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Luzia-Homem: Obra Naturalista

Literatura

Confira aqui um artigo que analisa em quais aspectos podem se enquadrar a obra Luzia-Homem.

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1. RESUMO

O presente artigo surgiu com a finalidade de analisar em quais aspectos podem se enquadrar a obra Luzia-Homem. Verificando quais características, sejam naturalistas-regionalistas e até mesmo românticas, encontram-se presentes na obra de Domingos Olímpio. Poderemos perceber que uma única obra pode carregar em si várias estéticas diferentes, apresentando as manifestações de cada uma e suas possibilidades de divergência. Para uma melhor abrangência do tema proposto, o texto se fixará nos pressupostos teóricos de Bosi (2006), Coutinho (1986), Litrento (1974) e Oliveira Jr.(1997).

PALAVRAS – CHAVE: Luzia-Homem. Naturalismo-Regionalista. Romantismo.

2. INTRODUÇÃO

Luzia-Homem é uma obra que vem nos trazer como temática principal, a seca de 1977/78. Sua história se passa no interior do Ceará, mais precisamente na cidade de Sobral, trazendo-nos em suas páginas o drama de retirantes na construção da cadeia pública, que em meio à pobreza e à escassez de mantimentos, lutam e persistem pela vida, em um ambiente que os condena a sofrerem e até mesmo morrerem na miséria.

Apresenta o drama e a vida sofrida que leva Luzia, personagem principal, uma retirante que mesmo com os dramas e a rotina diária de trabalho, é uma mulher forte e guerreira e ao mesmo tempo é frágil e bondosa, como afirma Olímpio que “sob os músculos poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil, afogada no sofrimento que não transbordava em pranto, e só irradiava em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa treva” (OLÍMPIO, 1997, p.23).

Luzia é uma mulher guerreira, que luta com todas as suas forças pela sua imagem e por sua dignidade e dedica sua vida a cuidar da mãe doente, enquanto o local em que vive condena a todos que ali estão. Por ter músculos fortes, força incomparável e características masculinizadas, Luzia recebe a alcunha de Luzia-Homem. Quando lhe perguntam o motivo pelo qual é assim chamada responde que “desde menina fui acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar meu pai no serviço. (...) Só deixei de usar camisa e ceroula e andar encourada, quando já era moça demais, ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de verdade” (OLÍMPIO, 1997, p.41).

3. AS ESTÉTICAS DENTRO DA OBRA

3.1 O NATURALISMO-REGIONALISTA

O naturalismo tem uma visão determinista e cientificista, considerando que o homem é produto das leis naturais, buscando a realização do registro de uma realidade com aspectos repugnantes, trazendo nas obras, personagens flagelados de uma classe social inferior. Há uma preferência em abordar temáticas como seca, miséria, homossexualismo, crimes, adultério etc.

No que tange a essa temática, Bosi afirma que

O determinismo reflete-se na perspectiva em que se movem os narradores ao trabalhar as suas personagens. A pretensa neutralidade não chega ao ponto de ocultar o fato de que o autor carrega sempre de tons sombrios o destino das suas criaturas. (BOSI, 2006, p.183).

O autor naturalista nos mostra que o homem é influenciado pela raça, pelo meio e pelo momento, analisando os problemas que se manifestam na sociedade e dessa maneira tentar denunciá-los. Sobre esse prisma, Coutinho afirma que a “objetividade e imparcialidade científicas faz com que o naturalista introduza na literatura todos os assuntos e atividades do homem, (...) dando preferência às camadas mais baixas da sociedade” (COUTINHO, 1986, p.13).

Para Lúcia Miguel Pereira, citada por Oliveira Jr., Luzia-Homem é

realista na forma, sem os tiques dos nossos naturalistas, talvez simbólico na concepção, sem ser simbolista, regionalista pelo tema, sem colocar o elemento local acima do humano, todas essa tendências ao mesmo passo se completando e se abrandando umas pelas outras, é difícil classificar este livro. (PEREIRA apud OLIVEIRA JR., 1997, p.21).

Luzia-Homem apresenta várias características do naturalismo, seja na descrição minuciosa das cenas descritas ou nos apresentando personagens patológicos, que são movidos pelos instintos sexuais sem conseguir controlá-los, e sem dúvida, em se tratando do tema da seca abordado pelo autor, como na descrição dos aspectos físicos dos retirantes da seca os quais

eram pedaços da multidão, varridas dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem através do sertão tostado (...) esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, (...) (OLÍMPIO, 1997, p.20).

