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Pichação: muito mais do que um crime

Psicologia

Clique e saiba quais são as características da pichação, considerada como crime.

Para começar, é importante dizer que a pichação se acha presente na história da humanidade há bastante tempo, como, a saber, na Antiguidade, onde foi utilizada para insultar, propagar determina posição política e até mesmo para expor produções poéticas. Na Idade Média, onde foi utilizada por padres para demonstrar aversão a conventos que não partilhavam de suas ideologias, bem como para insultar e evidenciar oposição política. Em nossa cultura, passou a ser utilizada com assiduidade, de fato, a partir da Segunda Guerra Mundial, com a Revolta Estudantil de 68, em Paris. Desde então, foi possível perceber a presença de pichações nos EUA, mais especificamente em Los Angeles, onde foi utilizada por gangues para demarcar território, sobretudo para controlar a comercialização de drogas. Não podemos nos esquecer do Muro de Berlim, que, antes de ser derrubado em 89, continha pichações de protesto.

Já no Brasil, a pichação começou a ser utilizada, com frequência, a partir das décadas de 70 e 80, em São Paulo, com as assinaturas “Cão Fila” ou “Km 26”, “Juneca” e “Pessoinha”. A partir de então, surgiram outras assinaturas, principalmente no Rio de Janeiro, sendo que alguns de seus produtores preferiam o anonimato à popularidade, enquanto outros passavam a ser famigerados. Em geral, a pichação foi e ainda está sendo compreendida como um ato de escrever ou rabiscar frases de insulto, protesto, declaração amorosa, assinatura pessoal e, não menos, demarcação territorial, em muros, postes, fachadas, edifícios, viadutos, pontes, trens, bem como demais espaços públicos. Para tanto, sendo utilizados Sprays aerossóis, rolos de tintas ou até mesmo líquidos, geralmente de cor preta, para tratamento de calçados de couro, por exemplo, Nugget. Se produzida com recorrência em lugares cada vez mais altos e com vigilância policial intensiva, confere ao indivíduo que a produziu a oportunidade de chegar ao topo da hierarquia dos grupos de pichadores.

Além disso, é compreendida como um ato agressivo que estimula os sentidos dos citadinos, sendo uma agente causadora de estresse, medo e insegurança. É compreendida como despossuída de qualquer caráter artístico ou comunicativo, aliás, é compreendida como um tipo de vandalismo e crime ambiental, que prevê pena de detenção de 3 meses a 1 ano mais multa, conforme está no artigo 65 da Lei 9.605/98. Em se tratando de leis, há também a Lei 12.408, que visa a vedar a comercialização de Spray para menores de 18 anos, bem como a obrigar às empresas responsáveis pela produção deste produto a deixarem a frase “Pichação é crime” visível. Não menos, é possível ver também a pichação compreendida como formação de quadrilha, o que implica penas maiores, tal qual ao que aconteceu em 2010, em Belo Horizonte, isto é, a prisão de um grupo de oito pichadores intitulados “Os Piores de Belô”. Nessa conjuntura, vem se distanciando do Grafite, que tem sido compreendido como de alto valor estético, uma forma de expressão artística contemporânea, embora ainda seja repudiado por uma minoria e crime, caso seja praticado em lugares públicos ou privados sem permissão.

Imagem de Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O problema é que defender e propagar essa linha de pensamento acerca da pichação, ou seja, que ela é destituída de qualquer significação e um ato única e exclusivamente criminoso, é, minimamente, superficial, porque objetiva reduzir drasticamente o fenômeno em uma única dimensão, bem como a ocasionar lacunas profundas nas perspectivas histórica, social e econômica da história da humanidade e da nossa cultura. Esse tipo de pensamento não contribui com nada, exceto com a marginalização tanto da pichação quanto de quem a pratica. Muito mais do que um crime, a pichação é um tipo de manifestação cultural, é a escrita urbana.

Não podemos ignorá-la, bem como não podemos ignorar a comunicação estabelecida através dela, porque deixa marcas no espaço urbano, faz com que o imaginário dos citadinos seja tocado. Visando a realizar crítica social, a pichação serve como uma tentativa de mudar aquilo que, aparentemente, já está posto. Nesse sentido, seus produtores se tornam agentes em seus contextos histórico, social e econômico. Além disso, é possível compreender a pichação como a comunicação de afetos e ausências que insistem em ser registradas no espaço público, a fim de que sejam reconhecidas.

Mais até, a pichação registra, em espaços convencionais, fatos da história da humanidade, ao mesmo tempo em que se inter-relaciona com novos fatos pertencentes a determinado contexto histórico. Funciona como uma via de expressão, para crianças, jovens, adultos e idosos, daquilo que, de uma maneira ou de outra, foi barrado, seja por ser por quem fala, o que se fala ou por que se fala. É, em sua essência, antes uma forma de evidenciar aquilo que foi encoberto do que uma transgressão. Aliás, não será justamente por isso que a pichação é compreendida como um ato criminoso...?

Enfim, cumpre dizer que, com essa outra linha de raciocínio, não se busca desresponsabilizar o ato de pichar, mas, sim, uma nova maneira de abordar a pichação, já que ela é um fenômeno complexo. É importante compreender que quanto mais se abordar a pichação com estratégias fundamentadas em ações repressivas e punitivas, menos resultados serão alcançados, conforme é possível perceber. Não há como promover mudança no contexto em que vivemos se não há, em primeiro lugar, mudança em nosso jeito de compreender e agir perante a realidade e suas complexidades.


* Jonathas Rafael dos Santos: psicólogo formado pela Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Divinópolis – FACED (2015). Brasil.


Publicado por: Jonathas Rafael

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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