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Literatura: espaço de registro do mundo em sociedade

Literatura

Literatura: espaço de registro do mundo em sociedade, Literatura. Sociedade. Tempo. Espaço. Sujeito. Identidade. Pós-modernidade, Pós-modernidade: o homem e sua fragmentação, O espaço ficcional: literatura e sociedade – mimese e registro.

Resumo

A literatura sempre é expressão do homem e das relações que ele estabelece com o meio em que vive, com o seu espaço social. Esse espaço, na sociedade contemporânea, muitas vezes interfere no modo de o homem ser e de agir. Também o tempo é fator de influência, podendo levar o sujeito a descentrar-se, a perder a identidade. A literatura, então, registra essas situações e possibilita uma melhor compreensão do universo social, à medida que o leitor se encontra com ela.

Palavras-chave
Literatura. Sociedade. Tempo. Espaço. Sujeito. Identidade. Pós-modernidade.

1. Pós-modernidade: o homem e sua fragmentação
Fragmentação, descontinuidade temporal, perda da identidade pelo sujeito, desorganização espacial, narrador como jornalista, deslocamento, intertextualidade, história política oficial, globalização e suas conseqüências são alguns dos temas em foco na narrativa literária pós-moderna, que tem exposto preocupação em revelar as contradições sócio-político-econômico-culturais da sociedade e o quanto elas têm interferido no cotidiano das pessoas.

Pensar, então, em Pós-Modernismo como estética significa repensar o Modernismo, a fim de se indagar até que ponto este se anula naquele. Se nos detivermos na observação das propostas modernistas, relembraremos que, antes de qualquer outra intenção, o movimento almejava destruir o passado de concepção clássica para dar vez a uma cultura mais livre, de representação inovadora.

Mas a arte que se elaborou principalmente no início do século passado era revestida de enorme ambigüidade, pois repleta das influências vanguardistas, mas ainda reveladora dos princípios iluministas. Esse movimento de negação e aceitação, exclusão e reinserção, desprezo e resgate denuncia a real impossibilidade de se superar, de imediato, o lastro positivista que motivava a cultura do período.

O ideal iluminista de modernidade intentava assegurar ao homem moderno uma vida de maior prazer e felicidade e este estado deveria ser alcançado através da utilização racional dos meios que possibilitariam ao homem alcançar os benefícios do progresso. Entretanto, registra-se um forte sentimento de frustração advindo da impossibilidade do progresso disponibilizar a todos tudo o que cria e produz – artefatos, arte, cultura, por exemplo –, exatamente pelo fato de ser implementado pelo capitalismo, o qual, a um só tempo, congrega e desagrega, une e desune, inclui e exclui.

O processo de globalização que se acelera no início do século XX – fator desestruturante da sociedade de concepção iluminista – ao instituir o acirramento das questões de classes, oriundas das desigualdades surgidas do regime capitalista, associado à impossibilidade do homem beneficiar-se de tudo o que produz, cria, na sociedade, ao término do século, verdadeira “crise de identidade”. O sujeito centrado, individualizado, consciente, racional, autônomo e auto-suficiente do Iluminismo e que se desdobrou no sujeito interacional e dialógico do mundo moderno (sujeito sociológico), no final do mesmo século XX, cada vez mais viu seu espaço sendo ocupado por um sujeito fragmentado, contraditório, deslocado, descentrado: o sujeito pós-moderno.

Tal sujeito é fruto da multiplicidade de sistemas de comunicação e representação cultural vinculada ao próprio encaminhamento progressista iniciado no Iluminismo, e aprofundado no Modernismo. É exatamente no século XX que o espírito de progresso desencadeado pelo capitalismo e a formação de governos ditatoriais nascidos de pensamentos totalitários encaminham as sociedades para duas grandes guerras mundiais, criando nos povos uma forte sensação de insegurança e medo do que poderia depois advir. O avanço tecnológico também leva às pessoas as casas de cinema, o rádio, a televisão, a computação, a Internet.

A sociedade moderna, portanto, conduz o homem a vivenciar várias mudanças que dela decorrem e essas mudanças têm grande impacto sobre a identidade cultural. A dinâmica no processo revolucionário da produção industrial levou Karl Max a construir, sobre a modernidade, o seguinte pensamento, registrado por Stuart Hall:

“... é o permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos... Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido desmanchar no ar... ”. (ICPM, p. 14)[3]

De acordo com a visão de Karl Marx, nada é sustentável. No mundo moderno, tudo sofre modificações, transformações rotineiramente. Tudo é instável, solúvel, inconsistente. Socialmente, as relações e práticas são analisadas ininterruptamente, à medida que novos conhecimentos e vivências são adquiridos e confrontados com a tradição, que é superada.

