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As Veredas da Linguagem de Guimarães Rosa em Primeiras Estórias

Literatura

Confira aqui um estudo da linguagem de João Guimarães Rosa no livro Primeiras Estórias.

Resumo

Este trabalho apresenta um estudo da linguagem de João Guimarães Rosa no livro Primeiras Estórias, do ponto de vista morfossintático, revelado nas passagens que denotam a preocupação metalinguística e marcam o caráter de invenção de seu texto. Para o procedimento destas análises, partimos do conceito da gramática internalizada contrastando com a linguagem criativa do autor. Também foram descritas as categorias morfossintáticas que mais foram necessárias às análises, as quais fornecem um quadro do manejo linguístico utilizado pelo escritor em suas obras, especialmente nos contos desta obra de 1962.

Palavras-chaves: Linguagem, Morfossintaxe, Neologismo, João Guimarães Rosa.

I - Introdução

Palavras ou expressões podem surgir a qualquer momento através das relações entre as pessoas, dentro de uma linguagem natural (simples conversa) ou artificial (internet). Muitas vezes alguns termos, por caírem no gosto popular podem também ser inseridos ao léxico de uma língua e admitidos na linguagem padrão, como foi o caso de inúmeras gírias. A língua possui esta capacidade de adaptação e inovação, pois é movida por um sistema vivo e não estático. Prova disso é o fato de que o homem ao longo do tempo vem criando e recriando unidades lexicais que correspondam às suas necessidades de comunicação.

Uma palavra criada ou modificada pode surgir de forma absolutamente espontânea, algumas vezes até inusitada. Pode ocorrer no dia-a-dia, como resultado da necessidade de algum conceito ainda não conhecido. A forma internalizada de uma língua permite ao homem promover este processo de elaboração de novos vocábulos sem ao menos se dar conta disso, e mesmo com suas normas e regras, é incalculável o poder que a sociedade exerce sobre o sistema linguístico.

Visto por um ângulo sociológico, o ato comunicativo apresenta-se como uma lente difusora capaz de retrair ou ampliar uma estrutura linguística.

Esse processo de criação se dá de diversas formas, justaposição, aglutinação, prefixação, sufixação, abreviação, importação de vocábulos existentes em uma outra língua ou ainda, através de um novo sentido dado a uma palavra já existente. O neologismo pode ser classificado de formas bem definidas, pois se estende a todas as áreas de comunicação.

Neologismo popular, citado acima, é aquele criado pelos próprios membros de uma sociedade. Termos técnicos utilizados para introduzir as novidades do mundo das pesquisas, fazem parte do neologismo científico.

Da mesma maneira surgem novas palavras também no meio artístico e no universo literário. Observamos a estilização da narrativa com inovações lexicais a partir da contextualização de um fenômeno linguístico em meio a transformações. Pela ótica literária, o neologismo aparece como uma espécie de adaptação, uma forma reinventada de nomear as coisas do mundo, um criacionismo expressivo.

O jogo de palavras remete o leitor a um mundo que perpassa até mesmo as intenções do próprio autor ao utilizar tais recursos e requer um habilidoso trato com o ato de criação lexical para atingir os efeitos estéticos esperados. Portanto, do neologismo decorre uma ação conjunta de autor e leitor, instigando um constante jogo de sedução, expressividade e estranhamento.

O processo de criação estilística não se dá ao acaso, nem tampouco é empregado com facilidade. Implica em uma extrema habilidade no manejo com as palavras, atrelada a uma profunda capacidade de vislumbrar a essência do homem e de tudo que interfere em sua existência.

Partindo da concepção de que a língua é um sistema sujeito a alterações, e estas, são constantemente utilizadas em obras literárias como forma de revitalização e expressividade do texto, este trabalho visa analisar a formação de palavras na obra de Guimarães Rosa, mais especificamente no livro Primeiras Estórias. A forma como o autor elabora certos neologismos e a estilização de alguns provérbios, tendo como foco atingir a atenção de seu leitor e despertar nele as sensações mais profundas de seu ser.

Abordaremos o processo de invenção e reinvenção linguística de Guimarães Rosa, possibilitando a criação de um texto grandemente expressivo, traço marcante em suas obras.

