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Você é o que Você Expressa

Pedagogia

caráter dialético, ponto de vista cultural e filosófico, domínio da leitura e da escrita como forma de interagir com a linguagem...

Um dos saberes primeiros, indispensáveis a quem, chegando a favelas ou realidades marcadas pela traição a nosso direito de ser, pretende que sua presença se vá tornando convivência, que seu estar no contexto vá virando estar com ele, é o saber do futuro como problema e não como inexorabilidade. É o saber da História como possibilidade e não como determinação. O mundo não é. O mundo está sendo. Com subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da História, da cultura, da biologia, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar”. Paulo Freire


Toda linguagem tem uma metafísica própria.
Eu, quando garoto, tinha duas metafísicas, porque era bilíngüe.
Sabia falar a língua da escola e a língua de Guimarães Rosa.
” Tom Zé

O grande desafio, no que se refere à Educação, é saber lhe dar com o seu caráter dialético, tanto do ponto de vista cultural filosófico, quanto das práticas pedagógicas de ensino-aprendizagem – e é esta a chave de analise e argumentação desse artigo.

No contexto contemporâneo, no campo da alfabetização e do letramento, algo que parece banal em tempos de televisão e internet, considero ser a chave para a produção de conhecimento: ler e escrever. Todavia, não no sentido mecânico, mas no sentido simbólico, o domínio da leitura e da escrita como forma de interagir com a linguagem, não como esta se apresenta, mas como ela representa.

Um acontecimento social que comprova esta preocupação com a qualidade do estudante brasileiro é a troca cada vez maior de testes de múltipla escolha por redações argumentativas nos concursos públicos. Esse fato levou-nos a crer que o conhecimento está na diversidade da linguagem; artifícios como calculadora, tabela periódica dos elementos químicos, dicionários, por exemplo, outrora só pertencentes ao professor, agora são utilizadas pelos alunos em sala de aula. Nesse sentido, a percepção e a memória foram abrindo espaço para a interpretação e a imaginação.

A partir daí cresceu a grande responsabilidade do ensino de Língua Portuguesa.

Durante boa parte da história da Educação brasileira o aluno era tido como culpado do seu fracasso escolar, porque a Educação estava voltada principalmente para “como se ensina”, pouco se preocupava “como se aprende”. Para ilustrar; quem não se lembra dos tradicionais exercícios mimeografados que defendia a idéia didática de que o treino de um conjunto de habilidades psicomotoras produziria as condições necessárias para aprender a ler e a escrever, ou do tradicional silabário da cartilha? O objetivo da leitura era a decodificação em silêncio e o da escrita a mera correção do produto gráfico.

Deu-se inicio então a novas formas de “fazer escola”, que não ocorreu com a simples mudança de discurso e sim através de um processo continuo e lento de transformação das ideologias e das ações. No campo da Língua Portuguesa os estudos da Lingüística contribuíram para a compreensão da linguagem, por exemplo, na gramática textual, na teoria da comunicação, na semiótica e na analise sintático-semântica do discurso. Partindo desses estudos nasceram novas ciências da linguagem, a Sociolingüística e a Psicolingüística. Entre os pensadores que influenciaram essa época, destaco Piaget com o construtivismo e a epistemologia genética e temos Vygotsky com as concepções psicológicas do conhecimento e a utilização da linguagem como instrumento simbólico. O estudante deixou de ser visto como uma “tabula - rasa” na qual se ia gravando “pacotes de informações” e começou a ser visto como um ser ímpar que detém uma “bagagem cultural”, uma “visão de mundo”, não como um objeto empírico e sim como um sujeito analítico.

A linguagem é uma prática discursiva, daí a necessidade do estudo cientifico e dinâmico da língua escrita e oral, proporcionando uma diversidade textual: poesias, romances, documentos históricos, seminários, teoria filosófica, jornais, revistas, vídeos, curtas-metragens, teatro, entre outros. Tanto como consumidores críticos, quanto como produtores responsáveis, sócio-comunicativos, estabelecendo a discussão dialógica que proporciona o processo de construção de significado, afinal, a inteligência humana é uma inteligência lingüística. Assim o texto não é a mera materialidade gráfica da linguagem, mas uma forma ativa de ação e interação metacognitiva, oferecendo um leque de interpretações e representações.

A partir desse ponto começa as discussões sobre a pluralidade lingüística no território brasileiro e o ensino canônico da oralidade e da gramaticologia, além das relações de poder que começam a ser estudadas junto à formação da educação. No Brasil, destaco Paulo Freire que avalia processos pedagógicos à contextos socioeconômicos, de como o discurso maniqueísta “certo” e “errado” acarreta em subordinação sociocultural e preconceitos. No ensino público, por exemplo, o aluno tem acesso à educação, mas não tem sucesso nela, ocorreu então uma “pseudodemocratização”. Junto a Freire na critica educacional ao Estado, destaco Louis Althusser, Antonio Gramsci e Michael Foucault, para quem a educação pode e é utilizada como forma de manutenção do status quo e domínio público.

