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A (polêmica) literatura afro-brasileira

Literatura

Um panorama sobre o conceito do que seria a literatura afro-brasileira.

Esta breve análise tem como objetivo traçar um panorama, a partir da perspectiva de alguns autores, sobre o conceito do que seria a literatura negra ou afro-brasileira e seus objetivos. Para isso, serão examinados os processos históricos que influenciaram a necessidade de se ter uma literatura denominada negra e quais as suas implicações.

A função social da literatura, tal como afirma Antonio Candido, “comporta o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma certa ordem na sociedade". Desse modo, não se pode menosprezar a influência exercida pelo meio no processo de criação artística. A literatura também pode ser vista como elemento fundamental na criação de uma nação. No Brasil, após o processo de independência, a necessidade de se fazer uma literatura diferente da de Portugal, com uma identidade nacional, vai ao encontro desse conceito defendido por Candido e nesse sentido os escritores se voltam para a construção de uma cultura válida no país. Porém, analisando o processo histórico de formação da sociedade brasileira escravocrata e a representatividade dessa elite econômica também na literatura fez com que a figura do negro não tivesse seu real valor reconhecido na formação da sociedade brasileira e consequentemente na literatura também não alcançou seu devido lugar.

Na literatura tida como convencional o negro poucas vezes esteve em situação de destaque. Sempre fora representado como coadjuvante ou pertencente a uma subclasse. Lucia Maria Barbosa afirma que o negro na produção literária foi representado como objeto e não como sujeito. Até o inicio do século XIX, com exceção de Lima Barreto e Solano Lopes, a representação do negro na literatura quase sempre esteve ligada a estereótipos como submisso, negro dócil ou pertencente a uma sub-raça. A esse respeito Barbosa afirma:

Por meio da literatura, o artista recria o mundo, (re) significa valores, costumes e fatos (...). Desse modo, as condições sociais, os hábitos, as crenças, os estereótipos e os preconceitos compartilhados por um determinado grupo em uma determinada época são elementos formadores da visão de mundo e fatalmente estarão presentes na criação artística.

Era necessário, portanto, ocupar essa lacuna na literatura brasileira e fazer justiça aos negros que tanto contribuíram na formação da sociedade brasileira. Favoreceram para o enriquecimento cultural, linguístico e social do país.

As expressões “literatura negra” e “literatura afro-brasileira” causam discussão entre os escritores e críticos dessa literatura. Há quem defenda que o uso dessas terminologias particularizadoras acaba por rotular e limitar o trabalho dos escritores. Outros, no entanto, afirmam que o uso dessas expressões ajuda a destacar os sentidos da luta contra a exclusão no cânone literário tradicional. Neste trabalho, a escolha foi pelo uso da expressão afro-brasileira, já que o próprio termo remete ao processo de mestiçagem cultural, linguística e religiosa pelo qual passou e passa a sociedade brasileira.

Nessa perspectiva, o discurso literário assume um lugar de apropriação de uma identidade até então distorcida ou boicotada pela sociedade. Daí a necessidade de o negro definir a sua própria identidade e construir uma consciência do que é ser negro na América. No âmbito literário isso se realiza a partir do momento em que o negro se assume como sujeito da enunciação de sua própria história, libertando-se da imagem quase sempre estereotipada que o atribuíam até então.

A literatura afro-brasileira assume, então, como principal característica a presença de um eu lírico que rejeita a identidade atribuída a ele pelo outro e o desafio em assumir a escrita de sua História. Sendo a poesia o lugar privilegiado para as manifestações da subjetividade, essa literatura traria a transição de um “eu” alienado para aquele consciente de sua posição na História. Essa postura, na literatura brasileira, pode ser identificada também na música, que oferece diversos exemplos da tentativa em se consolidar uma produção artística que realmente atenda as necessidades e anseios dessa construção identitária.

Para Eduardo de Assis Duarte, o processo histórico é fundamental para entender o negro no Brasil quando se estabelece uma relação entre literatura e sociedade. Deve-se sempre buscar entender qualquer evento a partir do seu processo histórico. O negro hoje é resultado de todo um processo histórico que não pode ser ignorado. A inserção do sujeito em um contexto amplo e essa inserção faz parte de um processo, é fruto desse processo. Portanto, o uso da terminologia literatura brasileira torna-se excludente quando é examinada no que tange a representação negra em seus escritos, pois em vez de agregar ela silencia e apaga a imagem do negro. Sobre isso Eduardo de Assis Duarte (2006, p.31) afirma:

“Por um lado, nota-se o apagamento deliberado, num esforço de inviabilização que descarta a etnicidade afrodescendente de nossa literatura. No caso, trata-se daqueles escritores que, mesmo sem o proclamar, apresentam-se como narrativas brancas (de brancos) escritas para leitores presumidamente brancos. Por outro, vê-se a recusa em conferir ao negro um papel que não aquele determinado pelo imaginário oriundo do discurso discriminatório e traduzido em estereótipos que, de tanto se repetirem, terminam confundindo a própria natureza das coisas e dos sujeitos, tal qual essências a-históricas incrustadas na linguagem, a construir formas de ver o mundo e julgar pessoas e comportamentos”.