II - A Linguagem Dinâmica de Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa foi um dos melhores romancistas da terceira geração modernista e quem sabe de toda a história da literatura brasileira. Esse fato se deve a um conjunto de fatores, destaca-se a forma muito particular com que o autor construía suas narrativas e compunha as personagens, porém o que trataremos no momento é a incrível capacidade de criação e recriação lexical dentro da obra de Guimarães Rosa.

O encanto pelas palavras começou cedo, antes dos sete anos se interessou em estudar francês sozinho. Aprendeu holandês com a ajuda de um padre que mudara-se para Cordisburgo (MG), sua cidade natal. Em Belo Horizonte, antes do término da escola secundária, ele já falava alemão. Este traço demonstra sua incrível atração pela língua e anuncia a destreza com que lidaria com as palavras futuramente.

[...]. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração." (Guimarães Rosa)

Rosa não pode ser considerado exatamente um regionalista, todavia é possível perceber uma linguagem carregada de regionalismos ao longo de toda sua obra. Seu texto foi muito influenciado pela linguagem popular, resultado da experiência adquirida através do contato direto obtido em viagens que fazia ao interior para atender pacientes enquanto ainda exercia a profissão de médico. Este fato lhe valeu o contato com pessoas simples e sofridas de nosso país, aprendeu os trejeitos, costumes, o agir, o pensamento e até o olhar do sertanejo.  A experimentação marcou sua escrita literária, ele busca a recriação da linguagem, colocando o falar popular e a vida do sertão em seus escritos.

Característica de sua produção literária é o intenso envolvimento pessoal no texto, através de um narrador ativo intervindo a cada passo do desenrolar da história, daí o emprego de técnicas como apóstrofes, digressões e perguntas retóricas. Ele possuía a incrível habilidade de transmitir ao leitor as mais fugazes sensações com apenas uma palavra através de seus malabarismos linguísticos.

Sua fala aparentemente simples pode até confundir algum leitor desavisado, no entanto à medida que adentramos seus escritos percebemos os labirintos lexicais produzidos pelo autor. Somos impactados com o turbilhão de sensações que apenas um curto parágrafo pode nos causar.

“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...” (Grande Sertão: Veredas.)

O léxico de uma língua se estrutura em movimento contínuo, se constituindo e se desintegrando em sincronia com as relações culturais de seus falantes ao longo do tempo, podendo ser alterado de acordo com a evolução das relações humanas em uma sociedade. Porém segundo Martinet em “Elementos de Linguística Geral”, nem sempre esta dinamicidade é percebida.

Tudo conspira para convencer os indivíduos da imobilidade e homogeneidade da língua que praticam: a estabilidade da forma escrita, o conservantismo da língua oficial e literária, a incapacidade em que se encontram de se lembrarem de como falavam dez ou vinte anos antes. (MARTINET, 1975: 177)

Os neologismos são resultantes das inovações lexicais de uma língua, dentre as diferentes formas de criação, Ieda Maria Alves aponta a truncação, processo pelo qual há uma abreviação em que uma parte da sequência lexical, na maioria das vezes a última, é eliminada (niver por aniversário por exemplo). Palavra-valise, tipo de redução em que dois itens lexicais são privados de seus elementos para formarem um novo: um perdendo sua parte final e o outro, a parte inicial. Encontramos exemplos desse tipo de formação neológica ao longo do conto Famigerado, como equiparado, cabismeditado, desafogaréu.

Reduplicação, processo pelo qual a mesma base é repetida duas ou mais vezes (trança-trança semelhante a corre-corre) e a derivação regressiva, processo em que a formação lexical resulta da supressão de um elemento, considerado de caráter sufixal.

Guimarães promoveu neologismos por prefixação, como "arreleque" (asas abertas em forma de leque) ou "circuntristeza" (tristeza circundante) e também por sufixação, resultando na originalidade ímpar de "suspirância" (suspiros repetidos) e "coraçãomente" (cordialmente).

Fundamentado no conhecimento de outras línguas, adotou o estrangeirismo como mais uma maneira de enriquecer sua criação literária, “Velvo” É uma adaptação do inglês velvet, que significa veludo. No contexto empregado pelo autor, corresponde a "planta de folhas aveludadas".

