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Dona Quinô e o medo de ser só

Redação

Confira aqui a narrativa da Dona Quinô e o medo de ser só.

Dona Quinô, no auge de seus quase oitenta anos de juventude, remexia, entre resmungos, sua bolsa branca com listras azuis. Tristonha, lançava um olhar para fora da topique, outro para as caixinhas que, aos poucos, ia retirando da bolsa branca com listras azuis. 

Ela mostra suas cartelas de comprimidos. Uns para dormir, outros para regular a pressão. Disse não estar doente, tampouco estava caduca. Ficaria doente mesmo só se tomasse todos aqueles remédios. Altas dosagens a deixariam entupida, ela brinca.

Dona Quinô era esperta. Não se deixava iludir pelo médico, mesmo voltando de uma longa noite no hospital, internada com pressão alta. A pressão subira depois de acompanhar a novela, aquela das nove horas. Não aguentou ver a personagem “fazendo tanta ruindade” com o marido, como ela mesma me disse, e foi parar no hospital.

A filha mais velha de Dona Quinô, Nilda, conta que certo noite encontrara a mãe, com um chinelo na mão, batendo na tevê. 

Dona Quino justifica-se, alegando estar, apenas, dando “umas palmadas” na personagem, como corretivo pelo mau comportamento.

A novela era a única coisa que entretinha Dona Quinô. Também gostava de um padre que reza a novena que nunca se acaba e "benze a água" toda a amanhã. A noite acompanhava a novela. Chorava, ria, brigava. Quando a briga era demais a pressão subia. Mas nada que mereça um hospital.

Mesmo assim, o médico a proibira de "envolver-se demais com novelas". De agora em diante só tricô. Pergunto se ela gosta da recomendação. Dona Quinô mexe a cabeça, fazendo um sinal que não.

Quando fala sobre a novela, Dona Quinô sorri, levando a mão à boca. Depois volta a ficar triste, cabisbaixa. Percebo o motivo de sua tristeza. Talvez fosse a falta que a novela lhe faria. Talvez o medo de, ao chegar à hora da novela, não ter com quem falar, rir, chorar. Era isso.

Os filhos, todos casados, só apareciam aos domingos e quando ela preparava “pirão com carne de galinha e pequi”. Maria, sua cunhada, até aparecia, vez em quando. Mas sempre estava com pressa. Conversava um tiquinho, depois ia embora. Dona Quinô voltava a ficar só. Uma menininha lhe fazia companhia durante a noite. Mas não conversava com ela. Preferia o celular.

O medo de ser só era doido demais para Dona Quinô. Talvez ela ficasse mesmo doente. Não pelo envolvimento demasiado com a novela. Doente de solidão.


Publicado por: PATRÍCIA MIRELLY LIMA SILVA

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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