Uma temática identificada com a afro brasilidade teria a ver com a história do negro no Brasil, quem eram esses negros? Como eles vieram pra cá e por que vieram? Como se estabeleceram? Como se deu o processo de abolição e o que aconteceu após a abolição. Há alguns historiadores que dizem que vivemos um “eterno 14 de maio”, esse dia depois da abolição onde os negros se viram sem lugar institucional previsto, sem auxilio do Estado. Mesmo em vista de todo esse processo histórico, a literatura afro-brasileira não tem intenção de vitimizar a figura do negro, não assume o papel de vítima, mas sim o papel de agente. Nesse sentido, Zilá Bernd aponta para a necessidade da “construção da epopeia negra” que, segundo ela, é importante para o “resgate da real importância do negro na formação da história.” (Bernd, 1988, p. 84). Exaltando seus heróis e os tirando da condição de marginais da História. Para exemplificar, utilizaremos alguns trechos do poema “Canto dos palmares” de Solano Trindade.

Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões
porque o meu canto é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!
 
Há batidos fortes
de bombos e atabaques em pleno sol
Há gemidos nas palmeiras
soprados pelos ventos
Há gritos nas selvas
invadidas pelos fugitivos...

(...)

O opressor não pôde fechar minha boca,
nem maltratar meu corpo,
meu poema é cantado através dos séculos,
minha musa esclarece as consciências,
Zumbi foi redimido...

Do ponto de vista da autoria, esbarramos no principal argumento de Ferreira Gullar em que ele não reconhece a literatura afro-brasileira e afirma que pensar literatura dessa perspectiva é muito redutor. Diante do ponto de vista de Gullar não seria possível a um escritor branco, que escreva sob uma perspectiva negra e sobre o negro, reivindicar o posto de escritor afro-brasileiro. Nesse sentido, Zilá Bernd tem uma visão mais conciliadora (Bernd 1988, p.22):

“não se atrela nem à cor da pele do autor nem apenas à temática por ele utilizada, mas emerge da própria evidência textual cuja consistência é dada pelo surgimento de um eu enunciador que se quer negro. Assumir a condição negra e assimilar um discurso em primeira pessoa parece ser o aporte maior trazido por essa literatura, constituindo-se em um de seus marcadores estilísticos mais expressivos”.

Para Eduardo Barbosa há uma relação direta da experiência do autor e sua escrita, mesmo não sendo explícito e não só experiência vivida, mas experiência enquanto experimentação de mundo, de sua visão de mundo, como ele enxerga o mundo em sua volta. O que temos que levar em conta é em que medida a experiência do autor que tem a ver com afro-brasilidade vai alimentar e estará representada na sua literatura. Por isso, nem todo escritor negro é considerado um escritor afro brasileiro. É necessária uma história de militância, uma identificação política para reivindicar para si o qualificativo de escritor afro brasileiro e não apenas a cor da pele.

Jorge Amado, por exemplo, mesmo tendo o reconhecimento dos autores africanos a ponto de ser considerado um modelo por eles e reconhecer nele uma identidade não pode ser considerado um escritor afro brasileiro, pois o negro em sua obra é, corriqueiramente, retratado de forma estereotipada, principalmente a mulher negra e mulata, vista quase sempre como objeto de desejo sexual.  A esse respeito Domício Proença Filho (2004, p.166) diz:

“O negro ou o mestiço de negro erotizado, sensualíssimo, objeto sexual, é uma presença que vem desde Rita Baiana em O Cortiço, e mesmo do mulato Firmo, do mesmo romance, passa pelos poemas de Jorge de Lima, como “Nega Fulô”, suaviza-se nos Poemas das negras (1929), de Mário de Andrade e ganha especial destaque na configuração das mulatas de Jorge Amado. A propósito, a ficção do excepcional romancista baiano contribui fortemente para a visão simpática e valorizada de inúmeros traços da presença das manifestações ligadas ao negro na cultura brasileira, embora não consiga escapar das armadilhas do estereótipo. Basta recordar o caso do ingênuo e simples Jubiabá, do romance de mesmo nome, lançado em 1955, e da infantilizada e instintiva Gabriela, de Gabriela, cravo e canela”.

Já em Luiz Gama, poeta negro do século XIX, enxergamos todo um projeto de escrever sobre e para o negro, escreveu sobre sua experiência de negro, com uma temática negra, utilizava uma linguagem que evocava uma oralidade de matriz africana, que não se identificava com o registro normativo da língua, mesmo porque esse registro normativo historicamente estava nas mãos de uma elite branca.

Diante desses aspectos o escritor mais polêmico da nossa literatura com certeza é Machado de Assis, que muitas vezes foi acusado de ser o mulato que traiu a causa. Embora Machado tenha se “embranquecido” ao longo de sua vida, e ter se identificado o tempo todo com a literatura produzida pela elite da época, há brechas em sua obra, sobretudo nas crônicas, em que a questão do escravo é abordada de uma forma combativa. Mas no conjunto de sua obra não podemos afirmar que a experiência do negro era sua causa principal, não era seu projeto e ele nem reivindicou para si o qualificativo de escritor afro-brasileiro.

