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CRIANÇAS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NA EDUCAÇÃO

Por: Danielle Binda Coutinho

RESUMO

Tendo em vista o crescente movimento em favor da inclusão de crianças especiais, no geral aquelas que possuem uma deficiência física e/ou intelectual, que são vistas como “coitadinhas” e dignas de cuidado e atenção peculiar, o que dizer dos que possuem inteligência acima da média? As crianças com Altas Habilidades/Superdotados? Pensa-se que essas crianças também devem ser dignas de nota, que um estudo levantando essa questão poderá auxiliar estes pequenos indivíduos a encontrarem o seu lugar no mundo. 

PALAVRA-CHAVE: Superdotados. Altas Habilidades. Educação.

ABSTRACT

In view of the growing movement towards the inclusion of special children, generally those with physical and / or intellectual disabilities, who are seen as "poor" and deserving of particular care and attention, what about those with intelligence above Of the average? The Highly Skilled / Gifted? It is thought that these children should also be noteworthy, that a study raising this question may help these small individuals to find their place in the world.

KEYWORDS: Autistic Teacher-student. Learning.

INTRODUÇÃO

A questão das crianças com altas habilidades/superdotadas é um assunto atraente, pois constituem um segmento do grupo maior de crianças que, por serem detentoras de traço individuais específicos, são definidos como necessidades especiais. Tendo em vista o crescente movimento de inclusão social a partir do ambiente escolar, escolheu-se o assunto revestido de paradigmas a fim da desmistificação de que crianças que nascem especiais não aprendem nada e devem ter uma educação dentro de uma instituição especializada para cada necessidade.

Diante do fato de que estudos demonstram que crianças superdotadas são precoces e começam a dar os primeiros passos no domínio de alguma área em uma idade anterior à média, tem-se que elas não só progridem como também aprendem mais rápido do que as crianças comuns, pois sua aprendizagem nesta área ocorre com mais facilidade, além desses indivíduos fazerem as coisas à sua moda.

O direito das pessoas com necessidades educacionais especiais, entre os quais estão os com altas habilidades, o atendimento educacional condizente com suas características específicas é reconhecido desde a Lei 5692/71 e reafirmado na Constituição Federal e LDB, Art. 208, III, respectivamente.

Hoje toda sociedade acordou para o tema e para o fato de que essas crianças não devem ser excluídas dos ambientes sociais frequentadas pelos ditos “normais” e que é essa convivência que fará com que elas se desenvolvam melhor em todos seus aspectos: psicológico, físico, emocional e social.

1 ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTADOS: QUEM SÃO?

De acordo com o Conselho Brasileiro para Superdotação (CONBRASD, 2013, p. 1): “O superdotado/ talentoso/ altas habilidades é aquele indivíduo que, quando comparado à população geral, apresenta uma habilidade significativamente superior em alguma área do conhecimento, podendo se destacar em uma ou várias áreas [...]”.

Já a Resolução n° 2 do Conselho Nacional de Educação (CNE) conceitua altas habilidades/ superdotação como, (BRASIL, 2001):

Art. 5º - Consideram-se educandos com necessidades educacionais especiais os que durante o processo educacional apresentarem:

[...]

III – altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os levem a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes.

[...].

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que de 3 a 5% da população possuem altas habilidades (PÉREZ, 2013), já para o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa (IBGE) um por cento da população escolar são superdotadas, isto é, indivíduos que possuem um Quociente de Inteligência (QI) acima de 140, identificado através de teste tradicionais, hoje considerado um método desacreditado como um instrumento isolado de identificação, já que eles avaliam apenas as habilidades linguística e lógico-matemática da pessoa, deixando de lado as habilidades artísticas, psicomotoras, de liderança, entre outras, restringindo o potencial humano a um número (SIMONETTI, 2008). 

Em razão desta ponderação, calha citar o entendimento da especializada na área da superdotação Flheit (2007, p. 15):

Inúmeras características nos levam a identificação dos superdotados, mas, para que isso se efetive, é necessário que queiramos encontrá-los; sabermos quais qualidades buscar e nos despir dos preconceitos e mitos que existem pela falta de informação a respeito. De modo geral, é mais fácil apontar o que uma criança não faz, do que elogiar o que ela está realizando bem, mas devemos ponderar que superdotação não é algo que o indivíduo faz, mas algo que ele é. Podemos dizer que identificar superdotados é quase como tentar analisar uma sinfonia – somos cercados por um amplo espectro de qualidades e detalhes.   

