Topo
pesquisar

A Carnavalização do Parvo

Literatura

Análise da literatura da Idade Média, especiamente de Gil Vicente.

Durante a Idade Média, a comédia parece não ter tido grande receptividade, e o próprio termo passa então a designar uma narrativa ou um poema com um desenlace feliz. Só no fim desse período, mais concretamente após o séc. XIII se recuperam algumas manifestações do espírito da comédia na representação de farsas. Com o Renascimento, o termo readquire o seu sentido primitivo, e os novos comediógrafos buscam inspiração nos autores greco-latinos, articulando alguns casos essa inspiração com os vestígios de um drama medieval de forte pendor religioso, “São muito características da menipéia as cenas de escândalos, de comportamento excêntrico [...]” (BAKHTIN, 1997, p. 117).

O Renascimento foi um importante movimento de ordem artística, cultural e científica que se deflagrou na passagem da Idade Média para a Moderna. Em um quadro de sensíveis transformações que não mais correspondiam ao conjunto de valores apregoados pelo pensamento medieval, o renascimento apresentou um novo conjunto de temas e interesses aos meios científicos e culturais de sua época. Ao contrário do que possa parecer, o renascimento não pode ser visto como uma radical ruptura com o mundo medieval.

Em Portugal, Gil Vicente elabora um conjunto de textos de sabor popular, estabelecendo condições para o florescimento de uma nova dramaturgia. Na Espanha, despontam nomes de relevo como Lope de Vega e Calderón de la Barca. A obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.Sua espontaneidade, ainda que refletido de forma eficaz os sentimentos coletivos e exprimindo a realidade criticável da sociedade a que pertencia, Gil Vicente também é versátil nas suas manifestações: se, por um lado, parece ser uma alma rebelde, temerária, impiedosa no que toca em demonstrar os vícios dos outros, mostra-se dócil, humano e ternurento na sua poesia de cariz religioso e quando se trata de defender aqueles a quem a sociedade maltrata. “ Outro traço dessa época foi a desvalorização de todos os aspectos exteriores da vida humana[...]”( BAKHTIN, 1997,p. 119). Este trabalho pretende refletir sobre o riso a partir de Parvo, personagem graciosa da obra Auto da Barca do Inferno, em perspectiva carnavalesca.

A obra de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno,é uma representação dramática de temas que tem a sua origem principalmente no drama litúrgico medieval. Presente na obra do autor, o gracioso funciona como contraponto entre a seriedade e o riso, “No carnaval todos são participantes ativos, todos participam da ação carnavalesca.” (BAKHTIN, 1997, p. 122). A mesma está classificada como auto de moralidade, mas se aproxima da farsa,retratando alguns dos costumes da sociedade portuguesa do século XVI, embora alguns dos temas decorrentes estejam presentes na atualidade.

Dia. De que morreste?
Joa. De quê?
Samicas de caganeira.
Dia. De quê?
Joa. De cagamerdeira,
má ravugem que te dê!
Dia. Entra! Põe aqui o pé!
Joa. Houlá! Nom tombe o zambuco

Com sua presença espontânea, o personagem, lembra a figura do 'gracioso' das comedias, uma característica chave com esta personagem, isto é, a sua capacidade para dizer aquilo que as demais pessoas não se atrevem a dizer.

Dia. Entra, tolaco enuco,
que se nos vai a maré!
Joa. Aguardai, aguardai, houlá!
E onde havemos nós d’ir ter?
Dia. Ao porto de Lucifer.

Joa. Ha-a-a...
Dia. Ó inferno!Entra cá!
Joa. Ò inferno? Eramá!

Hiu! Hui! Barca do carnudo.
Pero vinagre, beiçudo,
rachador d’Alverca, huhá!

No fragmento anterior, parvo chega desprovido de tudo é simples, sem malicia e consegue driblar o diabo, e até injuriá-lo. “Nesse sentido podemos dizer que o conteúdo da menipéia é constituído pelas aventuras da idéia ou a verdade no mundo, seja na Terra, no inferno ou no Olimpo.” (BAKHTIN, 1997, p.115).

Joa. Hou do barco!
Anjo Que me queres?
Joa. Queres-me passar além?
Anjo Quem és tu?
Joa. Samica alguém.
Anjo Tu passarás, se quiseres;
porque em todos teus fazeres,
per malicia nom erraste.
Tua simpreza t’ abaste
para gozar dos prazeres.
Espera entanto per i;
veremos se vem alguém
merecedor de tal bem
que deva de entrar aqui.

Outro aspecto interessante deste drama encontra-se nas comparações que o Parvo faz dele mesmo. Curiosamente, ele converte-se no modelo anterior duma maneira muito engenhosa, cujos valores são legítimos e sinceros. Ao passar pela barca do Anjo, diz ser ninguém. “[...] esse naturalismo de submundo, já aparece nas primeiras menipéias.” (BAKHTIN, 1997, p 115).

O gracioso explora a obscenidade como arma para lutar pelos espaços divinos como uma metáfora dos espaços sociais, ou que o léxico sirva para humilhar o confrontante e para dizer aquelas palavras proibidas pelas instituições sociais, este recurso torna-se uma ferramenta necessária da linguagem, especialmente quando o mundo anda a mudar depressa como ocorreu no Renascimento.

Outra possível explicação das palavras obscenas do Parvo seriam a do choque entre dois mundos: o mundo alegórico caracterizado pelas conversas das personagens em abstrações que ficam fora das referencias concretas de espaço e tempo; e o mundo terreno de onde ainda não se separa o 'gracioso. ' É como se o Parvo tentasse aplicar as mesmas regras vigentes no mundo terreno, nesse tempo de transição que e a passagem da vida a morte e da morte a vida pelo meio do recurso da salvação.

Embora o gênero cômico não tenha tido grande receptividade no século XVII, o teatro vicentino revela a cultura popular portuguesa de forma cômica. Por meio do gracioso Parvo, da obra Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente revela, também, o momento mudança que sociedade portuguesa estava passando. Essa é, certamente, uma das razões pela qual o teatrólogo encantou seu público.

Referências

VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. Porto Alegre: L&PM Editores, 2005.

MOISÉS, Massaud. A literatura Portuguesa. São Paulo: Editora Cultrix, 33° ed.2005.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1997.


Publicado por: francisco de assis ferreira filho

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

DEIXE SEU COMENTÁRIO
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
  • SIGA O BRASIL ESCOLA
MeuArtigo Brasil Escola