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O Folclore amazônico no século XIX

Por: Anna Carolina de Abreu Coelho

A partir da segunda metade do século XIX, a literatura tradicional perdia espaço para uma “cultura média”; que se manifestava nos folhetins, nas notícias diversas, na moda, na publicidade, no cinema e se assentava em outros critérios de produção e articulação, rompendo barreiras entre capital e província, ou entre diferentes regiões, tornando-se até uma literatura internacional, acompanhando o processo de modernização. Este também foi o período do surgimento do folclore como disciplina, na primeira metade do século XIX a influência principal eram os estudos fundamentados no Romantismo (que buscavam as tradições formadoras de nacionalidades) neste momento surgiram as primeiras associações de estudos de tradições populares na Inglaterra, Alemanha e França.

Segundo Ortiz,[1] é somente na segunda metade do XIX, que os estudiosos da cultura popular vão se denominar folcloristas, um dos marcos dessa nova sensibilidade é a fundação da Folk-lore Society na Inglaterra, em 1878. Ocorrendo a partir desse momento, a busca de uma diferenciação entre os novos folcloristas, que baseavam seus estudos em um ideal científico ou científicizante e os românticos, que buscavam expressões autênticas de sua alma nacional. A criação do folclore se realizou sob a égide do positivismo onde as idéias de progresso, evolução e ciência eram dominantes e praticamente sinônimas. Uma das obras mais influentes nesse período foi a Cultura Primitiva de Eduard Tylor, que propunha o estudo da humanidade conectando os acontecimentos à totalidade evolutiva que preside a existência individual. Assim, Tylor dedicava-se a compreender a permanência de características primitivas no mundo industrial e introduzia a noção de permanência como substituta para a noção de superstição ao estudar canções infantis, jogos de azar e ocultismo na Inglaterra industrial.

Durante esse período, ocorreram importantes contribuições para o estudo das tradições populares na Amazônia destacando-se: Pádua de Carvalho, Santa-Anna Nery, José Veríssimo, Barbosa Rodrigues, entre outros.

Antônio Pádua Carvalho, jovem jornalista do Pará, escreveu no Diário de Notícias desta cidade, sob o pseudônimo Sganarello, uma série de excelentes artigos sobre as lendas populares, entre elas a da ilha encantada de Maiandeua (Algodoal) de onde aparecia uma princesa e acontecimentos e histórias relacionadas às crenças locais como matintas-pereiras.

Santa-Anna Nery paraense que vivia na França escreveu o livro Folclore Brasileiro (o primeiro sobre o tema que foi publicado no exterior) divide-se em quatro partes: a poesia popular no Brasil, contos e lendas, poesia, música e danças indígenas. Possui um anexo com partituras de canções populares (o autor era também músico), sendo que a maioria dos capítulos trata de elementos da cultura indígena, especialmente a segunda e a terceira parte.

A obra mais importante de Barbosa Rodrigues, em relação ao folclore é Poranduba amazonense. Annaes da Bibliotheca Nacional. 14(2): 1-334, 1890, um verdadeiro tratado sobre as crenças e costumes amazônicos, sobre o qual seu autor publicou, quatro anos depois, um Vocabulario indigena com a ortographia correcta.Deve-se enfatizar, entrementes, que suas obras mais citadas são aquelas resultantes das expedições naturalistas, como Exploração e Estudo do Valle Amazônico.

José Veríssimo teve grande importância entre os autores escrevendo sobre literatura, cultura e religiosidade popular em obras como Scenas da vida amazônica. Para ele os índios ou tapuios da Amazônia estavam em um estágio de religiosidade chamado de animismo ou fetichismo, os mitos eram vagos e provocariam medo em seu espírito infantil, esse caráter seria percebido também nas “outras gentes da Amazônia” em sua religião católica apenas pelo batismo, mas que misturava fetichismo e politeísmo.

De acordo com Aldrin Figueiredo[2], Pádua de Carvalho assim como os outros folcloristas é profundamente ambíguo ao se posicionar diante das práticas religiosas populares da região. Uma explicação para essa postura deve residir no fato do literato encarar a crença do homem do interior como algo puro, ingênuo e, ao mesmo tempo, lendário. Algo que irá desaparecer, sem nenhuma dúvida, com o avanço da civilização. Para este autor o folclorismo procurava observar e registrar a parcela “tradicional” da sociedade — aquela que morava nas “matas”. Ao mesmo tempo, também havia o interesse pela gente da cidade. Esse segmento social sempre foi temido e estigmatizado pela maior parte dos folcloristas, tanto no Brasil como na Europa. Assim, o significado político do registro dos costumes populares era de matá-lo, cristalizando-o como algo do passado, dos tempos da “aurora do mundo”.

BIBLIOGRAFIA

CASCUDO, Luis da Câmara. Antologia de Folclore Brasileiro, SP: Martins, 1983.

COELHO, Anna Carolina; SARGES, Maria de Nazaré. Divulgando a Amazônia em Paris – Santa-Anna Nery e sua missão. Revista de Estudos Amazônicos, Belém,v.2,n.1, jul/dez,2007. Alves Gráfica e Editora, 2007.

ORTIZ, Renato. Românticos e Folcloristas. São Paulo: Olho d’água, 1992.

FIGUEIREDO, Aldrin de Moura. A Cidade dos encantados, pajelanças, feitiçarias e religiões afro-brasileiras na Amazônia. A constituição de um campo de estudo (1887-1950), Dissertação (Mestrado em História Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 1990.

Anna Carolina de Abreu Coelho - Mestre em História pela UFPA

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[1] ORTIZ, Renato. Românticos e Folcloristas. São Paulo: Olho d’água, 1992

[2] FIGUEIREDO, Aldrin de Moura. A Cidade dos encantados, pajelanças, feitiçarias e religiões afro-brasileiras na Amazônia. A constituição de um campo de estudo (1887-1950), Dissertação (Mestrado em História Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 1990.

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