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As nuances dos olhares das personagens femininas de obras machadianas

Literatura

Clique e veja uma análise da visão de Machado de Assis sobre os olhos de suas personagens!

Resumo

Esse artigo tem como objetivo analisar a visão de Machado de Assis sobre os olhos de suas personagens e a visão de outros autores sobre a mesma temática. Para isso utilizaremos livros e artigos já publicados e os contos “A cartomante”, “A menina dos olhos pardos” e “Mariana”, ambos de Machado. O presente artigo assinala, através das leituras realizadas, a fascinação que o autor revelava para com os olhares de suas personagens. Esta análise permite ao leitor ter uma visão diferente das obras machadianas e ter uma visão mais aprofundada de Rita, Helena e Mariana, ampliando seus horizontes literários.

Palavras-chave: Machado de Assis. Personagens femininas Machadianas. Contos3. Olhares das personagens.

Abstract

This article aims analyze Machado de Assis’s vision about the eyes of his characters and the vision of others authors about the same theme. For this we use books and articles published already and the tales “A cartomante”, “A menina dos olhos pardos” e “Mariana”, both Machado. The present article notes through the readings made, the fascination that the author revealed to the eyes of his characters. This analysis allows to reader has a different vision of works machadianas and has a vision deeper of Rita, Helena e Mariana, expanding their literary horizons.

Key-words: Machado de Assis. Female characters Machadianas. Tales. Eyes of the characters.

Introdução

Sabendo-se que na ficção machadiana é frequente a referência aos olhos e a menção aos olhares, principalmente de personagens femininas, esta investigação, situada na área de Literatura Brasileira e intitulada “As nuances dos olhares de personagens femininas de obras machadianas” pretende responder de que forma Machado faz referência a esses aspectos, em algumas de suas obras, e qual o efeito descritivo conseguido. A hipótese é de que, ao fazer a descrição detalhada dos olhares de suas personagens femininas, Machado desvenda e põe em evidência o íntimo dessas personagens.

O objetivo geral foi descrever a forma como Machado descreve os olhos e olhares de personagens femininas e o que ele consegue com essa forma descritiva e especificamente pretendeu-se descrever analogias entre personagens de obras diferentes e pontar contrastes existentes entre as personagens e sua época.

O interesse por essa temática deu-se em razão da curiosidade acerca dos famosos contos e livros de Machado de Assis nos quais é possível perceber uma especial ênfase e certo fascínio desse autor ao descrever os olhares das personagens femininas. Os resultados da investigação serão de grande importância para que ocorra um maior conhecimento das particularidades descritivas desse autor que é considerado um clássico da Literatura Brasileira.

Sobre a metodologia, importa salientar que inicialmente foi realizada pesquisa bibliográfica, que permitiu conhecer as diferentes contribuições científicas disponíveis sobre o tema. De acordo com Gil (1987), não existem regras fixas para a realização de pesquisas bibliográficas, mas algumas tarefas que a experiência demonstra serem importantes. Para essa revisão de literatura utilizaremos como referência obras de críticos literários que dissertaram sobre o tema, como a produção do próprio autor Machado de Assis. Com base em teóricos como Marilena Chauí (1995), Alfredo Bosi (2000), Gerd Bornheim (1988), entre outros.

A técnica utilizada para obtenção dos dados foi a seleção e leitura dos contos “A Cartomante”, “Mariana” e “A menina dos olhos pardos”, ambos da fase romântica de Machado. Segue-se a análise das personagens femininas centrais dessas obras, com especial ênfase para os detalhes referentes aos olhos e olhares dessas personagens.

O modo com que Machado fala sobre os olhos de suas personagens foi considerado e comparado, entre as próprias personagens, a fim de constatarmos as diferentes possibilidades.

Machado de Assis e sua obra

Dono de uma das Literaturas mais ricas do mundo, o Brasil abriga uma das maiores coleções de livros de diversos autores de diversas épocas e é sempre estudada por alunos, professores, críticos ou por pessoas que querem ter o simples prazer de uma leitura.

