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A Primeira Guerra Mundial: ambiência e antecedentes

História Geral

Entenda qual foi a ambiência e os antecedentes da Primeira Guerra Mundial.

Como a humanidade mergulhou em sua primeira guerra total? Como se deu a escalada de agressividade entre as nações?

Em 2014 atingimos a distância de exatos 100 anos do início deste trágico evento da história da humanidade. Apesar de diferenças e rivalidades étnicas, os povos europeus não desejavam esta guerra e muito menos que ela fosse uma impiedosa e generalizada carnificina que atingisse civis e militares, sem muita distinção. No entanto, basta lançarmos um olhar sobre o histórico de interesses em jogo para percebermos que a construção e o aprofundamento destas rivalidades não foi fruto de um impulso passional mas resultado do acúmulo de décadas de atritos crescentes e de interesses conflitantes. Muitas vezes somos levados a acreditar que uma guerra trata-se de um evento binário: X contra Y. Mas uma compreensão dos eventos que levaram à eclosão da primeira grande guerra mundial (1914-1919) exige entender qual o ambiente em que se inseriam e qual o papel desempenhado pelos diversos atores no tabuleiro geopolítico mundial.

O lado mais visível de uma aliança aos olhos dos povos e da história em tempos de guerra é o militar. Aqui são essenciais os simbolos de força e coesão nacional: retratos pintados de chefes de estado assinando acordos, bandeiras, hinos, armamentos e a multidão fardada e mobilizada para o conflito. Entretanto, sob todos estes rituais e símbolos, escondem-se interesses financeiros, econômicos, comerciais, territoriais e estratégicos que permanecem ocultos. Tentaremos trazer alguma contribuição ao estudante curioso em compreender como, ao início do século XX, o mundo entrou em um período com duas guerras totais sem precedentes na história humana. Procuraremos compreender melhor a escalada de agressividade entre as nações européias ao início do século XX. Para isso, precisamos voltar um pouco no tempo: ao século XIX.

Os 100 anos anteriores ao início da Primeira Guerra Mundial em 1914 foi um tempo de relativa paz na Europa. Mas era uma paz mal disfarçada. A atenção das ambiciosas e agressivas potências européias estava voltada para a expansão neocolonial sobre a África e a Ásia. Neste dois continentes o poder industrial, financeiro e militar europeu colocou em prática seu modelo brutal de civilização. Nestes longíquos continentes, o modelo era representado pela exploração de recursos naturais, matéria-prima e da mão-de-obra nativa em benefício do capital industrial europeu. Foram tempos de profunda fé no poder do homem civilizado, científico e industrial em detrimento o homem selvagem, natural e primitivo. No campo das ideias, a ciência europeia vivia a certeza absoluta na superioridade biológica, cultural e espiritual do homem branco, cristão e europeu. Segundo estas teorias racialistas de desgualdade entre os humanos, aos povos considerados “inferiores”, negros, indígenas, asíaticos e mesticos, restaria o destino da escravidão e do extermínio.

Na foto, coletores de resina de borracha no Congo africano. Aqueles que não atingissem as quotas de produção sofriam a pena pública de amputação de suas mãos. Esta região foi colonizada pela monarquia de Leopoldo II da Bélgica.

Na foto, coletores de resina de borracha no Congo africano. Aqueles que não alcançassem as quotas de produção recebiam a pena pública de amputação de suas mãos. O Congo foi colonizado pela Bélgica sob as ordens do monarca Leopoldo II. (extraído de tintinology.poosk.com/)

