt, que o conceito foi formalmente estabelecido, ainda que de forma incipiente, como a dimensão perceptível, ou panorama, de um determinado Espaço Geográfico, pautando-se em uma abordagem denominada de “Empirismo Raciocinado”.

Nesse período, a paisagem era entendida como a soma dos elementos visíveis e naturais de uma região. Com o avanço da ciência geográfica, o conceito foi sendo paulatinamente aprimorado, incorporando à sua análise não apenas os processos naturais, mas também as complexas e nem sempre visíveis relações socioeconômicas que conferem dinamicidade e profundidade à sua interpretação, convergindo para a noção de paisagem geográfica ou cultural.

É fundamental, para uma compreensão aprofundada do termo, diferenciar as concepções de paisagem consolidadas pelas escolas geográficas alemã e francesa. A Escola Naturalista Alemã, herdeira direta do pensamento de Alexander von Humboldt, baseava-se em uma ótica estética e romântica, na qual o conceito de landschaft (paisagem natural) funcionava como elemento integrador de todas as variáveis naturais do meio geobiofísico, centrando seus estudos na observação empírica. Em contrapartida, a Escola Francesa de Geografia, consolidada posteriormente a partir de 1870, desenvolveu sua vertente possibilista consagrada por Paul Vidal de La Blache, destacando uma visão integrada não apenas dos aspectos naturais, mas também de uma correlação espacial entre esses elementos e a ação humana sobre o terreno, conferindo à paisagem (paysage) uma forte carga histórica e cultural, como resultado do trabalho de diferentes sociedades.

No entanto, essa abordagem, que consagrou o conceito de Paisagem-Região como um instrumento de reconhecimento e descrição detalhada de todas as regiões do mundo, tornou-se um “conceito-obstáculo” na visão crítica de Yves Lacoste. Para o geógrafo francês, essa percepção excessivamente empírica e naturalista da paisagem servia para mascarar as contradições sociais inerentes ao Espaço Geográfico produzido no modo de produção capitalista, revelando-se, portanto, um instrumento ineficaz para o planejamento territorial e a compreensão das tensões sociais subjacentes.

Superando essa abordagem puramente descritiva, a Teoria dos Geossistemas, formulada por Victor Sotchava sob influência da Teoria Geral dos Sistemas, e posteriormente desenvolvida no contexto francês por George Bertrand, passou a compreender a paisagem como um sistema dinâmico e complexo. A abordagem de George Bertrand, em particular, calcava-se em um tripé analítico que abrangia os elementos físicos ou abióticos, os elementos bióticos e os elementos antrópicos, os quais interagem de maneira dinâmica e instável, estando em contínua evolução.

Dessa forma, a paisagem não é uma entidade estática, mas um processo em constante devir. Ainda nessa linha de raciocínio, a “Ecologia da Paisagem” – Landscape Ecology, forjada por Karl Troll e desenvolvida por geógrafos estadunidenses e holandeses – reforçou o caráter naturalista do estudo da paisagem, entendendo-a como um produto integrado das variáveis ambientais (geologia, geomorfologia, pedologia, climatologia e biogeografia), cuja resultante espacial mapeável seria a “Unidade de Paisagem”. Tal unidade, dotada de características singulares no meio geobiofísico e socioeconômico, está em constante dinâmica, moldada tanto por processos naturais quanto pela ação transformadora das atividades humanas.

Nesse contexto, a água emerge como “o motor do Geoecossistema”, especialmente em ambientes tropicais úmidos, uma vez que, nas palavras de Ana Luiza Coelho Netto, promove o intemperismo das rochas, a pedogênese e a erosão dos solos, a esculturação do relevo e condiciona a distribuição espacial dos distintos biomas, sendo, portanto, um elemento central para a compreensão da dinâmica da paisagem.

A importância social dos estudos que interligam a paisagem à geodiversidade se manifesta em múltiplas formas. A partir da elaboração do conceito de Geodiversidade, que abrange a diversidade natural entre aspectos geológicos, do relevo e dos solos, as Geociências desenvolveram um novo e eficaz instrumento de análise da paisagem de forma integral, utilizando o conhecimento do meio físico a serviço da preservação do meio natural e do planejamento territorial, podendo, assim, avaliar os impactos decorrentes da implantação das distintas atividades econômicas sobre o espaço geográfico.  Nesse sentido, a análise integrada da paisagem subsidia, por exemplo, a análise de desastres naturais – como deslizamentos, inundações, abalos sísmicos e colapso de terrenos – em áreas de risco geológico, permitindo a mitigação de danos e a preservação de vidas.