Ótimos autores são estudados em nossa literatura, alguns de fama internacional cujos livros são considerados clássicos. Um desses é Joaquim Maria Machado de Assis, nascido no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Esse autor escreveu em praticamente todos os gêneros literários. Foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época. Segundo Coutinho, na duração de uma atividade literária ininterrupta que teve início no final do século XIX, “Machado de Assis representou no Brasil o primeiro e o mais acabado modelo de homem autêntico, dedicado à arte de escrever”. (COUTINHO, 2004 p 151).

Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Esse casamento ocorreu contra a vontade da família da moça, uma vez que Machado tinha mais problemas do que fama. Essa união durou cerca de 35 anos e o casal não teve filhos. Carolina contribuiu para o amadurecimento intelectual de Machado, revelando-lhe os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa. Após a morte de sua esposa, houve um período no qual as pessoas diziam não reconhecer o Machado de Assis alegre e extrovertido de outrora.

Podemos dividir as obras de Machado de Assis em duas fases: Na primeira fase (fase romântica) os personagens de suas obras possuem características românticas, sendo o amor e os relacionamentos amorosos os principais temas de seus livros. Desta fase podemos destacar as seguintes obras: Ressurreição (1872), seu primeiro livro, A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).

Na Segunda Fase (fase realista), ele abre espaços para as questões psicológicas dos personagens. É a fase em que o autor retrata muito bem as características do realismo literário. Ele também faz uma análise profunda e realista do ser humano, destacando suas vontades, necessidades, defeitos e qualidades.

Nessa fase destacam-se as seguintes obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900) e Memorial de Aires (1908). Machado de Assis também escreveu contos, tais como: Missa do Galo, O Espelho e O Alienista. Foi autor de diversos poemas, crônicas sobre o cotidiano, peças de teatro, críticas literárias e teatrais.

Especificidades dos personagens das obras Machadianas

A linguagem dos olhos pode mesmo contradizer o significado das palavras e revelar o que elas silenciam. Numa sociedade que aconselhava à mulher a conter seu comportamento, natural que à linguagem do olhar coubesse à expressão do que a jovem era obrigada a guardar dentro de si.

Como disse Da Vinci, os olhos são as janelas da alma e o espelho do mundo. Com base nessa citação de Leonardo, os olhares foram sendo estudados através dos séculos. Olhar não é apenas direcionar os olhos para ver o que existe ao nosso redor. Significa, também, ater-se às emoções. O olhar não se restringe aos limites da visão objetiva. Ele explora o ilimitado campo do proposital, revela segredos, intenções e paixões.

Como Gerd A. Borheim (1988) lembra, o olhar é tão importante para o conhecimento, que há uma profusão de modalidades do verbo ver em grego; e uma das particularidades mais notáveis é a vinculação que existe, na língua grega, entre o verbo ver e o ato do conhecimento.

É comum ouvir pessoas dizendo que sabem o que os outros querem ou o que alguém quer dizer somente pela expressão do olhar. Desse modo, pode-se dizer que o olhar revela atitudes insinuates, denuncia aprovação ou desaprovação de atitudes. Pode ainda denotar hostilidade, sensualidade e vulgaridade.

Conforme afirma Bosi (1999):

Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento. (Bosi, A. 1999, p. 10).

Não apenas Machado, como diversos outros autores penetraram nesse mundo mágico do olhar humano. Marilena Chauí, em seu livro Janela da alma, espelho do mundo, mostra que há um vínculo entre o olhar e o conhecimento e o olhar e a clareza das situações. Já Alfredo Bosi no texto Fenomenologia do Olhar diz que “O homem de hoje é um ser predominantemente visual.” e que “a relação do olho com o cérebro é íntima”. Isto nos ajuda a entender o porquê que a aparência, a imagem de tudo o que vemos é importante. Julgamos as coisas pela aparência e o que incomoda rejeitamos e procuramos um novo conforto. E, segundo Bornheim, em “As metamorfoses do olhar” diz que o ser se faz olhar.

Ao fazer uma analise mais profunda nos contos “A Cartomante”, “Mariana” e “A menina dos olhos pardos”, ambos de Machado de Assis, podemos perceber o valor que esse autor dá ao olhar de suas personagens.