Taurophtongo, é um dos neologismo  mais eruditos concebidos por Guimarães Rosa. Quer dizer mugido. O escritor recorreu aos termos gregos "táuros" (touro) e "phtoggos" (som da fala).

Como profundo conhecedor da linguística, Guimarães Rosa não somente criou como também desenterrou palavras do português arcaico, entre elas a mais conhecida “nonada”, palavra de abertura do romance Grande Sertão: Veredas. Significa "coisa sem importância", resulta da fusão de "non", do português arcaico, com "nada". Ele também adotou outros arcaísmos como caminhável e humildoso, que buscou nas obras de Alexandre Herculano.

O autor cunhou palavras como "velhouco" (junção de velho e louco) e "descreviver" (fusão de descrever com viver). O próprio título de seu romance Sagarana é exemplo de hibridismo. Saga é um radical de origem germânica que significa "canto heroico", "lenda"; e "rana", palavra de origem tupi, "que exprime semelhança”. Assim Sagarana significa algo como “semelhante uma saga". O autor cria novas significações para descrever em nove contos os conflitos do ser humano, num clima mítico, mágico e obscuro, porém muitas vezes contrastando com a rusticidade da realidade do sertão de Minas Gerais. Retrata de forma alegórica a figura de jagunços, vaqueiros, bois e a religiosidade, envolvidos numa atmosfera entre o bem e o mal, que nos remete a um sentido moral das fábulas. Nesta obra, além de exprimir uma linguagem típica do universo sertanejo, Guimarães mescla seus contos com cantigas e provérbios da região de Minas o que transcende a um universo metafísico, repleto de simbologia.

O neologismo de Rosa também se faz presente nos nomes de suas personagens nesta obra. “A hora e a vez de Augusto Matraga”, conto que revela uma duplicidade entre o bem e o mal. Esta característica se encontra presente nos extremos como bandido e mocinho, a moça pura e a prostituta, a bandidagem e a vida honrada em família, tornam-se fatores dialeticamente complementares, atuando na dinamização e rendimento narrativos, uma vez que sustentam o enredo em tensão, numa disputa recorrente na ficção de Guimarães Rosa. Nhô Augusto, influente coronel da região, que abusa de seu poder para humilhar e se impor nas redondezas, é apelidado como “Matraga” revelando uma conotação pejorativa (má + traga de tragar)

Os textos do autor são repletos de figuras de linguagem como metáforas, anacolutos e silepses propiciando expressar o pensamento ou o sentimento de modo vivo, enérgico, vibrante, capaz de impressionar o leitor, e sem dúvida isto lhe garantiu produzir obras de tão alto nível e originalidade. As figuras de linguagem reforçam o lado poético como exemplificam a gradação "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!", a antítese "perto e longe de sua família dele”, além do próprio caráter metafórico

“Demazio, quem dele não ouvira? O feroz das histórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes.” (Famigerado)

Na metáfora “histórias de léguas”, o termo história adquire o sentido de que muita coisa se comenta sobre o famigerado Demazio, grandes causos, aponta para a fama do jagunço feroz. Dentro do linguajar do sertão, as léguas implicam o quanto esta fama corre longe. Esta inventividade característica do autor, lhe permite transcender sua oralidade para o campo semântico do sertanejo.

Nenhum outro escritor brasileiro ousou tanto estilisticamente no que se refere aos “desvios” da norma, o que resultou em tamanha expressividade. Os inúmeros recursos estilísticos utilizados em seus textos corroboram para uma consubstanciação dos semas. Rosa encantou até mesmo grandes mestres da literatura nacional e internacional, visto que suas obras são muito estudadas ainda nos dias de hoje. Para ele as palavras deveriam ser enriquecidas com novos significados devido ao desgaste do cotidiano, pois literatura não se vale de clichês e sim de ideias.

