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Pedra de Amolar Pincel

Por: GEONE ANGIOLI FERREIRA

A Cidade Garantido é um grande galpão onde são construídas as alegorias do boi-bumbá Garantido do município de Parintins/AM, cidade onde todos os anos acontece o maior Festival Folclórico da região Norte. A festa do boi-bumbá.

Pode-se dizer que ali é uma fábrica de sonhos, onde os artistas do boi preparam as mais belas alegorias que são apresentadas no festival.

É uma fábrica literalmente! Lá trabalham centenas de pessoas de manhã, de tarde e a noite. O ritmo dos trabalhos é acelerado e dentro do maior sigilo para o boi contrário não saber o que está se construindo ali dentro.

Quando o trabalho começa nos galpões sempre aparece um bico. E várias pessoas são chamadas para serem da equipe de apoio. Os famosos ‘orelhas do boi’. A rapaziada que faz de tudo um pouco, pinta, cola, carrega, varre, pastela, etc.

Kirk Douglas estava precisando ganhar algum, então resolveu encarar o trabalho de orelha do boi. Algo que não condizia com seus status pequeno-burguês, mesmo sem ele ter onde cair morto. Kirk era apenas um durango-kid com muita lábia.

Entretanto, quando saia do galpão da Cidade Garantido ele se tornava um artista do boi, dizia para as pessoas da cidade (município) que era responsável por uma grande equipe, e que iria fazer algo nunca visto no festival.

Kirk era um mentiroso de marca maior. Um daqueles caras doentes, daqueles que conseguem enganar muita gente. Porém, na Cidade Garantido todos conheciam suas malandragens.

E não demorou muito para alguém aprontar uma pra ele.

O artista Junior era seu chefe. Tudo que ele falava para os orelhas fazerem era lei.

Um dia ele pegou uma pedra de uns 20 Kg e fez uma maquiagem artística nela, ou seja, jogou uma tinta e envernizou.

A pedra ganhou um certo aspecto místico de obra de arte, mas era apenas uma pedra.

Junior falou a todos os orelhas a respeito da pedra. Disse que ela era um amuleto para seus pincéis. E o contato com ela lhe trazia inspiração para confeccionar e pintar suas esculturas gigantes.

Kirk acreditou em tudo que ouviu. Mas, aquilo era pura bobagem, e todos sabiam, menos ele.

Na manhã seguinte quando chegou para trabalhar recebeu uma ordem.

- Leve essa pedra de amolar pincel ao artista Jair.

- Tudo bem: manda aí ele falou.

Botou no ombro e saiu com a pedra de amolar pincel em busca do artista Jair.

A cidade Garantido mede cerca de 2.000 m² e todas as entradas confluem na mesma direção. Caso aconteça algum incêndio todos saem com facilidade.

Kirk começou sua jornada de entregar a pedra de galpão em galpão.

Ele chegava e perguntava:

- Aqui é o galpão do Jair?

A resposta ouvida era sempre a mesma.

Não!

E Kirk seguia em frente atrás do artista Jair.

Depois de bater de porta em porta, todos já sabiam que ele estava pagando mico.

Somente Kirk não sabia da presepada.

Todos os outros orelhas estavam aflitos com o desfecho daquela brincadeira de mau gosto.

Depois de muito caminhar Kirk parou no meio do percurso que nem Jesus cansado com sua pesada cruz.

Todos riam dele.

Alguém se aproximou e revelou o segredo.

Jogue a pedra! Isso é uma brincadeira. Disse Junior.

Se fosse um qualquer a coisa teria desandado.

Porém, o humilhado em questão era Kirk Douglas, uma mente astuta, às vezes doentia.

Kirk jogou a pedra no chão.

Limpou o ombro sujo. E discursou a todos.

Muito obrigado gente! Meu nome é Kirk Douglas Mendonça eu sou novo aqui e estou disposto a me tornar mais um filho dessa nação maravilhosa que é o boi Garantido.

Nunca pensei que eu merecesse tanta atenção de vocês. Muito obrigado! Muito obrigado mesmo!

Kirk falou aquelas palavras com muito entusiasmo que conquistou a amizade de todos que o ouviram.

Até o presidente do boi soube da história e quis conhecer o malandro Kirk Douglas.

Kirk aproveitou a fama instantânea no boi e começou a contar várias mentiras para as pessoas da cidade. Dizia que era amigo do presidente, do artista tal e que ele mesmo era um artista de ponta, etc.

Querer brincar com malandro é uma faca de dois gumes.

Kirk que já era um perigo ficou um mentiroso maior ainda, e começou a dar pequenos golpes. Entrou no ramo do estelionato.

Depois de um ano ele já tinha enganado centenas de pessoas.

Deixava pendurado a conta no restaurante, bar, motel, festas, lojas, enfim, Kirk enrolava todos com sua lábia fenomenal.

Kirk anda por aí se passando por empresário, artista, oficial da aeronáutica, fazendeiro. Dependendo do lugar ele cria o personagem ideal para enganar suas vítimas.

A sua auto-imagem é volátil e seu ego do tamanho do mar.

Enfim, sempre tem gente interessada em ilusão.

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