Na modernidade tardia, as relações em geral são ampliadas e universalizadas de maneira que as sociedades não permanecem as mesmas, uma vez que miscigenadas em várias culturas. Para David Harvey,[4] a modernidade caracteriza-se pela fragmentação, pelo rompimento, pela diluição ininterrupta. As mudanças ininterruptas levam as sociedades a se organizarem de modos bastante distintos e também muito dinâmicos. Dentre as mudanças que se operam no seio social, as transformações de tempo e de espaço merecem destaque. Os mecanismos tecnológicos, por exemplo, que receberam implementação de pesquisa, desenvolveram-se de tal maneira que os lugares estão mais próximos, principalmente em decorrência da redução do tempo, tornada possível para que se dê o deslocamento humano de um lugar para outro (mesmo que de maneira metafórica): a modernidade inventou o telegrama, o telefone, o automóvel, o avião, o computador, o fax, a Internet entre outros mecanismos que asseguram essa movimentação intensa.

A modernidade também interferiu nos espaços, principalmente nos urbanos. A ampliação rápida e irrefreável do processo de globalização possibilitou maior intercâmbio entre as culturas dos povos, e isso gerou – e continua gerando – transformações amplas nas cidades, notadamente nos planos paisagísticos, arquitetônicos e artísticos, generalizadamente: logradouros públicos e estabelecimentos comerciais podem, tanto no ocidente quanto no oriente – embora neste a tradição ainda esteja mais fortalecida – ostentar inscrições, imagens e produtos que não os seus originais. Nas artes, as influências são inegáveis e oriundas de todas as partes do mundo. Também nos costumes dos povos são inquestionáveis as transformações, as quais manifestam interferência também nos planos ideológico e político.
Entre as artes, também a literatura tem a possibilidade de constituir-se como meio de propagação e legitimação de ideologias e costumes novos em ambientes tradicionais, mas pode, também – e isso se constata facilmente –, funcionar como mecanismo de observação, análise e crítica.

2. O espaço ficcional: literatura e sociedade – mimese e registro

No texto literário, as mudanças decorrentes dos processos de transformação das sociedades interferem no modo de olhar que o narrador dispensa aos objetos que focaliza. Por exemplo, no Brasil, José de Alencar observou a sociedade burguesa que existia em torno da corte imperial (Lucíola e Senhora são dois inegáveis exemplos dessa postura alencariana); Machado de Assis centrou seus olhares sobre os estados psicológicos de seus personagens (veja-se, por exemplo, Dom Casmurro, Quincas Borba, O alienista), os quais exprimiam toda a influência do capitalismo que se organizava por aqui; Lima Barreto expôs o tratamento preconceituoso dispensado aos negros e às camadas mais pobres da população brasileira, através da transposição, para os seus romances (Triste fim de Policarpo Quaresma e Clara do Anjos expõem inequivocamente essas temáticas), do dia-a-dia das comunidades cariocas desprestigiadas do início do século XX.

Sob o sopro do Modernismo, oficialmente inaugurado em terras tupiniquins em 1922, Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, entre tantos, também desvelaram, cada um a sua maneira, a existência do homem no espaço político-social brasileiro.
Nesta nossa contemporaneidade, João Ubaldo Ribeiro, Carlos Heitor Cony, Patrícia Melo, João Gilberto Noll, Chico Buarque de Holanda são exemplos de romancistas que têm posto foco, sob inspiração mimética, a acontecimentos cotidianos, dando vida a personagens que se deslocam em espaços agitados, intranqüilos, ameaçadores, surgidos do modus vivendi capitalista, o qual pressupõe sempre o interesse do capital sobre qualquer outro. Neste contexto, os escritores da denominada Pós-modernidade têm tido por preocupação as mudanças citadas mais acima, que de tão dinâmicas e sem freio conduzem as sociedades a processos organizacionais distintos e extremamente diligentes. Assim é que, para os escritores, as transformações de tempo e de espaço merecem destaque. No texto literário, elas interferem no modo de olhar que o narrador dispensa aos objetos que focaliza, interpretando-lhes o movimento de descontinuidade e argüindo, das personagens, sua identidade, uma vez que esta tem sido motivo de muitas questões, devido à fragmentação do “sujeito” na sociedade moderna, porquanto “indivíduo” exposto a todas as mudanças empreendidas.

As influências tecnológicas no cotidiano das pessoas têm sido destacadas desde os movimentos vanguardistas que desencadearam o Modernismo no início do século XX. O rompimento com as estruturas anteriores (artísticas, políticas, ideológicas) tornou-se claro através de esculturas, telas, poemas e romances, por exemplo. No Pós-Modernismo, a inevitável convivência com equipamentos tecnológicos ainda mais sofisticados (que têm exigido maior velocidade na produção de qualquer objeto de consumo, ao mesmo tempo em que têm imposto redução significativa das ofertas de trabalho e de emprego), a ampliação dos modelos de sistemas de exploração humana, o aprofundamento das desigualdades sociais, o acirramento das lutas de classe (principalmente nos ambientes urbanos, mas não só), a instalação de regimes autoritários, ditatoriais (como a ditadura brasileira implementada em 1964 pelos militares e que durou até 1985) constituem-se fortes fatores de desequilíbrio social geradores de conflitos que não passam despercebidos da visão dos escritores.