No conto A cartomante, o autor descreve sua personagem Rita dizendo: “Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos.” Em a Menina dos olhos Pardos, ele ao falar dos olhos de Helena descreve-os assim dizendo, “[...] mas a natureza por um de seus caprichos dera-lhe olhos pardos que não podem ter o brilho dos pretos nem mesmo dos castanhos”. E finalmente no conto Mariana, Machado descreve Mariana “com seus lindos olhos redondos e namorados.”.

É muito frequente a alusão que Machado faz aos olhos pelos mais diversos motivos como o traço caracterizador externo da personagem e índice revelador do seu mundo íntimo. O olhar das mulheres que é muito bem explorado nas obras de Machado de Assis e receberão um foco especial neste artigo. O autor idealizava em sua obra o olhar de suas personagens e dava uma atenção especial a eles.

Os textos machadianos mostram ainda, o olho como insubstituível instrumento de comunicação entre os homens, mais completo e eficaz que a palavra. Em certos momentos, a linguagem dos olhos pode mesmo contradizer o significado das palavras e revelar o que elas silenciam. Numa sociedade que recomendava à mulher a contenção do comportamento, natural que à linguagem do olhar coubesse a expressão do que a jovem era obrigada a guardar dentro de si. “Assiste-se a um leve erguer do véu que a oculta, e o narrador com sutileza e muitas reticências alude a silêncios, a olhos que passeiam, que fitam com insistência, ou baixam, confusos.” (BOSI, 1999, p. 12) Através dos olhos, construía suas personagens, na qual refletem muito de sua personalidade, mas para ele o que importava não era o olhar em si, mas o que estava oculto dentro deles. A referência dos olhares e suas personagens são metafóricas, há ambiguidade no modo como apresentava suas personagens.

Considerações Finais

Diante deste trabalho, podemos observar as analogias entre as diferentes personagens da obra Machadiana. Através de uma superficial análise das figuras femininas nos contos de Machado de Assis verificamos que os olhares de suas personagens também representam um papel importante em sua obra. Para concluir, é imprescindível que compreendamos o motivo de Machado de Assis ter criado seus contos nesse modo de escrita, salientando que a concepção das personagens femininas na obra machadiana exige a princípio o conhecimento do personagem narrador e o ponto de vista através do qual ele faz sua narrativa. Entender as personagens femininas do autor é ver o modo como ele cria suas personagens, e levando em conta que possui uma visão masculina acerca do universo feminino. Machado de Assis, usando metáfora dos olhos e do olhar, nos permite conhecer o exterior de suas personagens, assim como nos oferece a oportunidade de ver dentro de sua alma, que ele os ressaltou como espelhos da alma humana. Notamos que Machado tem obsessão pelos olhos, pela figura feminina que é constante em seus romances, pois estes aparecem de forma extraordinária; comunicando sensações e sentimentos, dialogando e destacando ações importantes no conto, ou induzindo ao mistério. Para o autor não é a cor dos olhos ou o olho em si que o interessa, mas sim o aspecto do olhar, que decifra suas personagens, o aspecto causado, a impressão dada, e a expressão que cada um tem.

Referências

BOSI, Alfredo: O enigma do olhar. São Paulo: Atica, 2000.

BOSI, Alfredo. Fenomenologia do Olhar. In: O Olhar. Adauto Novaes, org. São Paulo, 1995.

CHAUI, Marilena. Janela da alma, espelho do mundo. In: O Olhar . Adauto Novaes, org. São Paulo, 1995.

BORNHEIM, Gerd A. As metamorfoses do olhar. In: NOVAES, Adauto (Org.). O olhar. São Paulo, 1988.

ASSIS, Machado de. Contos: A cartomante. São Paulo: Moderna, 2000.

ASSIS, Machado de. Mariana, publicado originalmente em Jornal das Famílias, 1871.

ASSIS, Machado de. “Obra Completa”. Disponível em: www2.uol.com.br/machadodeassis> Acesso em: abril/maio de 2013. Rio de Janeiro, 1979.

Gianne Rocha
Mariane Barbosa


Publicado por: Gianne Rocha Souza

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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