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Em Compasso de espera (conto)

Literatura

Em Compasso de espera (conto), O Conto, gêneros literários, produção textual: conto, Chico Araújo, Francisco Sérgio Souza de Araújo, Diário do Nordeste.

Em compasso de espera

É obvio que sei do mundo existindo lá fora, abrindo rumos para cada um, mas tenho também enorme consciência do que sinto, do que penso, do que quero. Meu destino agora é aqui, vendo o fluxo dos dias exaurindo-se na claridade do sol que banha as telhas de luz, na escuridão manchada do telhado que observo, sobrevivendo em noites de soluços. Os convites, eu os agradeço e guardo-os sob as dobras dos sentimentos de saudades que ninguém vê, mas que correm em meus dias silenciosos e contínuos - sangue em minhas veias - determinando-me ficar. Um dia as veias secam!
Meu ritmo de existência, uma esperança diferente no sopro das horas. Ninguém pode entender, porque somente no silêncio se vislumbram pulsações represadas atrás dos olhos. Lá fora, a vida hoje é muito ruidosa. E eu vivo em castelos enormes e repletos de passagens secretas à minha estação de sonhos, onde outros não alcançam as imagens ali criadas, onde comando meus suspiros no sossego poderoso da solidão.
Às vezes quero entender a procura de mim por quem me está ao redor; entendo, então, o doce carinho que gostaria de sentir dos lábios que me chamam, quando experimento, nos sons emitidos, a vibração de palavras que me chegam sem cheiro, sem cor, sem gosto. Elas me tocam os ouvidos, sinos que se ouvem badalar lá longe, sem que se possa tatear a distinção dos porquês. Nessas horas eu olho e falo de onde estou... em silêncio...
É preciso dizer ´não!´ alto e bom som para que as pessoas escutem que seus apelos têm ressonância zero em meus desejos? Ah, a vida é tão outra para as pessoas, qualquer pessoa, mas sempre chega-nos o ímpeto de guiadores, de condutores pelos caminhos certos, pelas passagens seguras, pelas alamedas arborizadas e floridas, pelos rastros de luz inefáveis do bem. Eu sou minha condutora, desde há pouco - não muito -, desde agora para sempre. É sempre bom ficar aqui onde estou, olhando sentindo aspirando esse espaço que tanto me dizem, sem eco a ninguém.

As paredes que cercam meus labirintos são a minha companhia. Eu as indago tantas vezes no dia-a-dia, que elas se compadecem de mim e me respondem, ora fazendo erguerem-se imagens (silhuetas profundamente conhecidas de tão únicas tecendo traços de carinho, movimentos despertados de sorrisos sem parcimônia), ora rumorando discursos que minam das saliências de tempos de antes. Com a cumplicidade delas eu o vejo se espalhando pela casa já não mais deserta, de novo arrastando os chinelos, indo e vindo pelos vãos novamente povoados, outra vez imprimindo pelos cômodos passos de tranqüilidade, rastros de uma paciência que se estendia até muito além do infinito.
Da memória erguem-se, assim, impressões que fixam em meus olhos úmidos vibrações de saudade. Nessas horas, um arrepio intenso e certo se dilata de um esboço que reconheço e preencho pela recuperação de traços firmes e meigos, percorrendo uma existência que se agita em mim em gritos inaudíveis. Minhas mãos tremem e acariciam um semblante de boca sorridente e amiga - à distância, os que não sou eu diriam, em assim me vendo (nunca me viram?!, hein?), que a insanidade amofina minha consciência.
Depois tudo se desvanece, névoa fria em montanha, soprada pelo vento, beijada pelo sol. Meu corpo, então, se aquece novamente, e agita-se como que revigorado para mais alguns instantes que não atino se duradouros. O que me alimenta, sei, é a presença muda, mas inequívoca. Eu a sinto, ela é certa.
Não poucas vezes ela me toma as mãos e o rosto e beija-os com os lábios amigos de um amante humilde e cordato. As lembranças acendem gestos que bem mais do que sugestões são atos de tão concretos.

Eu gosto de ficar aqui e de vibrar sozinha com essas sensações que me eriçam a pele, que me põem na boca um doce sabor de vida e nas narinas um aroma significativo de paz, que busco, que desejo intensamente, esperançando a hora na qual acredito se dará o definitivo encontro.

Quando não poucas vezes desço dos sonhos em minha rede e trilho outras lembranças pelo piso entre os aposentos da casa, é como se não estivesse ali, naquele momento mesmo em que minhas sandálias vão vincando a poeira acumulada nos vãos, inevitável. Será que levito? Quem me conduz nessa caminhada que sempre, sempre me surpreende por entre as frinchas inesgotáveis de memórias.
Quantas vezes não se sentou ali, naquele sofá que de repente se amarfanha e se afunda ao peso certo da posição meio de lado, as pernas semi-afastadas, o olhar percorrendo o desvelamento de tantas notícias saltando das páginas do jornal, de quando em quando sacudindo-se pelas mãos desejosas de maior visibilidade? Ah, memória tão viva - que se eterna, enquanto eu estiver - que chego a ouvir o gesto do papel abrindo-se em mais um balanço das folhas encadernadas.