Assim, para eles, acontecimentos de todas as ordens acima apresentam forte apelo temático a serem explorados em suas narrativas ficcionais. Neste nosso estudo, tomamos por objeto de análise exemplificativa o romance Benjamim, de Chico Buarque de Holanda. Nele, essas relações conflituosas da modernidade têm registro e, em decorrência da intensidade com que acontecem, insere-se na perspectiva pós-moderna, portanto, texto revelador das contradições humanas, motivadas por desejos não atendidos, aspirações não alcançadas, liberdade não sentida.

3. O romance “Benjamim”

Esteticamente, o romance começa pelo fim. O fim da personagem Benjamim Zambraia, protagonista, e da própria história que se conta – a dele (já uma atitude que visa à quebra da estrutura natural de um romance, pois a narração será realizada em terceira pessoa, por alguém que acompanha passo a passo a existência do protagonista, de forma onisciente).[5] A primeira cena (que se repetirá como última) destaca o personagem principal frente a um pelotão de fuzilamento. Não há escapatória para ele, que está consciente disso. O narrador avisa que Benjamim vai repassar sua vida, em poucos segundos – o tempo necessário para as balas atingirem-no e levá-lo à morte. Então, dá-se o primeiro corte na linearidade da narrativa: o narrador abandona a personagem na cena do fuzilamento e leva o leitor a repassar, juntamente com ele, o que Benjamim Zambraia conseguirá resgatar de sua vida. O que acontece? O leitor depara-se com um texto de características intrigantes, no qual será exposta uma personagem de identidade fragmentada, caminhando em um presente sem perspectiva, pautando-se em um passado impossível de retornar. Essa perspectiva espaço/tempo/identidade é o nosso principal objetivo de análise neste trabalho.

Com efeito, um dos pontos mais relevantes no romance recai sobre a questão da identidade do sujeito/personagem Benjamim Zambraia. Essa identidade do sujeito está ligada à própria questão da temporalidade. Na narrativa pós-moderna, o presente é o tempo de preferência e isso significa aceitar a circunstância de que seus personagens, remetidos aos ambientes contemporâneos, estão neles inseridos na condição de seres alienados, confusos, sem perspectiva, distintos daquele da modernidade, o sujeito “centrado, racional, equilibrado” do Iluminismo, que se foi transformando, descentrando-se por não ver suas esperanças concretizadas. Já no início do romance, o narrador insere a confusão de Zambraia, estacionado em frente ao Bar-Restaurante Vasconcelos:
Benjamim, entretanto, não espera nada, a não ser que ele mesmo resolva o dilema: entrar num bar-restaurante ou voltar para a cama. A questão é embaraçosa porque Benjamim não tem sono, nem sede, nem apetite, nem alternativa para esta tarde. (Benjamim, p. 10)

Páginas adiante, o narrador expõe novamente a personagem no meio de indefinição. A insegurança de Benjamim é flagrante, um sujeito indeciso que não sabe que decisão tomar diante de algo simples como fazer uma ligação telefônica:
Benjamim assina a conta e levanta-se para sair. Senta-se de novo, pois não tem rumo definido para esta tarde. Levanta-se pensando em telefonar pela última vez para o escritório de G. Gâmbolo e certificar-se de que ele não vem (...). Desiste do telefonema e senta-se de costas para a rua, pois suspeita que o estejam vigiando da calçada oposta. (Benjamim. p. 38)

Stuart Hall[6] expõe que o sujeito pós-moderno deve ser conceituado como alguém que não possui “uma identidade fixa, essencial ou permanente”, uma vez que ela é “definida historicamente, não biologicamente”. Esta concepção de identidade resgata que sua constituição deve-se aos sistemas culturais com os quais mantém interação. A identidade do sujeito pós-moderno é “celebração móvel”, portanto. Dessa forma, em uma sociedade constantemente estimulada para o consumo de supérfluos, de produtos descartáveis, um modelo fotográfico, por exemplo, somente estará em evidência enquanto mantiver sua beleza física. Benjamim Zambraia, quando jovem, fora modelo fotográfico e, como tal, fizera muito sucesso e trabalhara em várias peças publicitárias. Mas o tempo passou e Benjamim tornou-se tão descartável, quanto os produtos que divulgava, conforme se vê na seguinte passagem, que destaca momento em que o protagonista desejava ser visto pelo publicitário G. Gâmbolo, antigo agente da personagem, entendendo (ilusoriamente) que este perceberia a boa forma em que ainda se encontrava:

