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Porque nas Propagandas as Bonecas para Crianças Nunca são Pretas? será o Preconceito Ideologicamente Sendo Transposto!

Sociologia

Análise sobre o racismo sendo transposto nas propagandas de bonecas para crianças.

Este breve relato com argumentos criados a partir de fatos observados ao longo de anos na mídia, telenovelas e propagandas televisionadas e analisados com frieza, não tem a pretensão conduzir nenhuma forma de pensamento, apenas fazer refletir criticamente que não há e nunca houve nenhuma “democracia racial” no Brasil e sim sistema seletivo preconceituoso que separa primeiramente pela cor da pele, condição econômica, social ou jurídica e por fim dependendo dos favores ou benefícios que o escolhido pode lhes proporcionar ao padrinho ou agenciador. Tudo que será dito a diante terá um caráter pedagógico, levando os leitores do texto a refletirem sobre as mazelas raciais vinculadas aos propósitos socioeconômicos vigentes no Brasil e que muitas vezes as pessoas fingem não ver por simplesmente não quererem ou não estar preparadas para argumentações que envolvam conflitos históricos de dimensões ideologicamente construídas. É como disse Nelson Mandela “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Mandela está dizendo que todos os valores, atributos e atitudes que são disseminados socialmente são primeiramente aprendidos para ser serem propagados; nessa analise também vamos argumentar a cerca dos valores preconceituosos aprendidos pelas crianças e que uma das maneiras de fazer isso é através da propaganda de brinquedos, no nosso caso as bonecas infantis apresentadas na TV que predominantemente são “Barbies”, brancas, de olhos azuis e representando a aristocracia e a elite dominante intitulada branca que julga ter valores supremos e superiores aos do povo negro e que só tende a reforçar o distanciamento social entre os pretos e “brancos” no que referem as oportunidades sociais e os estereótipos reproduzidos socialmente.

É de conhecimento dos brasileiros que o Brasil é um país com a grande maioria de habitantes de cor preta, e a grande falácia é a argumentação tipicamente e historicamente dita que no país reina a democracia racial. O histórico sobre a construção dos argumentos que envolvem os elementos raça e cultura são os mais perversos possíveis quando são atribuídos ao povo negro, eles vem sendo disseminados desde o período de institucionalização do regime escravocrata e vira e mexe, quando a elite dominante “branca” ou pelo menos que os se acham dessa forma, quando querem desqualificar o perfil dos indivíduos negros e os lançarem na invisibilidade social, rememoram e lançam sobre eles estereótipos tais como “negro insolente” quando o negro reclama de algum problema ou reivindica direitos, pois acham que a escravidão ainda reina de forma declarada; temos ainda as telenovelas que quase sempre delegam as atividades ou as funções de menor prestigio ou mesmo que requerem força física, para não dizem força bruta, para serem executadas por negros; dentre elas podemos citar empregados domésticos, seguranças, motoristas e tantas outras nas quais se institucionalizou-se a ideia que são funções precisam apenas de força e não de uso dos recursos intelectuais que os negros dispõem, é como se não tivessem raciocínio.

Dentre todos os estereótipos e atributos direcionados aos negros no contexto socioeconômico talvez o pior deles é ouvir alguém dizer que quase não se encontra negros em papeis principais nas telenovelas e programas de grande audiência porque são poucos negros qualificados dentro do perfil requerido; não vemos esse mesmo pensamento quando alguém que por ter “belas curvas”, pele “branca” e raciocínio pouco apurado, vocabulário “culto” e que diz “i” de “intrega”; tudo que foi dito até aqui é algo pernicioso construído desde a infância e que de certa forma foi transposto quase que de maneira suave na mente das crianças para que elas reproduzam posteriormente e quase que de maneira espontânea, como é o caso dos brinquedos e propagandas das bonecas para meninas, nunca são pretas, será que todas as crianças são homogêneas, todas de pelas “brancas” e tem que se identificarem com as bonecas Barbie sempre magrinhas, cheias de maquiagem, ostentando poder, aristocracia e superioridade; será que é isso, ou se forem apresentadas bonecas pretas as vendas caem, a elite protesta, as fabricas fecham ou no dizer da elite racista que se intitula branca, as bonecas negras pretas não tem poder de aproximação com o público infantil e podem gerar conflitos sociais; essa argumentação nada mais é do que uma maneira sutil de promover a invisibilidade do povo negro nos meios de propaganda de massa e promover ideologicamente a transposição de estereótipos na mente das pessoas, levando-as a atribuir juízos de valores preconceituosos tais como “a branquinha de olhos azuis é mais bonita” “a moreninha escura (forma preconceituosa sutil de dizer pretinha) até que é simpática, mas prefiro a loirinha”.