"Cada autor deve criar seu próprio léxico, do contrário não pode cumprir sua missão"
                                                                                                Guimarães Rosa     

III- A inovação no processo de criação literária

Durante o romantismo, a preocupação literária era retratar os sentimentos, as dúvidas e as angústias do homem, deixando à diegese um papel secundário, entretanto com o advento do período modernista a narrativa se mostra mais focada na ação das personagens. Esta reelaboração do ato narrativo faz florescer uma nova concepção da arte literária no Brasil, promovendo uma maturidade na escrita ficcional.

A narrativa de Guimarães Rosa sempre foi permeada pela íntima relação entre o bem e o mal. Esta dialética desemboca em uma tensão constante que alimenta e conduz o eixo narrativo, promovendo uma dinâmica de detalhes, valores, causas, efeitos e soluções. Sua linguagem trabalhada e extremamente rica contrasta com o linguajar regionalista do sertanejo, promovendo uma  peculiaridade em sua narrativa. Contudo o que destacamos em sua prosa poética, não é apenas a engenhosa maneira de contar suas histórias, mas também a incrível capacidade de retratar o homem diante do mundo, possuidor de virtudes e defeitos.

A inovadora estilização literária de João Guimarães Rosa explora o subconsciente do ser humano e desafia a narração convencional. No contexto de sua obra, o narrador se apresenta de forma ativa e em tom prosaico, destituindo muitas vezes as personagens de sua fala, porém sem deixar de lado o caráter humanizador da literatura. O autor não se prende às particularidades linguísticas para descrever os aspectos regionalistas. Cândido (1972) coloca que o caráter regionalista é capaz de humanizar ou alienar o processo linguístico. Alguns escritores criam uma distância entre a erudição do narrador e a fala sertaneja das personagens, enquanto outros incorporam à fala do narrador, termos característicos das mesmas. Desta forma, o estudioso se refere a Guimarães Rosa como aquele

que supera o preconceito linguístico do falar sertanejo quando incorpora particularidades da linguagem das personagens à do narrador, criando um “super-regionalismo”. Sua obra se mostra em um estágio em que o regionalismo “vai se modificando e se adaptando, superando as formas mais grosseiras até dar a impressão de que se dissolveu na generalidade dos temas universais, como é normal em toda obra bem feita” (CÂNDIDO, 1972, p. 807).

Através de uma leitura mais profunda de seus textos, observamos que o autor busca confrontar por meio de uma narrativa oral e escrita, duas culturas bem distintas, a regional e a urbana. Descrevendo dois mundos tão opostos, porém, na verdade, nem tão distantes assim. Ambos possuem características, angústias, sentimentos, desejos e dores que são inerentes a qualquer homem, de qualquer tempo e lugar. Portanto, a partir da qualidade estética que entrelaça sua obra, podemos afirmar sem nenhuma dúvida, estar diante de uma forma única de composição narrativa.

O mistério de sua criação literária surge a partir da ausência e da presença, em um movimento sedutor que produz a palavra, ou seja, uma tradução, uma significação, uma interpretação de angústias e dúvidas. Indagações sobre a estranha natureza do homem às quais anseiam por respostas, e observando por este prisma, os textos de Rosa jamais cessam de dizer algo, mostrando–se sempre inovadores e sujeitos a novas significações, uma porta entre aberta, deixando a “possibilidade de a interpretarmos renovadamente, como se ela tivesse aparecido hoje e a lêssemos pela primeira vez” (NUNES, 1998ª, p. 76).

O romance de Guimarães Rosa é uma obra prima da literatura brasileira não apenas por trabalhar com a inventividade da criação linguística, mas também porque conjuga inúmeras técnicas narrativas na construção do enredo a partir de um entrelaçamento com a filosofia e religião.

Sabemos que inúmeros escritores sofreram influência de James Joyce, entretanto em Guimarães Rosa esta analogia se acentua

ainda mais, “Torna-se clarividente a profunda exploração dos signos, na sua forma e significado e, sobretudo, a função de ambos”(Resenes & Leal, 2004, p. 36).  Segundo elas, isto se dá por que ambos revolucionaram a linguagem, tornando-a única e inconfundível, elaborando uma verdadeira alquimia verbal, onde se misturam neologismos, línguas, novas construções morfológicas e sintáticas, exploração plurissêmica das palavras, aproveitando os recursos rítmicos e sonoros.