O fim do século XIX também assistiu uma nova etapa de domínio global europeu após as grandes navegações de conquista realizadas por portugueses, espanhóis e franceses nos 1500. Se fôssemos levados a colocar em poucas palavras o que envolveu o imperialismo europeu do século XIX poderíamos afirmar que: foi uma época de voraz industrialismo e truculenta exploração da mão-de-obra; de grandes transformações tecnológicas no campo das engenharias, da química e da física; uma corrida armada pelo controle de matéria-prima e mercados; de surgimento do nacionalismo moderno e de acelerada colonização. Foi também tempo dos trustes, monopólios e cartéis mundiais dos mais diversos produtos controlados por estas potências. O comércio entre os países se conectava cada vez mais sob o controle de instituições financeiras e bolsas de valores sediadas em Nova Iorque, Londres ou Amsterdã. Elas tinham o poder de regular, por exemplo, quanto café brasileiro seria vendido no mundo e por qual preço. Como o Brasil era um país essencialmente agrícola e, portanto, dependente das rendas produzidas pela exportação, por consequência a (péssima) condição das contas públicas nacionais sempre dependia do que era decidido alhures por estes vistosos homens de cartola. Agora procure imaginar este tipo de domínio econômico, financeiro e comercial ampliado em escala planetária. Comumente este período é compreendido como a Era dos Impérios.

Nos últimos parágrafos abordamos rapidamente como se deu o domínio militar, científico e econômico das grandes potências. Vamos descrever agora quais foram os principais atores do palco imperialista. Os maiores impérios do período foram: a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, a casa real Habsburga (que estava à frente da Austria-Hungria mas também ligada por sangue à elite política de toda a Europa), o Japão, a Rússia e o Império Otomano.

Consideraremos neste texto as quatro primeiras forças citadas por serem impérios sediados no continente europeu. Num patamar mais baixo neste jogo citamos Itália, Polônia, Espanha, China e Índia. Os EUA ficam de fora pois, desde a paz obtida junto à Grâ-Bretanha em 1812, desfrutaram produtivamente de um século de paz contra a salvo de ameaças imperialistas européias. Ao final do século XIX os americanos se julgavam distantes demais para se intrometer em confusões no velho continente. Neste período de paz os EUA puderam consolidar seu atual território. Ora pela via da guerra, ora pela compra de terras, os americanos se expandiram por sobre antigas possessões francesas, russas, espanholas e holandesas.

Na Europa, para que os interesses dos grandes países se mantivessem preservados da ambição alheia foram costurados diversos tratados comerciais e de assistência (ou neutralidade) militar em caso de invasão externa. Assim, por exemplo, X assinava um acordo com Y no qual, em caso de X ser invadido por Z, Y se manteria neutro (ou Y viria em socorro?). Os formatos e combinações eram os mais diversos e a Europa se viu repentinamente traçada por uma complexa teia de acordos na segunda metade do século XIX. Por exemplo, a Dupla Aliança, assinada entre alemães e áustro-húngaros em 1879 previa que se a Alemanha fosse invadida pela Rússia, a Áustria-Hungria se manteria neutra. Alguns destes acordos ainda podiam ser mantidos sobre sigilo do público.

Foi uma era em que valia o poder do mais forte. Não havia organismos internacionais que regulassem fronteiras ou protegessem minorías. O direito dos povos à soberania e à paz era respaldada pelo puro poder de destruição de seus canhões. Os países menores, incapazes de impor seus interesses, sofriam invasões, eram incorporados à outras potências, mudavam de nome ou simplesmente podiam desaparecer do mapa. A Polônia é um caso, talvez o mais dramático da Europa, com seu território incerto e identidade fluida devido a mais de 1000 anos de contínuas invasões.

É importante comentarmos a criação de um novo país neste período: a Alemanha. Antes de se unificar como império alemão em 1870, a região era composta por dezenas de pequenos ducados, condados e cidades de já avançado perfil industrial. Ao tempo da unificação e criação da moderna Alemanha, duas propostas para o novo país entraram em jogo: a grande e a pequena Alemanha. Os defensores da “Grande Alemanha” (também reunidos sob o nome de pan-germanistas) afirmavam que a nova nação tinha direito à posse de territórios etnica, racial e historicamente pertencentes ao espírito alemão, o chamado “espaço vital”. E não era pouca coisa este espaço desejado: incluía, além da atual Alemanha, áreas pertencentes à França, Suíça, Holanda, República Tcheca, Eslováquia, Austria, Hungria, Polônia e Lituânia. Como estes territórios teriam de ser conquistados à pólvora e o custo era irreal neste momento para a jovem nação, venceu a proposta da Alemanha menor. Mas mesmo após a unificação, a teoria do “espaço vital” continuou a zunir como um mosquito na cabeça dos homens de estado alemães, do imperador Bismarck até Hitler. A Grande Alemanha e seu “espaço vital” são um tabu muito vivo até hoje entre os alemães.