Quando me afundo, eu mesma, em minha poltrona hoje predileta, é para respirar essa dimensão de existência que somente a mim cabe visualizar.
Um dia escolhida, hoje eleita... convicção silenciosa guardada para meu deleite e prazer - talvez o único que ainda se insinue como chama a arder, combustível dos dias retendo-me aqui, que me arrasto entre uma luta feroz e uma vontade intransponível. Qual força vibra nos mais jovens? Que labaredas alimentarão o futuro deles?
Em meio às questões a imagem se despede surpreendente, deixando em meus olhos duas vontades de encontro escorrendo livre pelas faces. Onde desembocarão as águas desse rio a cada nova manhã mais caudaloso e impaciente? Ergo-me da poltrona sem saber que semblante estampo no rosto, flagrada que fui na ação de desviar o rumo das águas correntes para nova represa. Carrego, então, nos dedos das mãos a mentira de irritação nos olhos, e me encaminho (atriz de gestos e palavras persuasivas) aborrecida para a cozinha, onde bebo uma água fresquinha, em companhia que abandonara em alguma sombra os jornais e viera refrescar-se também.

Segredos! Quem não os tem? Quantas vezes por dia preferimos a ebulição de nossos pensamentos à seqüência ruidosa e incompreendida de nossas vozes, não poucas vezes intrometidas, inquietadoras, soando quase arrogantes? Ah,... todo mundo é assim. Há pouquíssimo de revelação e muito de encenação. Quem quererá ser descoberto por completo? Pelo tanto que já vivi, sei que ninguém gosta de ser alcançado em seu cerne. O âmago de tudo, entendo, é sempre um viés, que pode até arranhar o invólucro, de tão perto que chega, contudo será eternamente viés.
As palavras dizem muito. Dizem tudo? Às vezes, nada. Palavra alguma se faz por si mesma; toda e qualquer palavra passa a ser quando se associa, quando se soma, quando se acasala em discurso efetivo. Entretanto, atentemos aos discursos: Como se construíram? Por que se construíram? Para que se construíram? Nossos dedos podem ser discursos, lançando, inapelavelmente, nossos rios para abissais represas, ininvestigáveis abismos de solidão.

Os gestos de impaciência das mãos nos cabelos de fios revoltos, a velocidade do copo jogado para o atrito com a pia, o olhar que penetra lugares onde o dos outros jamais alcançarão, o caminhar lento e pensativo arrastando-se pelos cômodos, o esboço de sons sem pronúncia em lábios trêmulos... tudo isso e muito mais diz bastante além de qualquer palavra escolhida, medida, sopesada para a edificação dos discursos.
Por isso me interpelam (Está bem? Tá sentindo alguma coisa? Por que não sai?). Enuncio quase nada - tanto em quantidade, quanto em profundidade - e ninguém me lê os olhos, os gestos nas mãos, o ritmo dos passos, os suspiros constantes, o alheamento, o abandono de quase tudo, até de mim mesma, o enclausuramento... (ou não quer se dar, de verdade, a esse trabalho de investigação. Investigar carece de método, de determinação, de objetividade, de atenção, de acompanhamento, de obstinação).
Minhas respostas lacônicas um pouco incomodam, mas logo em seguida seguem o caminho do esquecimento, cada interpelante vai ruminar sua solidão insuspeita, cada um acreditando nos sorrisos fáceis das brincadeiras fúteis, todos fingindo uma alegria inexplosiva, imaginando o abeiramento certo do alcance da felicidade.
Sei que a seus olhos certamente encontro-me amarga, seca, sem graça, deprimida.

Talvez isso seja certo, mas ninguém poderá afirmar convictamente que estou enganada, errada nos meus posicionamentos e observações. Mas aceitarei que me diga contraditória quanto ao fato de que as palavras dizem pouco, ou nada dizem, uma vez que estou fazendo uso delas para falar a você. Construí um discurso através do qual rompi o silêncio.

Apesar disso, ainda posso me esconder por trás de uma possível dúvida a insurgir-se nas vibrações de seu ser: - verdade ou mentira, ficção ou realidade?
Enquanto a tarde mais uma vez se deixará envolver pela noite (a noite... metáfora?), revisto todos os aposentos da casa que já já entrará na quietude, todas as presenças se farão ausência, e eu poderei mais à vontade cogitar minhas especulações, minhas sensações, minhas impressões, minhas certezas. Depois, em meu quarto, já mais tarde ainda, poderei sossegar em um balanço de rede que não explico, mas que me embala, saudade mística com poder de me falar por cândido toque nos pés descobertos do lençol. Em paz adormeço, nesse compasso de espera...

CHICO ARAUJO. Poeta e ficcionista. Conto originalmente publicado no jornal Diário do Nordeste – Caderno Cultura – em 24 de junho de 2007.
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[1] Chico Araujo é o pseudônimo, no mundo das artes, de Francisco Sérgio Souza de Araujo que, nas salas de aula em escolas do Ceará, é reconhecido como Sérgio Araujo.


Publicado por: Francisco Sérgio Souza de Araujo

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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