A identificação com uma determinada experiência vivida é fundamental para a classificação de uma obra como afro-brasileira. Nesse sentido, um exemplo forte é o de Ana Maria Gonçalves, que escreveu o romance Um defeito de cor, que conta a trajetória de vida de uma menina capturada e trazida como escrava para o Brasil. Narra, entre outros episódios, a travessia dessa jovem num navio negreiro. Se colocarmos em perspectiva com o poema Navio Negreiro de Castro Alves ficará evidente a diferença do ponto de vista. O poema tem um ponto de vista externo, de alguém que se sensibiliza com a causa, mas não a viveu. Já no romance a visão é interna, é de alguém que vivenciou todos aqueles relatos.

A questão da linguagem também merece atenção, pois evoca uma oralidade de matriz africana que valoriza e dá poder à palavra. Aqui vale ressaltar a diferença entre oralidade e linguagem oral. Oralidade como sistema de pensamento e linguagem oral que é a forma como falamos. A literatura afro-brasileira trabalha nessas duas perspectivas, tem uma vinculação com essa oralidade de matriz ancestral africana e tem relação com essa linguagem falada, com uma certa espontaneidade da nossa dicção que acaba sendo tomada como forma de resistência ao mundo das normas.

O público alvo da literatura afro-brasileira não é apenas o negro, mas há uma busca pela ampliação desse público para que assim possa haver uma reversão dos valores e uma reconstrução de símbolos, antes tomados como negativos e agora vistos de forma positiva. Além de desconstruir conceitos que desvalorizam ou negam o negro para, no lugar, se valer de elementos que exaltem sua condição e identidade. Exemplificando essas ideias temos o poema Trincheira de Cuti:

Falaram tanto que nosso cabelo era ruim

que a maioria acreditou e pôs fim

(raspouqueimoualisoufrisoutrançourelaxou...)

 

ainda bem que as raízes continuam intactas

e há maravilhosos pêlos crespos

conscientes

no quilombo das regiões

íntimas

de cada um de nós.

Há também uma busca por uma nova ordem simbólica que visa proporcionar o resgate da cultura negra, através da representação simbólica. De forma a desconstruir uma simbologia estereotipada que associa tudo o que é mal com a cor negra. Integra-se, também, a esse conceito a tentativa de não negar um passado histórico de sofrimento, mas sim evocá-lo no intuito de associá-lo a resistência e coragem do negro na busca por sua liberdade. Nesse sentido, temos como exemplificação o poema Novo rumo de Lino Guedes:

Negro preto cor da noite,

Nunca te esqueças do açoite
que cruciou tua raça.

Em nome dela somente
faze com que nossa gente
um dia gente se faça!

Negro preto, negro preto
sê tu um homem direito
como um cordel posto a prumo!

É só do teu proceder
que por certo há de nascer
a estrela do novo rumo.

 

A literatura afro-brasileira é, portanto, um campo fértil para reflexões sobre a condição do negro e sua representação nas artes.  Há ainda um vasto campo de pesquisa de uma literatura organizada pelo Quilombhoje, que publica os Cadernos Negros, grupo de escritores que teve como motivação maior para iniciar seus trabalhos o processo de independência das colônias africanas de língua portuguesa e as greves e movimentos estudantis no Brasil, pois procurava relacionar a literatura e motivação sócio-política. Atualmente o cenário mais fértil para a produção da literatura afro-brasileira tem sido o movimento de literatura marginal que surge como alternativa ao sistema editorial existente, pois se opõe ao cânone e é veiculada à margem do mercado editorial tradicional. Essa literatura também dá ao negro o papel de agente principal na sua história. Há uma mudança de paradigma e o intuito é, portanto, sair do anonimato e se conceber como aquele que tem voz e fala e não aquele de quem se fala, ou seja, deixar de ser objeto para ser sujeito. 

BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Lucia Maria de Assunção. “O personagem negro na literatura brasileira: uma abordagem crítica”. In: Educação como prática da diferença (org. A. ABRAMOWICZ, L.M. BARBOSA e V.R. SILVEIRO). Campinas: Armazém do Ipê, 2006.

BERND, Zilá. Introdução à literatura negra. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9ª ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.

CUTI (Luiz Silva) Trincheira. In: QUILOMBHOJE (org.). Cadernos Negros 23: Poemas Afro-Brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2000.

DUARTE, Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In: Literatura e afrodescendência no Brasil: Antologia crítica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.

GUEDES, Lino. Novo rumo. In: Negro Preto Cor da Noite (1936).

GULLAR, Ferreira. Preconceito racial. In: Folha ilustrada, 4 de Dezembro de 2011. São Paulo: Folha de São Paulo.

PROENÇA FILHO, Domício. A trajetória do negro na literatura brasileira.Estudos Avançados, São Paulo, nº 18, 2004.

TRINDADE. Solano.  Canto dos Palmares. In:Cantares do meu povo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.


Publicado por: Viviane Coelho Cardoso

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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