Recordaria imediatamente a imagem de Benjamim Zambraia nos outdoors do ano retrasado: Cigarros Knightsbridge. A marca projetou Benjamim em todo o país, durante quinze dias. Também estava prevista uma campanha publicitária na televisão, que foi sendo protelada, protelada, mas Benjamim não é ator, é modelo fotográfico e nunca se entusiasmou com televisão. (...) quando retiraram do mercado os cigarros Knightsbridge, com certeza G. Gâmbolo pensou que Benjamim se magoaria. Em nome de uma antiga amizade, telefonou para dar satisfações e falou da atual voga antitabagista, que só poderia ser neutralizada por meio de mensagens dinâmicas, com modelos juvenis, de aspecto saudável.” (Benjamim. p. 37)

Na sociedade de consumo de que faz parte (e que, de certa maneira, contribuiu para validar), a imagem de Benjamim Zambraia já não pode mais ser “vendida” para o público juntamente com o produto que se deseja ver consumido. Seguindo as palavras de Hall, observa-se que a identidade do modelo move-se de tal maneira que ele deixa de ser modelo para ingressar na categoria dos “ex-modelos”. Também é verdade que o próprio Benjamim nunca se sentiu muito seguro nem mesmo na profissão, como nos revela o narrador na passagem seguinte:

Mesmo quando estava em evidência, Benjamim não costumava ser abordado na rua. Saudavam-no às vezes com familiaridade equivocada, convencidos de conhecê-lo de vernissages, de alguma ilha, quem sabe do Jockey Club, de convenções ou de um transatlântico. Mas as pessoas mais sérias sem dúvida desconfiavam de um cidadão assim onipresente, que ostentava saúde, fortuna, simpatia, e não tinha nome. O próprio Benjamim sentia-se ludibriado por aquela glória crescente, que tornava a cada dia mais profundo o seu anonimato. (Benjamim. p. 39)

Como define Stuart Hall, o sujeito pós-moderno tem “celebração móvel”. A implicação dessa inconsistência de identidade permite que o sujeito possa experimentar a atitude de assumir várias delas, dependendo da circunstância que o motive, premido por necessidade ou interesse dele ou de outrem. Assim é que, em outra passagem do romance, Benjamim Zambraia assume a falsa identidade de Diógenes Halofonte, suposto professor e cientista social, no intuito de “vender”, a eleitores, a imagem “respeitosa” e “íntegra” de Alyandro Sgaratti, candidato à Câmara Federal, quando este na verdade é marginal que se transformou, à custa da bandidagem, em poderoso empresário. A arte mimetizando a vida. A fragmentação do personagem Benjamim, as várias identidades que assume devido ao seu estado de confusão por vivenciar contradições, sua transformação contínua em relação aos sistemas culturais em que se insere, gerando os “sujeitos múltiplos” dentro de um só sujeito, desponta no romance de maneira singular. Benjamim, mais uma vez, exemplifica o sujeito pós-moderno.

3.1. A (des) identidade de Benjamim

Pela beleza que tivera na juventude, Benjamim conquistara muitas mulheres até conhecer Castana Beatriz, a mulher que amou verdadeiramente, mas de quem não conseguiu recíproca. Ela, inclusive, ficou grávida de outro homem, mas Benjamim, admitindo poder cuidar de Castana e da filha como se sua fosse, comprara apartamento e dedicara o espaço de um quarto especificamente para a criança. Castana jamais moraria com ele.
Castana Beatriz é a grande marca de passado na existência de Benjamim Zambraia. Esse passado eventualmente volta à memória da personagem, o que faz com que o texto mostre sua trajetória em dois caminhos de tempo: o presente e o passado. Mas um passado que apenas funciona como o fator de descentramento de Benjamim Zambraia. Quando o narrador o focaliza no presente, a imagem que dele se percebe é a de um homem decadente, desorientado e atormentado pela presença de Castana (via lembranças, recordações) que, segundo sua interpretação, a ele retorna através de Ariela (filha de Castana com o professor Douglas Saavedra Ribajó, sem que ele saiba, embora especule). Benjamim Zambraia é personagem confuso assim como seria o sujeito pós-moderno.
Quanto ao futuro, não se registra, pois, de fato, Zambraia não faz projetos, não desenvolve nenhum planejamento para depois, para longo prazo. É personagem fragmentado e sem perspectiva. Até sua sobrevivência é possibilitada por economias feitas no passado, quando era destaque na publicidade. No seu momento presente, nenhum trabalho de qualidade lhe é oferecido. Há de se perceber, quanto a essa fase vivida pela personagem, a fragilidade do mundo da mídia, que tem o poder de criar estrelas e fazerem-nas brilhar intensamente da noite para o dia, e de apagar-lhes o brilho do dia para a noite, de acordo com a conveniência. De maneira ampliada, pode-se entrever a sociedade capitalista neste nosso momento histórico de início do século XXI, no qual a obsolescência das coisas e das pessoas concretiza-se de maneira fugaz e irreversível – o dinamismo dessa nossa contemporaneidade é excludente e, portanto, marginalizante. Essa fragilidade das coisas e das pessoas no tempo, a dúvida que se estabelece por não haver segurança quanto ao que se é e se há possibilidade de se seguir adiante é realidade que caracteriza a fase pós-moderna do homem.
Ariela, a jovem em quem Benjamim vê a mulher que amou na vida, também se configura como personagem sem centramento. Trabalha na empresa de publicidade de G. Gâmbolo, mas não tem perspectiva de ascender naquele emprego e nem o deixa para ir em busca de algo que lhe sirva como possibilidade de melhor sobrevivência no futuro. Envolve-se com homens diversos, casados ou solteiros, velhos ou jovens e deles não exige nada, apenas com eles se relaciona, principalmente por apelo sexual. Seu relacionamento mais duradouro dá-se com um ex-policial que ficou paralítico por ser atingido por um projétil; esse policial assassina os homens que dela se aproximam – quando ela deles reclama – e que com ela se envolvem. Será o responsável pela morte de Benjamim.