Aos olhos de gramáticos, filólogos e professores pode parecer loucura estabelecer relações tão amplas ao mero ensino-aprendizagem da linguagem, todavia, a língua é por excelência analógica, o discurso das idéias e sua dialeticidade metalingüística é que dinamizam a História humana.

Por isso é necessária a inteira preocupação com a linguagem que se ensina e que se aprende nos contextos socioculturais interculturalistas. Diferente de multiculturalismo e das idéias de Habermas e outros sociólogos europeus, leia-se interculturalismo segundo os conceitos de Muniz Sodré, para quem interculturalismo é a transferência e a influencia recíproca de aproximações simbólicas entre uma cultura e outra, também denominado de transculturalismo.

Não por acaso, o discurso de ensino da linguagem não vingou na prática como se esperava, a imagem senso-comum estereotipada que existe no consenso público é a de que aula de língua portuguesa é aula de gramática. Com uma didática voltada para a produção de conhecimento de mundo, interpretação e produção de texto, interação sócio-comunicativa, enfim, é inaceitável considerar linguagem: o estudo ordenado das classes de palavras com suas múltiplas subdivisões, a construção de paradigmas morfológicos, com as conjugações verbais estudadas de um fôlego em todas as suas formas temporais e modais, ou de pontuação, como todas as regras de concordância, com suas exceções reconhecidas, etc. O objetivo da prática lingüística não é esse. Isso não é linguagem. Esse é o tipo de conhecimento descontextualizado, desarticulado, do tipo que “só serve para ir bem nas provas”. A própria funcionalidade da gramática precisa ser levada em consideração, não podemos entender gramática como um “todo imutável” que define a norma padrão como forma prestigiada de falar e escrever, pelo contrário, a gramática é também orgânica e não apenas normativa, não é um livro sagrado e sim uma produção histórica – portanto, a questão fundamental não é ensinar ou não gramática, e sim para que, o quê e como ensiná-la, afinal, memorizar terminologias e definições não faz de ninguém mais inteligente e muito menos, na pedagogia de ensino-aprendizagem, o estudante aprende a ler e escrever melhor. A gramática tem que ser analógica e articulada, com funcionalidade utilizada junto a artifícios de interpretação textual.

A gramática analógica é aquela que se empenha em desconstruir e reconstruir o corpus textual na sua produção de efeito e significado. Por exemplo, examinando construções semânticas de linguagem literária, identificando gêneros, tipos de figura predominante (imagens, metáforas, símiles...), o valor da sintaxe predominante (frase ampla ou breve, tipo de subordinação e coordenação, frases elípticas...), a natureza dos substantivos escolhidos, tempos ou modos de verbo, uso expressivo do artigo, da conjunção dos advérbios, das preposições, enfim, tudo em função do significado essencial do todo, não apenas de exercícios soltos que exigem mero reconhecimento. Além disso, vale salientar que o ensino da gramática deve ser intertextualizado junto a interpretação e produção de textos e que a gramática auxilia, mas não determina a interpretação do texto, pelo contrário, as diversas interpretações é que determinam conceitos gramaticológicos, que como toda ciência deve estar sempre em evolução. Não é a simples utilização de “tinha” no lugar de “havia” que vai fazer o poema “Tinha uma pedra no meio do caminho” de Drummond produzir um efeito poético e semântico menos inteligente. Toda língua precisa de um documento que permita poder político a ela, mas não pode ser determinista e oprimir a diversidade que faz dela mesma língua vivida, falada e escrita. Da mesma forma as sociedades arcaicas e ágrafas não podem ser consideradas desprovidas de linguagem, como os aborígines da Austrália, pelo contrário, devem ser entendidas que a linguagem existe em todos os contextos e formas possíveis, oscilando em todas as culturas, sem deixar de ser linguagem.

Para aprofundarmos um pouco mais, Marcos Bagno¹ nos convida a algumas reflexões relevantes, analise os recortes abaixo:

Quando o assunto é língua, existem na sociedade duas ordens de discurso que se contrapõem: (1) o discurso cientifico, embasado nas teorias da Lingüística moderna, que trabalha com noções de variação e mudança; e (2) o discurso do senso comum, impregnado de concepções arcaicas sobre a linguagem e de preconceitos sociais fortemente arraigados, que opera com a noção de erro. (...)

A noção de “erro” em língua nasce, no mundo ocidental, junto com as primeiras descrições sistemáticas de uma língua (a grega), empreendidas no mundo de cultura helenística, particularmente na cidade de Alexandria (Egito), que era o mais importante centro de cultura grega no século III a.C. Como a língua grega tinha se tornado o idioma oficial do império formado pelas conquistas de Alexandre (365-323 a.C.), surgiu a necessidade de normalizar essa língua, ou seja, de criar um padrão uniforme e homogêneo que se erguesse acima das diferenças regionais e sociais para se transformar num instrumento de unificação política e cultural. Data desse período o surgimento daquilo que hoje se chama, nos estudos lingüísticos, de Gramática Tradicional – um conjunto de noções acerca da língua e da linguagem que representou o início dos estudos lingüísticos do Ocidente. (...)