Além da Alemanha, outro importante ator foi a França. Durante o século XIX o maior esforço político feito no continente europeu foi impedir o acontecimento de uma nova França napoleônica (1804-1814), agressiva, expansionista e que ameaçasse a paz europeia. Entre os anos 1815 e 1854 a França republicana viveu presa na camisa-de-força estipulada no Congresso de Viena (nome dado ao acordo de paz firmado após a derrota francesa nas guerras napoleônicas). Para se proteger do vizinho francês e tentar isolá-lo ao máximo, a recém unificada Alemanha procura juntar forças com o Império Áustro-Húngaro e a Itália na chamada Tríplice Aliança. Com esse novo instrumento criado a também recém-unificada Itália foi alçada à condição de grande potência. Isso a possibilitou expandir suas colônias no norte da África sob a indiferença dos dois outros estados membros. Mas isso não a impediu a Itália de sofrer uma humilhante derrota contra os Etíopes, única nação africana que se manteve independente durante o período neocolonial.

Ainda que os atores nacionais desconhecessem o futuro resultado trágico de suas alianças, dois grupos começam a se desenhar neste momento. A Alemanha procurava reforçar sua Triplice Aliança tentando trazer para seu lado o maior rival histórico da França, a Grã-Bretanha. Em vão. A Grã-Bretanha, apesar de semelhanças com a Alemanha (países do norte, não latinos, além de monarquias protestantes) recusou o convite para um compromisso tão forte. A Alemanha então volta-se para a Rússia de quem consegue um tratado comercial em 1894. Mas neste mesmo ano, a Rússia e a França se aliam para criar um duplo front de resistência à expansão alemã. Conter a ambiciosa Alemanha era uma necessidade tão urgente que a aliança franco-russa uniu dois lados opostos do espectro político europeu do século XIX: 1) a república francesa, revolucionária, parlamentar, constitucional e laica à 2) monaquia czarista russa, aristocrática, absoluta e cristã ortodoxa. A aliança franco-russa era também uma união de rivais da Grã-Bretanha, que por sua vez nunca conseguiu se misturar bem com a França latina ou com a Rússia eslava. Deste ponto em diante o objetivo alemão passou a ser 1) enfraquecer a aliança franco-russa e 2) partir para a criação de uma “liga continental” anti-britânica sendo ela própria, a Alemanha, sua líder. Apesar dos esforços, os alemães não conseguiam nem uma coisa, nem outra. Assim, em 1894, duas forças principais estavam desenhadas na Europa: a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e a Aliança Franco-Russa.

Em 1897 a Alemanha inicia a construção de sua marinha de guerra. Isso significava uma clara mensagem à Grã-Bretanha, dona dos mares durante todo o século XIX. A Grã-Bretanha há muito não interferia nos negócios do continente, mais entretida com a lucratividade astronômica de seu exército de banqueiros e em sua expansão financeira. Com isto, as relações entre alemães e britânicos passam da colaboração para a desconfiança. Neste momento, Aústria e Itália também concluem que estão sendo usadas pela Alamenha em sua aspiração imperialista. A Áustria assina acordo com a Rússia (com a Convenção de Mürzsteg em outubro de 1903 pela qual os dois países supervisionariam os Bálcãs) e a Itália com a França (ao aceitar um protetorado francês na Tunísia com lucrativos acordos entre ambos). Em Junho de 1902 a Itália renova a Tríplice Aliança mas continua no seu balanço entre Paris e Berlim.

