Ser ativo nas metodologias: o que (não) estamos discutindo sobre os professores?

Breve análise sobre ser ativo nas metodologias de ensino atuais em contraponto às práticas unidirecionais de ensino, nas quais se transmite um único ponto de vista, com pouca abertura ao diálogo e à mobilidade cognitiva no trato com conteúdos e estudantes.

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O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com

Para os historiadores, a ideia de “Era” é muito significativa, tanto do ponto de vista cronológico quanto do sentido metafórico dos grandes acontecimentos, haja vista as lições do historiador britânico Eric Hobsbawm. O que nos salta aos olhos, neste primeiro quarto do século XXI, a partir de um prisma histórico-educacional, são as mudanças pelas quais a sociedade e a educação vêm passando. Transformações que nos levam ao universo da cibercultura de Pierre Lévy e às novas funções pedagógicas, pontuadas e analisadas pelo professor José Carlos Libâneo. Dialogar com o pensamento desses autores, entre outros, é importante para compreender que a chamada Era da Tecnologia Global está na ordem do dia, modificando, como nunca antes, as relações na escola e no processo de ensino-aprendizagem.

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A tecnologia, que pode ser pensada desde o mito de Prometeu, com o seu fogo sagrado, até o domínio da pólvora no século IX, é produto da sociedade e da cultura. Trata-se de uma produção aprimorada pelos usos e pelas necessidades sociais. A título de exemplo, o fogo — em diferentes contextos históricos — permitiu fundir metais, alimentar populações e impulsionar as máquinas a vapor da Revolução Industrial. As implicações das inovações tecnológicas são plurais e variam entre contextos e países. Ao inclinar as arestas do debate para a educação, observa-se um campo profundamente impactado pela cultura digital, tanto na forma quanto no conteúdo, especialmente nos hábitos e nas interações mediadas em rede.

Imergir na carreira docente no Brasil, sobretudo, é reconhecer uma luta extenuante diante de um modelo educacional marcado por desigualdades. Essas desigualdades são acentuadas por fatores socioeconômicos internos e externos, que influenciam o desempenho do país em programas internacionais de avaliação, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, PISA. O Brasil apresenta dificuldades nos desempenhos qualitativos dos estudantes quando comparado a países vinculados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE, o que evidencia desafios estruturais e limitações no desenvolvimento educacional. As barreiras de infraestrutura, especialmente nas escolas públicas — como a falta de recursos, bibliotecas e laboratórios —, somam-se à desvalorização do profissional docente: baixos salários, formação precária, jornadas extensas e condições de trabalho e socioemocionais fragilizadas.

Diante do cenário descrito, como desancorar o professor e torná-lo capaz de navegar na tecnologia digital que emerge da sociedade, por meio de metodologias ativas, currículos flexíveis e modelos colaborativos em rede? Uma espécie de “Paideia Digital” nos convida a refletir sobre uma perspectiva sociocrítica da educação, articulando formação cultural e científica para desenvolver, no aluno, dimensões intelectuais, afetivas e morais. É inegociável que a docência se constitua na figura do professor reflexivo, investigativo e mediador. Para isso, é necessário enfrentar as limitações financeiras e os efeitos de políticas educacionais restritivas, mas também encarar, no exercício da docência, o conjunto de exigências inerentes à escola contemporânea.

As incumbências docentes já não se restringem ao uso do computador para elaborar relatórios ou preparar planos de aula. Elas passam a incluir a integração, no planejamento e na ação pedagógica, de recursos de letramento digital e de inteligência artificial, capazes de dinamizar a proposta de ensino. Isso implica otimizar o tempo de produção das aulas — especialmente diante da baixa remuneração —, reduzir tarefas burocráticas e possibilitar a personalização de pesquisas, roteiros e estudos adaptativos e inclusivos. Implica também propor atividades baseadas na cidadania digital, de forma ética, contribuindo para o enfrentamento da desinformação.

Ser ativo nas metodologias de ensino implica afastar-se, de forma equilibrada e ressignificada, de práticas unidirecionais de ensino, nas quais se transmite um único ponto de vista, com pouca abertura ao diálogo e à mobilidade cognitiva no trato com conteúdos e estudantes. Quem atua na área da educação reconhece que as correntes teóricas que fundamentam o ensino não se tornam obsoletas rapidamente, mas negar os avanços da linguagem digital presente na sociedade e na escola é comprometer o ensino e a aprendizagem em modelos já desconectados da realidade contemporânea. Relegar os livros didáticos, atualizados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), a uma leitura superficial em sala de aula, sem preparar o aluno para os desafios, pesquisas e interações digitais propostas no material, pode indicar fragilidades no processo de mediação pedagógica.

Colocar o aluno no centro do processo educativo não é mais uma formulação restrita ao campo pedagógico, mas uma necessidade para a construção de métodos colaborativos, eficazes e voltados ao protagonismo juvenil. Os jovens já atuam como protagonistas na escola, na sociedade e na cibercultura. Isso significa que práticas docentes centradas na exposição tradicional tendem a enfrentar barreiras de comunicação e desencontros entre as expectativas pedagógicas e a linguagem digital contemporânea.

Nesse contexto, torna-se fundamental criar projetos baseados em problemas reais, com o envolvimento de mais de uma disciplina, adotando estratégias que possibilitem articular o ensino presencial e a aprendizagem em plataformas online, em uma perspectiva híbrida. Trata-se também de engajar os alunos por meio de estratégias como a gamificação, aproximando-os dos conteúdos e ampliando o comprometimento com a aprendizagem ativa, ao mesmo tempo em que se valorizam suas experiências e percursos.

As condições ainda são adversas para idealizar e colocar em prática uma cultura digital na escola. A chamada “nova escola”, expressão que remete ao movimento dos pioneiros da educação, já colocava o aluno no centro do processo pedagógico, mas também enfrentou resistências. Nem em 1932, nem possivelmente agora, as inovações teórico-metodológicas — e, hoje, digitais — são plenamente acolhidas, sendo muitas vezes recebidas com desconfiança, experimentadas de forma limitada ou amplamente criticadas. Assim, mais do que discutir metodologias ativas, é preciso reconhecer que ainda discutimos pouco — ou quase nada — sobre o lugar do professor nesse processo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resultados do PISA. Brasília: Inep, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/pisa/resultados. Acesso em: 4 jun. 2026.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HORN, Michael B.; STAKER, Heather. Blended: using disruptive innovation to improve schools. San Francisco: Jossey-Bass, 2014.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

LIBÂNEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

MORAIS DOS SANTOS, J.; PASQUALLI, R. Gamificação como prática educativa: o que dizem os professores de um curso de formação de docentes de nível médio. Revista Cocar, Belém, v. 20, n. 38, 2024. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/7881. Acesso em: 12 maio 2026.

OECD. Programme for International Student Assessment (PISA). Paris: OECD, 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/pisa/. Acesso em: 4 jun. 2026.

ROSA, Tânia Maria Rodrigues da. Gamificação: uma prática para revitalizar a educação. 2018. 74 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Mídias na Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/203236/001108936.pdf. Acesso em: 12 maio 2026.

SANTOS, Patrícia Vieira (Org.). Metodologias ativas: modismo ou inovação? v. 2. Goiânia: Editora IGM, 2023.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 44. ed. Campinas: Autores Associados, 2021.

Publicado por
Luiz Adriano Lucena Aragão

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