3.2. O espaço em Benjamim
Conforme dissemos mais acima, o romance Benjamim começa pelo fim. E ao final, a cena que inicia o romance é reproduzida. Em ambas, o silêncio de Benjamim Zambraia. Em todo o romance, a personagem principalmente se mantém em silêncio, conjecturando algumas vezes, mas em silêncio. A crise da linguagem na sociedade pós-moderna também se faz ver no romance: Benjamim é confuso, fragmentado e, por isso, tem dificuldade na construção de seu discurso. Quem por ele fala é o narrador. É necessário. Benjamim está enclausurado em seu labirinto, que é interno, mas que se expõe para o exterior, para seu espaço imediato. O espaço em Benjamim também reflete o mundo pós-moderno. Iniciamos abordagem sobre o espaço pós-moderno com uma referência a Fredric Jameson:

“Se o simbólico for (inopinadamente) assimilado às várias concepções orgânicas da obra de arte e da própria cultura, então o retorno do reprimido de seus vários opostos, assim como toda uma gama de teorias explícita ou implicitamente sobre o alegórico, pode ser caracterizado como a sensibilidade generalizada, em nossos dias, em relação às quebras e rupturas, ao heterogêneo (não apenas nas obras de arte), à Diferença em vez da Identidade, às faltas e falhas em vez das tramas bem urdidas e progressões narrativas triunfais, à diferenciação social em vez da Sociedade como tal e sua ‘totalidade’, nas quais as antigas doutrinas da obra monumental e do ‘universal’ concreto se inspiravam e se refletiam. ”.[7]

A atenção de Fredric Jameson no texto acima se volta a uma exposição de arte em que artistas plásticos aproveitaram os espaços que lhes foram concedidos para a montagem de suas instalações para expressarem a percepção que tinham do “espaço” contemporâneo. O crítico resgata, da instalação, e extrapola para as outras artes, o registro contemporâneo de rupturas, heterogeneidade, ausência de identidade, falhas nas tramas narrativas.
A questão espacial no romance Benjamim registra a heterogeneidade dos espaços projetados na sociedade urbana contemporânea, os quais são criados no sentido de ajustar as camadas sociais a suas características, destacando a “diferenciação social em vez da Sociedade como tal e sua ‘totalidade”, como assinala Fredric Jameson. O choque entre a existência de locais paupérrimos e de belos lugares, por exemplo, projeta nas personagens o dilema entre o querer e o não poder, levando-as à imaginação que também é forma alienante. Tais contrastes são revelados pelo narrador quando, por exemplo, Ariela conduz um cliente ao prédio em que mora Benjamim:
Ariela já conhece a fama daquele edifício, em cujos fundos há dezenas de apartamentos desocupados. Seus proprietários vivem aflitos para vendê-los, alugá-los, trocá-los por um carro usado, mas ninguém aceita morar pegado a uma montanha cheia de cavernas. (Benjamim. p. 61.)

É nesse ambiente que ela reencontrará Benjamim, a quem pedirá um autógrafo, julgando-o ainda um ator famoso. Esse encontro ocorre em um elevador apertadíssimo, e Ariela não se dá conta da possibilidade de Zambraia morar ali e ser um pobretão. Assim é que ela, Ariela Masé, em um ônibus, observa – e o leitor vê, com o “olhar” do narrador – a pobreza do lugar onde encontrou Benjamim Zambraia:

Sentada no último banco, Ariela vê Benjamim Zambraia na calçada do seu edifício de cimento escurecido. Entende que gente de mais idade não se adapte a uma casa de vidro, ou a um apartamento cor de gelo, ou a um flat metálico com painéis vermelhos. Entre paredes toscas, cortinas de brocado, móveis marchetados, livros de couro curtido, de certa forma um velho se camufla. (Benjamim. p. 63)

Ariela não imagina que Benjamim possa ter condições iguais às suas, e por isso idealiza um outro lugar onde, na ótica dela, ele deveria viver:
Ariela imagina que Benjamim Zambraia more numa casa de campo, ou num chalé a uma hora e meia de estrada, e na folga semanal traga flores silvestres e ervas aromáticas para a grande dama do teatro cujo nome escapa a Ariela, que é tão ignorante quanto o Zorza. (Benjamim. p. 63)