Deste ponto em diante, uma série de eventos nos Bálcãs fez disparar a temperatura na Europa. Os Bálcãs são uma importante região que conecta o mundo cristão europeu ao mundo muçulmano do oriente médio. Este território foi por cerca de 4 séculos controlado pelo Império Otomano, antigo império islâmico hoje reduzido à atual Turquia. Com a rápida decadência Otomana, os Bálcãs se viram em um vácuo de poder e sob a iminência de “invasão” pelas ansiosas potências européias. A tensão nacionalista e étnica era muito viva entre as pequenas nações desta região. Neste processo de avanço europeu e russo por territórios até então otomanos, as nações balcãnicas, pequenas, mais pobres, menos industrializadas e com inúmeras fragmentações religiosas e culturais, entendiam que a nova ocupação estrangeira era um risco a sua soberania, orgulho e perspectiva de independência. São exemplos de nações balcânicas a Sérvia, Albânia, Bosnia-Herzegovina, Bulgária, Romênia, Montenegro e Grécia. A Rússia volta a ter interesses militares nesta região e sua relação com a Áustria-Hungria declina. A Áustria-Hungria, por sua vez, invade e anexa um território ao sudeste, a Bósnia-Herzegovina. Itália e Austria-Hungria iniciam uma disputa pelo controle da Albânia.

Pressionados entre o Império Austro-Húngaro, o Império Russo e o Império Otomano: os Bálcãs

Os Bálcãs, região compreendida pelo espaço entre Grécia, Romênia e Montenegro, pressionados entre três impérios: Áustria-Hungria, Rússia e Império Otomano (atual Turquia). Crédito: Wikipedia.

E assim a violência escala e estoura nas Guerras Balcãnicas (1912-13). Em meio a ele, um evento fortuito: o assasinato do arqueduque e herdeiro do trono do império austro-húngaro Francisco Ferdinando e sua esposa por um estudante nacionalista sérvio em junho de 1914 produz uma vasta reação em cadeia onde os tratados e alianças assinados jogaram as nações européias pela primeira vez em uma guerra total. Nos primeiros dias de agosto de 1914 a Alemanha se declarou pronta para uma guerra com a Rússia e a França. Os alemães entendiam que era essencial proteger a família real da Áustria-Hungria, os Habsburgos. A Áustria-Hungria por sua vez, se via obrigada a controlar o máximo de territórios nos Bálcãs se quisesse se manter como uma grande e respeitável potência na Europa, agindo como um para-choque contra ameaças à Alemanha vindas do oriente. A Dupla Aliança acabou empurrando alemães e áustro-húngaros para a guerra já que ambos desconfiavam de que lado ficaria a indecisa Itália em caso de uma guerra generalizada.

As declarações de guerra começam a se dar a partir de agosto de 1914. Austria-Hungria e Alemanha ainda tentaram “comprar” o apoio da Itália ao oferecer-lhe territórios de língua alemã. Mas a Itália opta pela neutralidade, a princípio, o que deixou loucos o imperador habsburgo Franz Josef e o chanceller alemão Theobald von Bethmann. Não se sabe se a Itália realmente poderia ajudar numa vitória das potências centrais mas alemães e áustro-húngaros tiveram de redirecionar muitos recursos de guerra com a declaração de neutralidade italiana. A situação ainda se agravaria com a saída da Itália da Tríplice-Aliança em maio de 1915 e, três semanas mais tarde, com sua declaração de guerra à Áustria-Hungria.

Por fim, podemos afirmar que a Tríplice Aliança não foi originalmente desenhada para propósitos positivos. Ao contrário, a aliança consistiu num sistema de afirmação de compromissos e apoios recíprocos. A Tríplice Aliança foi desenhada pela jovem nação alemã como uma forma de expandir sua própria soberania e manter sua integridade territorial contra potências inimigas e também como um instrumento de vigilância contra ameaças vizinhas.


Publicado por: Giovanni Stroppa Faquin

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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