Da mesma forma, orienta a disponibilização e preservação de água subterrânea oriunda de aquíferos livres e confinados para abastecimento humano, industrial e irrigação, e viabiliza a investigação de fatores que comprometem a saúde pública, decorrentes do excesso ou carência de determinados elementos químicos, seja por causas naturais (intemperismo do substrato rochoso) ou antrópicas (poluição). Por fim, a aplicação dos estudos do meio físico em sentido amplo é importante para subsidiar políticas de uso e ordenamento do território, promovendo um desenvolvimento mais sustentável e equânime.

Para operacionalizar esses estudos, o Serviço Geológico do Brasil propõe uma metodologia para o mapeamento da geodiversidade, que se baseia na análise integrada de cinco parâmetros fundamentais. A Geologia é analisada segundo a gênese das rochas, a similaridade das unidades litológicas, a composição mineralógica e seu grau de vulnerabilidade ao intemperismo, além do condicionamento estrutural. A Geomorfologia, por sua vez, é avaliada a partir da gênese das formas de relevo, seu grau de dissecação, amplitude, geometria das vertentes e vulnerabilidade aos processos erosivo-deposicionais. A Pedologia é estudada em sua gênese, química (fertilidade), física (profundidade, textura, drenagem e erodibilidade), morfologia e aptidão de uso das terras. Por fim, a Hidrologia e a Climatologia são analisadas em conjunto, levando em conta a dinâmica atmosférica regional, a distribuição da pluviosidade e temperatura, o balanço hídrico e a dinâmica das águas superficiais e subterrâneas.

Essa abordagem multidisciplinar, que se desdobra em diferentes escalas de mapeamento, da continental à regional, permite a identificação de unidades da geodiversidade e a correlação entre as variáveis do meio físico, constituindo-se em um poderoso referencial técnico para a gestão ambiental.

Em síntese, a análise integrada da paisagem, que considera desde os processos geológicos profundos até a ação antrópica superficial, passando pela dinâmica climática e hidrológica, constitui um dos instrumentos metodológicos mais relevantes para os estudos de geodiversidade. Ao compreender a paisagem não como um mero cenário ou panorama, mas como um sistema complexo e em evolução, capaz de revelar as contradições e potencialidades do espaço geográfico, os estudos de geodiversidade oferecem um arcabouço científico essencial para a gestão ambiental, a preservação do patrimônio natural e o planejamento territorial, fornecendo as bases para uma intervenção humana mais consciente, responsável e alinhada com os princípios da sustentabilidade.

Referências

BERTRAND, George. Paisagem e Geografia Física Global: ensaio metodológico. Cadernos de Ciências da Terra, São Paulo, Inst. Geografia/USP, n. 13, p. 1-27, 1972.

COELHO NETTO, Ana Luiza. O Geocossistema da Floresta da Tijuca. In: ABREU, M. A. (Ed.). Natureza e Sociedade no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secr. Mun. Cultura/DGDI, 1992. p. 104-142. (Biblioteca Carioca, 21).

DANTAS, Marcelo Eduardo; COELHO NETTO, Ana Luiza. O impacto do ciclo cafeeiro na evolução da paisagem geomorfológica do Médio Vale do Rio Paraíba do Sul. Cadernos de Geociências, IBGE, n. 15, p. 65-72, 1995.

DANTAS, Marcelo Eduardo; ARMESTO, Regina Celia Gimenez; ADAMY, Adilson. A Origem das Paisagens. In: SILVA, Cássio Roberto da (Ed.). Geodiversidade do Brasil: conhecer o passado para entender o presente e prever o futuro. Rio de Janeiro: CPRM, 2008. p. 33-56.

DANTAS, Marcelo Eduardo; ARMESTO, Regina Celia Gimenez; SILVA, Cássio Roberto da; SHINZATO, Edgar. Geodiversidade e análise da paisagem: uma abordagem teórico-metodológica. Terrae Didatica, v. 11, n. 1, p. 04-13, 2015.

FERREIRA, Rita Valéria; DANTAS, Marcelo Eduardo; SHINZATO, Edgar. Origem das paisagens do Estado de Pernambuco. In: TORRES, F. M. S.; PFALTZGRAFF, P. A. S. (Ed.). Geodiversidade do Estado de Pernambuco. Recife: CPRM, 2013. p. 51-71.

GRAY, Murray. Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature. New York: John Wiley & Sons, 2004.

LACOSTE, Yves. Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Ed. Papirus, 1976.

SOTCHAVA, Victor. O Estudo dos Geossistemas. Métodos em Questão, Inst. Geografia/USP, n. 16, p. 1-51, 1960.

TROLL, Karl. Landscape Ecology. ITC-UNESCO Centre for Integrated Surveys, Paper S. 4, 1966.

Publicado por
Francisco Fernandes Ladeira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com