Analisando a obra do escritor mineiro, devemos considerar a maestria com que faz suas palavras escritas parecerem tão naturais a ponto de que quem lê-ouve, e simultaneamente os dois planos se entrecruzam. Rosa era acima de tudo um observador da vida do homem e das coisas da natureza. Anotava tudo que lhe chamasse a atenção durante as longas conversas com os sertanejos sobre os costumes, a fauna e a flora da região, minúcias que posteriormente transportaria para suas histórias.

(...) aproveitar a oportunidade para penetrar de novo naquele interior nosso conhecido, retomando contacto com a terra e com a gente, reavivando lembranças, reabastecendo-me de elementos, enfim, para outros livros, que tenho em preparo. Creio que ser uma excursão interessante e proveitosa, que irei fazer de cadernos abertos e lápis em punho, para anotar tudo que possa valer, como fornecimento de cor local, pitoresco e exatidão documental, que são coisas muito importantes na literatura moderna. (ROSA, 1999, p. 179-80).

O trecho acima demonstra o afinco com que o autor, assim como Joyce, realizava suas pesquisas para compor suas obras. O processo criativo iniciava bem antes de começar a escrever suas histórias. Sua narrativa singular, provoca espanto e estranhamento, ao mesmo tempo que instaura uma nova percepção, não apenas do homem, mas do próprio fazer literário. Suas palavras transcendem o significado originário e instauram um novo discurso.

IV – O neologismo na obra Primeiras Estórias.

O ato de criação lexical em Guimarães Rosa foi tão intenso e brilhante, que ele praticamente promoveu uma nova variação da língua portuguesa. Seus neologismos nem sempre são fáceis de se traduzir, pois possuem origens complexas e produzem significado de acordo com o contexto. Apesar de haver dicionários para interpretar suas palavras formadas a partir de sufixos, prefixos, estrangeirismos e outras oriundas do português arcaico, se faz necessário muitas vezes, destrinchá-las para interpretar tais expressões roseanas.

É importante compreendermos o conceito de neologismo antes de enveredarmos nos caminhos da criatividade lexical de Guimarães Rosa, o que fundamenta nosso material de estudo no momento. Basicamente, neologismos são novas expressões ou palavras criadas em um determinado meio, que atribui um novo sentido a um signo já existente, ou seja, resulta da transformação ou inovação de um termo já conhecido.

 O neologismo enquanto fato linguístico e cultural pode ser caracterizado como instrumento de uma ideologia, de um determinado momento da história, tornando assim, signos-símbolos de certas facetas culturais, pois os signos surgem de acordo com as necessidades de um meio social. (BARBOSA, 2001).

O livro Primeiras Estórias, publicado em 1962, é uma coletânea de vinte e um contos que em sua maior parte abordam temas como a morte, a loucura e os mistérios da existência humana. Os questionamentos permeiam toda a obra por meio dos estágios emocionais de suas personagens durante as diferentes fases da vida como a infância e a velhice. Nos contos que se seguem, as lembranças e a fragilidade da vida são presenças certas, como aliás em toda a obra de Rosa.

Estão presentes os neologismos típicos do escritor, que procura resgatar em suas narrativas uma poética marginalizada pelos

parâmetros instituídos pela cultura urbana. O título se relaciona diretamente com a retomada das narrativas passadas, o que explica a escolha do autor ao adotar o termo ‘Primeiras’ – afinal, Rosa busca na fonte dos ‘causos’ que remetem à infância da humanidade. Já a palavra estória se contrapõe à História, definindo a opção pelo universo da imaginação.

Os recursos utilizados pelo autor em Primeiras estórias garantem enormes dificuldades para nós leitores.  No entanto, ao adentrar neste desconhecido universo rosiano, somos tomados por um desconcertante encantamento que só poderia ser recriado por uma linguagem também recriada e nova, capaz de refletir todo o deslumbramento desse universo. Todas as histórias são entremeadas pelo típico estilo do autor, onde a oralidade é reproduzida na fala de um narrador ativo e presente. O ritmo lento e pausado da narrativa é proporcionado pelas constantes frases curtas, bem coordenadas e independentes.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá concordando.
                                                                                         (A Terceira Margem)

Os neologismos semânticos são gerados a partir de palavras já existentes, mudando apenas seu significado. Relacionando-o desta forma ao novo universo cultural a que foi inserido. Contudo, para assumir o caráter de neologismo, a nova criação linguística deverá adquirir um caráter inusitado, o que a desvincularia de seu sentido inicial. A sintaxe é recriada de maneira singular, provocando estranhezas durante a leitura: "não fez a alguma recomendação", "nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele". A Terceira Margem.