A postura adotada pelas crianças negras quando são colocadas frente a frente com brinquedos que representam valores da elite branca, tendem a desvincular os valores de sua cultura em beneficio daquela que perversamente através de propagandas preconceituosas foram levadas a pensar e agir segundo esses valores, como é o caso de um vídeo americano cujo título atribuído no site Youtube é “Racismo desde criança - Comparando as bonecas” no qual crianças negras são perguntadas sobre duas bonecas uma preta e uma branca, no entanto elas dizem que a mais bonita é branca, a mais feia é a negra, a mais agradável é a branca e a má é preta; quando são indagadas porque a mais bonita é a branca, dizem por que ela tem olhos azuis; quando são questionadas porque a boneca preta é má, dizem por que ela é preta, mas quando é perguntado para a menina qual das bonecas mais parece com ela, com semblante de tristeza, como se quisesse dizer infelizmente é aquela preta, ela confirma e aponta a boneca preta. O vídeo analisado aqui é um instrumento que pode ser usado para exemplificar o quanto as empresas que investem propagandas de bonecas estão sendo perversas induzindo as crianças negras a idealizarem bonecas brancas como sendo um estereotipo ideal de beleza, levando-as a desqualificar sua cor devido ao processo de aculturação propagado pela mídia. Quando assisti ao vídeo, veio à tona tudo que já presenciei e vi na mídia sobre a promoção da invisibilidade do povo negro em prol dos propósitos capitalistas segregadores, surgiu então a necessidade de escrever este modesto texto para tentar fazer valer os objetivos propostos pela Lei 10.639 de 2003 no que se referem ao processo de valorização e inclusão social do negro e seu talento e potencial vivo e predominante na cultural Brasileira e que não ser ofuscada.

Dessa maneira, estudar as faces sutis do preconceito disseminado de forma implícita através das propagandas, principalmente para crianças, é uma oportunidade de verificar como a lei 10.639 que prevê maior visibilidade e inclusão do povo negro, visando corrigir gradativamente o estigma de “res vocale” (coisa que fala) e promover a tão divulgada cidadania prevista nas leis, mas que na prática acaba sendo burlada pelos mecanismos de propaganda e marketing.

Quem sabe a partir de tais análises seja possível propor adequação das publicidades aos ditames da lei 10.639 evitar que o preconceito seja enraizado na mente das crianças, fazendo-as perceber e valorizar a diferença, a diversidade humana, se tornando pessoas conscientes e mais justas.

Este é um longo caminho a percorrer devido a sedimentação do preconceito no universo social brasileiro, mas confiantes divulgando que é justamente as diferenças que devem unir as pessoas e não a igualdade, porque os se tornam pessoas insensatas e intolerantes para com aqueles que muitas vezes não fazem parte de seu mundo; e nesse aspecto a questão racial é muito latente pode fomentar ricas discussões que podem ser aproveitadas pelos organismos de promoção da igualdade social entre as pessoas de cores diferentes e com isso construir uma sociedade mais consciente, justa e fraterna. É como o próprio Nelson Mandela disse: “Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração." E com base no pensamento de Mandela que pretendemos através deste pequeno e modesto texto tentar falar com as pessoas em sua própria linguagem, que é a linguagem universal da consciência e compreensão da diversidade presentes no outro, que é diferente apenas no aspecto físico, mas igual em direitos e oportunidades, e assim, atingir o coração delas para juntas possam a combater o preconceito e o racismo na sua base, no caso descrito no texto, a educação consciente e o repúdio as propagandas cujo conteúdo instiga o preconceito e o racismo.

Fontes consultadas para escrever o texto:

Site: Youtube

http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ

Site: http://pensador.uol.com.br/autor/nelson_mandela/

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* João do Nascimento é Historiador formado pela Faculdade de Ciências Humanas de Sete Lagoas, Pós-graduado em Docência do Ensino Superior pela Universidade Castelo Branco, Pós-graduado em História da Ciência pela UFMG e Pós-graduado em História e Cultura Mineira pela Faculdade de Ciências Humanas de Pedro Leopoldo/MG.

E-mail: oaxioma@gmail.com


Publicado por: JOÃO DO NASCIMENTO

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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