Esse sonho de Ariela contrasta com as ruas por onde anda quando conduz Zorza, um outro namorado seu, para o apartamento em que ele será morto:
A rua Corcunda fica para os lados do cais do porto, uma área decadente, e Zorza estranha a escolha de Ariela. Ela sempre teve predileção por apartamentos frescos, próximos à praia, e dos prédios acanhados daqueles becos mal se avistarão os guindastes do porto. Não há carros nem pedestres na rua Corcunda, e Zorza estaciona com duas rodas sobre a calçada em frente ao número 39. (Benjamim. p. 66)
Em Benjamim, numa visão macro do texto, o espaço por onde transitam as personagens é a cidade do Rio de Janeiro. Em que época? De imediato, a narrativa não declina, mas aos poucos, ao se somarem os fatos, intui-se que um dos momentos resgatados pelo narrador, através da memória de Zambraia, é o período da ditadura militar imposta ao país a partir de 1964.
Fredric Jameson, no comentário transcrito mais acima, alertou para as “falhas” nas tramas narrativas. Consideramos uma delas a quebra na linearidade do texto, fato que já comentamos anteriormente, mas que resgatamos aqui para observar a relação que há entre a primeira “quebra” no romance, o tempo histórico e o da narrativa, e a influência do espaço na personagem. Após mostrar para o leitor, no começo da narrativa, a personagem em vias de ser morta por fuzilamento, o narrador faz o corte e expõe Benjamim Zambraia no passado, em frente a um restaurante onde costumava almoçar. A cena é reveladora de dois aspectos básicos que estarão sempre acompanhando a personagem: sua falta de perspectiva e de intenção frente aos fatos da vida, e a sensação de estar sendo observado:
“Se uma câmera focalizasse Benjamim na hora do almoço, captaria um homem longilíneo, um pouco curvado, com vestígios de atletismo, de cabelos brancos mas bastos, prejudicado por uma barba de sete dias, camisa para fora da calça surrada aparentando desleixo e não penúria, estacionado em frente ao Bar-Restaurante Vasconcelos, tremulando os joelhos como se esperasse alguém. Benjamim entretanto não espera nada, a não ser que ele mesmo resolva o dilema: entrar num bar-restaurante ou voltar para a cama. A questão é embaraçosa porque Benjamim não tem sono, nem sede, nem apetite, nem alternativa para esta tarde. Preso ao chão, as pernas irrequietas, impacienta-se com a própria hesitação, e é nessas conjunturas que lhe costuma voltar a sensação de estar sendo filmado.” (Benjamim. p. 10).

A cena transcrita precede o momento em que Benjamim verá, pela primeira vez, Ariela Masé, ali mesmo no Bar-Restaurante Vasconcelos, almoçando com seu amante. A visão sobre ela levará Benjamim a lembrar-se de alguém que, de imediato, não conseguirá identificar. Revendo posteriormente, a propósito, antigas fotografias guardadas em seu apartamento, associará a moça do restaurante a Castrana Beatriz. A partir desse instante, a narrativa começa a expor a teia da trama que entrecruzará o passado com o presente de Benjamim Zambraia, conduzindo-o a uma confusão maior do que estar sem projeto de vida. Paranoicamente, Benjamim especulará sobre a possibilidade de Ariela ser filha de Castana Beatriz.


3.3. Benjamim: passado x presente – um choque entre espaço e tempo
A teia que tece o tecido dessa trajetória do personagem revelará algumas coincidências existentes entre o passado e o presente dele. Nela, o espaço volta a ser preponderante. No passado, Zambraia seguia Castana Beatriz por ruas e avenidas do Rio, sem ter certeza de que ela o percebia, até chegar a um casarão em rua afastada. Castana tinha envolvimento com um professor tido por comunista e que estava sendo procurado pelos órgãos de repressão. Zambraia praticamente assiste à morte de Castana e do professor, nesse casarão, naquele dia. No presente, o protagonista sairá em companhia de Ariela, provavelmente pelas mesmas ruas, até chegar ao casarão, que reconhece, para nele ser fuzilado, não pela ditadura militar, mas pelos homens comandados por Jeovan, o ciumento e prostrado ex-policial. As semelhanças entre os dois acontecimentos sugerem o que costuma fazer uma pessoa que não tem perspectiva, um projeto, um objetivo: repetir atos e atitudes sem se questionar porque os está fazendo. Benjamim Zambraia, um homem confuso, agia assim.