Por causa de seus preconceitos sociais, os primeiros gramáticos consideravam que somente os cidadãos do sexo masculino, membros da elite urbana, letrada e aristocrática falavam bem a língua. Com isso, todas as demais variedades regionais e sociais foram consideradas feias, corrompidas, defeituosas, pobres, etc. (...) Por exemplo: para os falantes urbanos escolarizados, pronuncias como “broco”, “ingrês”, “chicrete”, “pranta”, são feias, erradas e toscas. Essa avaliação se prende essencialmente ao fato dessas pronuncias caracterizarem falantes socialmente desprestigiados (analfabetos, pobres, moradores da zona rural etc.). No entanto, a transformação do “L” em “R” nos encontros consonantais ocorreu amplamente na história da língua portuguesa. Muitas palavras que hoje tem um “R” apresentavam “L” na origem que advinha do Latim, como: cravo, fraco, obrigar, prazer, prumo, enfim, originalmente se escrevia e falava clavu, flaccu, obligare, placere, plumu.

O próprio Latim nem sempre foi esse Latim tal como o conhecemos, como língua sagrada do Império Romano, cultuada pela Igreja Católica, ou utilizada nas escrituras de Cícero, César e Sêneca. Essa imagem foi construída principalmente após o Renascimento Cultural e o Concilio de Trento do catolicismo que implantou a Contra-Reforma. Pelo contrário o latim era uma língua bárbara, inculta, proibida e só cultivada pelas classes abastardas. Não existem e nunca existiram línguas imutáveis.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação²:

Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma “correta” de falar, o de que a fala de uma região é melhor do que a de outras, o de que a fala “correta” é a que se aproxima da língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua difícil, o de que é preciso “consertar” a fala do aluno para evitar que ele escreva errado (...) O que se almeja não é impor aos alunos um “falar certo”, mas permitir a escolha da forma de falar a utilizar, considerando as características e condições do contexto de produção, ou seja, é saber adequar os recursos expressivos, a variedade de língua e o estilo às diferentes situações comunicativas: saber coordenar satisfatoriamente o que fala ou escreve e como fazê-lo; saber que modo de expressão é pertinente em função de sua intenção enunciativa – dado o contexto e os interlocutores a quem o texto se dirige. A questão não é de erro, mas de adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada da linguagem.

Partindo dessas concepções de língua e linguagem a Prof. Magda Soares em entrevista a TV Escola (do MEC) fez algumas afirmações que também considero relevante levando em consideração o espírito desse texto:

A gramática é como um dicionário: temos que saber usar e consultar, ninguém decora um dicionário! (...)

Acerca do livro didático existe o papel ideal e o real. Idealmente, deve ser apenas um suporte. Mas, realmente ele é utilizado como roteiro de trabalho da maioria dos professores, sendo sua diretriz básica. (...) Frequentemente professores de outras disciplinas questionam ao professor de Língua Portuguesa que os alunos não sabem interpretar um problema de Química ou Matemática, que não sabem escrever sobre História ou Geografia. A verdade que não é aceita é a de que todos os livros (biologia, ciência, etc.) são de leitura, ensinar a ler e a escrever é responsabilidade de todas as áreas do conhecimento.

Como diria Luis Fernando Veríssimo em seu livro “O Gigolô das Palavras”:

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.

Não sou pedagogo, também nunca escrevi uma gramática ou um livro didático, não tenho diplomas, mas pergunto: Qual a função da escola na formação de leitores? E a do livro didático? O que se deve ensinar? Como se deve ensinar? Para quê e por que ensinar? Como ensinar a aprender e aprender a aprender? É preciso saber escrever certo mesmo que os meios eletrônicos saibam corrigir nossos textos? E o professor-aluno de Língua Materna, nativamente a Língua Brasileira, como deve ser a sua educação? Philippe Perrenoud em certa passagem afirmou: “Por que eu aprenderia a jogar golfe ou a cozinhar se não tenho necessidade ou vontade disso?” Ou seja, por que, o que e como estudar?

Penso ser esta questões pertinentes de caráter ontologicamente humano, portanto não tomem minhas conclusões e comentários como realidade absoluta, e sim como idéias não excludentes de um todo complexo, que é não apenas a Educação em seu caráter público-administrativo e o ensino puramente didático da língua materna, mas a funcionalidade existencial na qual o homem conhece o mundo e esbarra com o absurdo da conjugação do verbo saber.

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¹ BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: ciência e senso comum na educação em língua materna. UNB: Revista “Presença Pedagógica, setembro de 2006.

² MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Secretária de Educação, 1997.


Publicado por: Waldir Araújo Carvalho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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