Dentre os mecanismos que engendram neologismos semânticos, destacamos o emprego conotativo de um lexema, o deslocamento de um sema no eixo da especificidade semêmica, a transformação de um lexema, de um universo de discurso para outro, o emprego com desfoque semântico de um lexema, a conversão categorial, processos esses sempre situados nas tensões dialéticas sistema-contexto enunciativo e consenso-especificidade.(BARBOSA, 2001, p. 41).

Entender a atividade criativa de Guimarães Rosa advém totalmente da ação interpretativa de seus neologismos, pois os conceitos são desconstruídos, repensados e reestruturados pelo autor, através de recursos por ele utilizados em sua escrita, à qual privilegia a estilística da palavra, do som, da frase e do enunciado de acordo com o contexto.

Vale ressaltar que o os neologismos literários produzidos, não servem para enriquecer o léxico de uma determinada língua, e sim para garantir uma maior expressividade e causar um efeito de sentido desejado na obra. Para se chegar a tal expressividade, estes efeitos podem resultar de desvios da norma ou da forma padrão, à qual será definida pelo contexto, assim como a expressividade atingida com tal recurso. O escritor deve estar em constante processo de recriação em todos os níveis, mas que nem sempre será necessário transgredir as regras do código linguístico para alcançar uma maior expressividade, afirma Monteiro (1991). O pensamento do estudioso é embasado nas citações de M. Lefebve que apresenta duas espécies de desvio literário “[...] a desestruturação ou violação de uma norma e a estruturação de novas formas de expressão não conflitantes com as regras usuais”.

Encontraremos na obra Primeiras Estórias, ambos os casos de desvios. As que não transgridem as RFP’s (Regras de Formação de Palavras) da língua portuguesa, como também as que não obedecem a estas regras. De acordo com Rocha (1998), a criação neológica de Guimarães Rosa situa-se em três margens distintas, em que a primeira margem é a do léxico real, a segunda é a do léxico possível e a terceira, a do léxico interdito.

A primeira margem trata de processos de formação que já são comuns na língua, como o prefixo “des” se antepondo a alguns verbos, como em desnascer (Nenhum, nenhuma p.51).

O léxico possível classificado como a segunda margem, corresponde às formações que ainda não fazem parte da língua em questão, porém seguem as RFP’s. São termos lexicais criados pelo autor para suprir e preencher lacunas da língua, porém não ferem

as normas em vigor. Assim, em Pirlimpsiquice, por exemplo, o protagonista, narrando sua experiência teatral, diz:

O minuto parou. Riam, de mim, aos milhares. De lá, da fila dos padres, faziam-me gestos: de ordens e de perguntatividades. (PE, p. 39)

Perguntatividade é um neologismo possível de ser formado, não existe como vocábulo real na língua, pois já existe o termo pergunta ocupando esse lugar, porém (ROCHA, 1998, p. 90) afirma que o escritor está “fora da norma, embora dentro do sistema.”

A terceira margem roseana refere-se a criações que não seguem as regras do léxico de nossa língua. “O autor sai da norma para ser o criador de um co-sistema morfológico português” (MARTINS, 2004, p. 59). Encontramos este interdito lexical no neologismo “brutalhudo” (Sorôco, sua mãe, sua filha), em que o autor acrescentou o sufixo “udo” a um adjetivo, no entanto pela regra isto só é permitido a um substantivo.

Como podemos observar, Rosa realmente ultrapassa os limites da língua portuguesa com suas criações lexicais na intenção de fazer emergir de sua estética literária a grande expressividade que lhe é característica.