A sensação de estar sendo filmado em frente ao Bar-Restaurante Vasconcelos revela-se, então, como um resquício do que lhe ocorrera no passado. Na verdade, ele foi, inadvertidamente, a pessoa que conduziu a amada para a morte no casarão, uma vez que o policial responsável pela ação que a vitimou estava no disfarce do motorista de táxi que o levou em perseguição até o local em que ela se encontraria com o professor. Mas também, devido à trama bem urdida criada por Chico Buarque, a sensação constituir-se-á, posteriormente, como um sinal do que lhe ocorrerá por enamorar-se de Ariela. Ele, evidentemente, não entende o porquê da sensação, mas o leitor intuirá que um certo táxi preto significa perigo para ele:
“Só então Benjamim guarda no bolso o relógio de Ariela. Caminha por uma rua perpendicular à praia e já na primeira quadra começa a suar nas mãos, com a sensação de estar sendo seguido. Imagina o táxi preto na sua cola, o que deve ser tolice, mas recusa-se a virar o pescoço. ” (Benjamim. p. 110).

Benjamim, já sabemos, é personagem descentrado, sem identidade porque confuso, e paranóico pelo passado que silenciou em si, o tempo em que se deu a morte de Castana Beatriz. Dissemos que os espaços por onde os sujeitos andam expõem reflexos daqueles que os organizam. Acrescentamos, agora, que espaço e tempo costumam andar de mãos dadas. David Harvey, observando a relevância de ambos na sociedade, argumenta:
“Sob a superfície de idéias do senso comum e aparentemente ‘naturais’ acerca do tempo e do espaço, ocultam-se territórios de ambigüidade, de contradição e de luta. Os conflitos surgem não apenas de apreciações subjetivas admitidamente diversas, mas porque diferentes qualidades materiais objetivas do tempo e do espaço são consideradas relevantes para a vida social em diferentes situações. Importantes batalhas também ocorrem nos domínios da teoria, bem como da prática, científica, social e estética. O modo como representamos o espaço e o tempo na teoria importa, visto afetar a maneira como nós e os outros interpretamos e depois agimos com relação ao mundo.” (CPM p. 190).[8]

Do Bar-Restaurante Vasconcelos, onde o personagem entrou para almoçar após aqueles instantes de hesitação já referenciados, o narrador detalha como o tempo e o espaço afetam a vida da personagem. Através desse detalhamento, identificamos ocorrer com Benjamim a influência detectada por David Harvey. O tempo, nesse momento específico do personagem, sugere novamente a retumbância da ditadura militar, devido à insistente sensação de estar sendo seguido, filmado, observado; o espaço, no momento mesmo, torna-se cúmplice do tempo e contribui para a paranóia:
“Mas quando entra enfim no Bar-Restaurante Vasconcelos, ainda o incomoda a suspeita de uma câmera, talvez acoplada ao bico do ventilador de longas pás que gira no texto. Benjamim não pode ignorar que, daquele improvável ponto de vista, os fregueses circulariam sentados num carrossel, e ele próprio seguiria num redemoinho até o centro do salão, faria piruetas, daria ordens ao garçom como a um satélite e fugiria às tontas para o banheiro.” (Benjamim. p. 11).

O que David Harvey afirma e que acima exemplificamos é que a sociedade contemporânea influencia sobremaneira os sujeitos que por ela transitam, deixando marcas que alteram o modo de viver de cada um. Não é difícil encontrar na escrita de Chico Buarque acima apresentada ecos da escrita de George Orwell ao criar, em seu 1984 a figura do Grande Irmão, na intenção de retratar a crueldade existente por trás dos regimes totalitários. Orwell , em sua história, destaca um ser onipotente e onipresente que, através de aparelhos de televisão vê, observa e controla a vida de todas as pessoas. Buarque, com Benjamim, resgata, através da intertextualidade, e também alegoricamente, o prejuízo humano decorrente do totalitarismo que existiu no governo militar, quando o Estado buscava controlar a vida das pessoas e criava “olhos” na população e no próprio governo para ver a vida da sociedade. A câmera que persegue Benjamim retoma a temática da vigilância social, através do intertexto. Nessa perspectiva, o espaço do restaurante, local de alimentação, desfigura-se para Benjamim e se desconstrói, transformando-se em ambiente de “tortura” do qual a personagem deve fugir. O espaço descentraliza Zambraia.
Em relação ao espaço urbano pós-moderno em contraposição à concepção modernista, resgate-se que
“Os planejadores ‘modernistas’ de cidades, por exemplo, tendem de fato a buscar o ‘domínio’ da metrópole como ‘totalidade’ ao projetar deliberadamente uma forma ‘fechada’, enquanto os pós-modernistas costumam ver o processo urbano como algo incontrolável e ‘caótico’, no qual a ‘anarquia’ e o ‘acaso’ podem ‘jogar’ em situações inteiramente ‘abertas’”.[9]

A imagem que se pode obter dos dois espaços urbanos criados a partir de cada concepção será a de algo acabado, bem organizado, quase perfeito (o projeto moderno) chocando-se com o inconcluso, o desorganizado, o imperfeito, o insólito. Em Benjamim, o Rio de Janeiro é revelado como uma cidade de grande movimentação, na qual as pessoas se esbarram, mas não se encontram: as ruas estão sempre apinhadas de gente que se locomove como se compusesse um formigueiro humano, cada uma realizando a parte que lhe cabe, mas sem uma definição exata de algum objetivo a ser alcançado. As imagens dos tapumes que encobrem a visão das construções civis emoldurando cartazes do político Alyandro Sgaratti denunciam a desorganização estética da cidade grande, tão acostumada a poluições que não se dá conta da sujeira visual que nela se acumula.