Em se tratando da visão determinista, de que o homem é corrompido pelo ambiente em que vive, Luzia não apresentou mudanças em seu comportamento. Sua conduta foi a mesma durante todo o decorrer da história, apesar das investidas constantes do vilão Crapiúna, um soldado “mal-afamado” e desonesto, que desrespeitava as mulheres da cidade. Luzia encontra-se o tempo inteiro em constante conflito com Crapiúna, justamente quando pretendia dedicar seu amor e casar-se com Alexandre.

O desfecho trágico dessa luta revela o determinismo na obra, mostrando que apesar de sua força descomunal e de suas várias tentativas de fuga contra os abusos do vilão, não consegue impedir a vingança de seu orgulho ferido, acabando com o assassinato da personagem, que morre com um dos olhos, o qual arranca do vilão Crapiúna, preso em uma de suas mãos.

3.2 O ROMANTISMO

Há presença de características românticas em Luzia-Homem, como a idealização da mulher, que se apresenta logo no início do capítulo um, onde o francês Paul “um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de notas: Passou por mim uma mulher extraordinária carregando uma parede na cabeça”. (OLÍMPIO, 1997, p.16). Luzia é apresentada como uma mulher extremamente forte, que despertava os olhares dos homens e até mesmo das mulheres, as quais não conseguiam realizar trabalhos pesados e se sentiam inferiores a ela.

Luzia, segundo Oliveira Jr., “é a que se mostra, a que é exposta à luz, aos olhos de todos, para que possam todos reconhecer sua verdade como ser (...). Ao significado desta palavra, junta-se uma outra que representa seu estigma de mulher masculinizada”. (OLIVEIRA JR., 1997, p.33).

Logo adiante, é descrita a imagem de Luzia, a qual é realçada sua feminilidade ao encobrir o rosto dos raios do sol.

Trazia a cabeça sempre velada por um manto de algodãozinho, cujas ourelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva (...) (OLÍMPIO, 1997, p.16).

Apresenta diversas metáforas, como a comparação de Luzia com Santa Luzia, assim como o faz Crapiúna em carta que lhe envia: “Minha Santa Luzia – Esta tem por fim unicamente, dizer- lhe que se há de arrepender da sua ingratidão e quem lhe diz isto é o seu amante fiel até a morte – Crapiúna”. (OLÍMPIO, 1997, p.36).

As descrições minuciosas são constante na obra, seja no aspecto dos retirantes ou do lugar onde a seca castiga a população, o qual “no céu límpido, profundo e sereno, em quietitude de lago tranquilo, sem as manchas de nuvens errantes, tremeluziam em esplêndidas constelações, miríades de estrelas”. (OLÍMPIO, 1997, p.15).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos analisar que Luzia-Homem é uma obra que carrega em si características de várias estéticas literárias, apresentando um naturalismo-regionalista que “descreve com realidade e vigor dramáticas cenas da seca no interior cearense, retratando a tragédia do retirante” (LITRENTO, 1974, p.158). Na obra pode ser visto um retrato fiel da realidade em que viviam os sertanejos de outros tempos, a qual é apresentada com clareza e objetividade de como eram as condições dos retirantes que viviam de forma enormemente humilde e precária, e mesmo assim lutavam por sua sobrevivência.

Apresenta-nos traços do Romantismo, fazendo-nos perceber através de uma mulher forte e guerreira, seu lado frágil e sensível, que carrega consigo características bastante femininas nos mostrando romantismo e bondade na imagem de uma sertaneja, através das cenas descritas e de sua personalidade marcante.

Pretendeu-se neste estudo proporcionar uma contribuição para os estudos de obras naturalistas, mescladas com outras estéticas literárias, e no caso em análise, Luzia-Homem, tão essencial e importante para a literatura brasileira.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Vol. IV 3. ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1986.

LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da Literatura Brasileira. Prêmio Paula Brito de Crítica Literária e Ensaio de 1962. Tomo I. Vol. 116. Biblioteca do Exército-Editora e Forense Universitária, 1974.

OLÍMPIO, Domingos. Luzia-Homem. Série Bom Livro. 14. ed. São Paulo: Ática, 1997.

OLIVEIRA JR., José Leite de. O Pictórico em Luzia-Homem. Prêmio Ceará de Literatura de 1993. Ensaio. 2. ed. Fortaleza: 1997.


Publicado por: Ana Virgínia Oliveira

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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