Apesar da obra retratar episódios aparentemente banais e corriqueiros, os contos perpassam os gêneros psicológico, fantástico, autobiográfico,  anedótico, o satírico e o popular.  A maioria das personagens dos contos de Primeiras estórias são incomuns. 'Loucos' (como Darandina ou Tarantão), crianças extraordinariamente sensíveis (como o Menino, de 'As Margens da Alegria', ou Brejeirinha, de 'A Partida do Audaz Navegante'), apaixonados (como Sionésio, de 'Substância'), todos representam seres iluminados, que parecem viver em outra dimensão, demonstrando uma sabedoria inata, intuitiva. São, enfim, seres especiais que chegam a ultrapassar os limites da normalidade. Portanto, para moldar tais personagens o autor realmente deveria ser portador de uma linguagem única, repleta de encanto, magia criatividade e de toda a sensibilidade de Guimarães Rosa.

V - Considerações Finais

Guimarães Rosa é um escritor de enorme expressividade no cenário literário nacional. Não somente por sua extraordinária criatividade linguística, mas também pela maestria com que consegue retratar temas regionais de forma tão universal.

A produção neológica do autor em Primeiras estórias aqui discutida, nos apontam o profundo conhecedor da estrutura léxico-gramatical da língua portuguesa. Campeando nas veredas de Minas Gerais, ele efetivou as mais intensas sensações em suas memórias narrativas através de sua sabedoria popular. Magistralmente, ele alia a informalidade da linguagem coloquial à complexidade da linguagem poética. Sua preocupação estética se confirma através um trabalho minucioso com a linguagem. O autor manipula e transpõe o código linguístico para criação de um vocábulo próprio. Em suas escritura se instala os paradoxos do dito e não dito, o eu e o outro, a morte e o nascimento da linguagem. A linguagem que se incorpora em cada palavra para tornar parte de uma vereda infinita no processo de renovação poética.

Nesta obra, como em muitas outras, o universo sertanejo abre-se como palco de paixões humanas, através das mãos hábeis do escritor, de forma a nos causar estranhamento e ao mesmo tempo as mais extraordinárias sensações.

Constatamos através deste breve e superficial estudo, o caráter invencionista e peculiar da linguagem de Guimarães Rosa. Com isto é possível perceber porque o leitor não se habitua de imediato a ela, as construções interditas, ferem as regras da língua. Entretanto, se o leitor tomar fôlego e se aventurar pelos textos de Guimarães Rosa, com certeza será recompensado pela coragem e desfrutará de uma obra que não se limita a narrar,  se detém também na forma de fazê-la.

VI – Referências

ALVES, Ieda Maria. Neologismo: criação lexical. São Paulo: Ática, 1990.

BARBOSA, Maria Aparecida. Da neologia à neologia na literatura. In: OLIVEIRA, Ana Maria P. Pires de; ISQUERDO, Aparecida Negri. (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. vol. I. 2. ed. Campo Grande-MS: EDUFMS, 2001. p. 33-51.

CANDIDO, Antônio. O homem dos avessos. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

MARTINET, André. Elementos de Lingüística Geral. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1971.

MARTINS, Evandro Silva. A neologia na literatura: a criação milloriana. In: ISQUERDO, Aparecida Negri.; KRIEGER, Maria das Graças. (Orgs.) As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. vol II. Campo Grande-MS: EDUFMS, 2004. p. 53-64.

MONTEIRO, José Lemos. A estilística. São Paulo: Ática, 1991.

NUNES, Benedito. Crivo de papel. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1998.

OLIVEIRA, Ana Maria P. Pires de; ISQUERDO, Aparecida Negri. (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia,lexicografia, terminologia. vol. I. 2. ed. Campo Grande-MS: EDUFMS, 2001. p. 33-51

RESENES, Mariana Santos de; LEAL, Rachel Pentalena. Um mergulho perscrutador no universo onírico joyciano. Ensaios. Florianópolis: UFSC. Nº 2- dez. 2004, p. 35 a 78.

ROCHA, Luiz Carlos de Assis. Guimarães Rosa e a terceira margem da criação lexical. In: MENDES, L. B.; OLIVEIRA, L. C. V. de (Orgs.). A astúcia das palavras – ensaios sobre Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998a, p. 81-100.


Publicado por: Elvira Livonete Costa

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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