O insólito também se configura como elemento denunciador da desorganização e confusão que se estabelece na sociedade contemporânea quando as pessoas prosseguem em suas vidas sem terem um objetivo específico a alcançar. O caos urbano lança o sujeito pós-moderno num processo de sobrevivência quase anárquico, como sugere Hassan. Em relação a Benjamim, várias situações referenciam esse estado de vivência. O protagonista, por ter investido em ouro nos anos 70 e 80, consegue sobreviver sem trabalhar, então dispõe de bastante tempo para ir ao cinema e postar-se a assistir filmes em línguas que não conhece somente para ficar observando a boca das personagens. Em outra passagem, perturbado pela morte de Castana Beatriz, pede ao motorista de táxi para dar trinta voltas em uma praça somente para ficar olhando a agência do correio onde ela esteve antes de ir ao encontro do professor e da morte.
O espaço urbano contemporâneo interpreta a sociedade que nele caminha, sugere Harvey. Em seu estágio atual, o capitalismo globalizado, à medida que elege poucos sujeitos para que usufruam de seus benefícios, conduz muitos outros à exclusão, afastando-os do acesso aos tais benefícios. Fredric Jameson[10] alerta para o fato de existir “... uma série de utopias verdadeiramente espaciais, nas quais a transformação das relações sociais e das instituições políticas se projeta na visão do lugar e da paisagem que inclui o corpo humano.”. Nesse contexto, observa-se o espaço urbano utilizado para a criação de moradias, além do espaço de movimentação/locomoção citadino, os quais serão exemplares quanto às relações indicadas pelo teórico.

No romance, essa relação se exemplifica quando a Pedra do Elefante tem parte de seu sopé dinamitado, em 1920, para que na cidade surja mais uma avenida. Esta será ícone do progresso do Rio de Janeiro, que verá desaparecer, junto aos pedregulhos da ex-tromba do Elefante, parte de sua história. As pessoas que ali moravam em um casario, mudam-se, não se sabendo para onde. Anos depois, Benjamim adquiriu, ali, seu apartamento “de sala e dois quartos no décimo andar, com as três janelas voltadas para a Pedra”. E ficou endividado. Os dois fatos ilustram as observações de Jameson: o desalojamento dos moradores do casario e a edificação de apartamentos de tamanho reduzido configuram-se como exemplos das transformações e choques sociais no espaço urbano. A mendicância que se instala nas redondezas do prédio de Benjamim Zambraia também.

As palavras de Jameson deixam entrever a situação conflituosa existente na sociedade contemporânea, com alcance para atingir o modo de vida particular das pessoas, além de interferir nas condições paisagísticas e de adequação do espaço onde toda pessoa possa se sentir bem.

Na verdade, historicamente, os espaços citadinos nunca se configuraram como pertinentes a todos os seus habitantes. Ou, dizendo de outra forma, os espaços na cidade sempre se constituíram como delimitadores das possibilidades de existência – melhor, ou pior; alegre, ou triste; feliz, ou infeliz; tranqüila, ou intranqüila etc. – de seus moradores, alguns privilegiados, outros excluídos.
Nesta nossa contemporaneidade, neste momento histórico reconhecido por muitos como pós-moderno, (no qual o homem transita pelos lugares sofrendo a sensação de que o tempo está perdido, que jamais poderá retornar por sua condição inapelável de engendrado pela dinâmica implementada pelo mundo globalizado), cada vez mais tempo e espaço imbricam-se como algo uno, inseparável, que desnorteiam, que esfacelam no homem sua identidade necessária, levando-o a uma existência muitas vezes desperdiçada, porque sem sentido.

Neste contexto, a literatura se interpõe como mecanismo de resgate e de análise da sociedade e das forças que a alimentam; representa modos de vida; mimetiza o existir humano, expondo as contradições em que eles se inserem sem que delas, muitas vezes, tenham conhecimento, porquanto subjetivas; denuncia as relações viciadas que se estabelecem a partir da aceitação do “jogo” da convivência social.
Não somente agora, mas desde sempre, a literatura constitui-se como “lugar” onde são expostas, denunciadas e analisadas as sociedades e os homens que as implementam e legitimam. É, inegavelmente, espaço de registro do mundo em sociedade. Não deve, portanto, ser esquecida, ser alijada do processo de formação do homem. Através dela, tornamo-nos conhecedores da sociedade, do homem, da vida.


Publicado por: Francisco Sérgio Souza de Araujo

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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