Toda vez que paramos para pensar quem são os superdotados, a primeira imagem que nos vem em mente é a figura de um garoto franzino, de óculos com as lentes bem grossas, estudioso, um verdadeiro geniozinho pronto para realizar algo fantástico. Porém, este estereótipo nem sempre está relacionado a uma pessoa com altas habilidades e muitas vezes veremos superdotados que fogem totalmente destes parâmetros. Em geral eles são curiosos, criativos e possuem uma capacidade incomum de aprender e realizar as mais variadas tarefas, surpreendendo os pais desde a infância com um vocabulário rico e demonstrando uma capacidade de raciocínio muito superior as crianças de sua idade.

Uma das principais referências para se observar em um superdotado é sua precocidade em realizar determinadas tarefas com maior desenvoltura, superando crianças mais velhas ao aprender a falar ou ler ainda bem jovem.

Outra característica marcante é o seu esforço e dedicação para realizar tarefas que consigam prender sua atenção, não aceitando ser derrotado pela dificuldade ou complexidade, e geralmente não costumam aceitar respostas subjetivas ou evasivas do tipo “porque sim”.

Desta forma, as pessoas com altas habilidades/ superdotados apresentam envolvimento com a tarefa, ou seja, demonstram expressivo interesse, motivação e empenho pessoal nas atividades que realizam em diferentes áreas e também criatividade, isto é, comportamentos criativos que podem ser observados tanto no fazer como no pensar e que são expressados através de diferentes formas: gestual, plástica, teatral, matemática, musical, entre outras.

Em linhas gerais, a superdotação caracteriza-se pela alta potencialidade de aptidões, talentos e habilidades observadas em diversas áreas de conhecimento, porém torna-se necessário observar se existe um progresso constante no desenvolvimento desta ou destas habilidades (VIRGOLIM, 2007, p. 9).

São comuns os casos em que são observadas características claras de superdotação em crianças, mas por estarem em formação e encontrarem resistência em suas escolas, acabam sendo “travadas” em seu desenvolvimento, não conseguindo atingir a totalidade de sua capacidade, tornando-se muitas vezes adultos frustrados por saberem que possuem um grande potencial que não foi totalmente explorado.

Para que isso não ocorra, torna-se necessário questionar: O que seria um superdotado? Como identificá-lo? Quais as barreiras para identificá-los? Quais suas características? Estas são certamente questões que devem ser respondidas quando se pensa em assistir de maneira satisfatória crianças com indícios de altas habilidades.

Há certas características e traços de crianças bem-dotadas que são associadas à presença de comportamentos reconhecíveis, mas há também comportamentos específicos que representa manifestações e direções do potencial, dentro de contextos socioculturais diferenciados e que precisam ser atentamente observados para não serem distorcidos na interpretação do observador (GUENTER, 2000, p. 46).

A identificação deve ser feita com cuidado, pois assim como toda pessoa que possui necessidades especiais, as crianças com altas habilidades/ superdotados também devem ser assistidos de maneira adequada. No Brasil, o Ministério da Educação e Cultura (MEC), através da Secretaria de Educação Especial (SEESP), conceitua como superdotadas:

[...] as crianças que apresentam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual superior; aptidão acadêmica específica; pensamento criador ou produtivo; capacidade de liderança; talento especial para artes visuais, artes dramáticas e música; capacidade psicomotora (FLEITH, 2007, p. 16).

Devido às dificuldades e carências que a grande maioria das crianças brasileiras sofrem em todas as esferas, tanto educacionais como sociais, pode parecer pouco coerente atender de forma especial alguém que já nasce com certos privilégios naturais como as altas habilidades. Mas é preciso atentar para o fato de que o educador deve avaliar cada aluno e cuidar para que, na medida do possível, venha suprir suas necessidades com relação ao aprendizado.

O fato, porém, é que nem todos os alunos com altas habilidades/ superdotados apresentam as mesmas características e habilidades, nem todos tem o mesmo potencial e nem todos materializam plenamente seu potencial. Cada um tem um perfil próprio e uma trajetória singular de realização, mas todos necessitam de atendimento especial.  

2 A SITUAÇÃO ATUAL DAS PESSOAS COM ALTAS HABILIDADES/ SUPERDOTADOS NA EDUCAÇÃO

A legislação brasileira, de modo geral, e na área de educação para os superdotados, em particular, delega amplamente aos sistemas de educação, estaduais ou municipais, o estabelecimento de sua própria política e diretrizes para a ação, o que não tem sido muito benéfico para os alunos mais capazes.

Observa-se nos sistemas educacionais, de um modo geral que, quanto mais os conselhos e órgãos centrais se esforçam para clarear atitudes, obrigações e tarefas concretas em relação à educação especial, mas se observa a morosidade ou repasse de encargos em relação à criança superdotada.

O compromisso assumido com todas as crianças, o que inclui necessariamente os mais capazes, parece dissimulado com a alegação da prioridade de necessidades em favor da ideia de que as crianças deficientes ou com retardo têm primazia temporal em relação aos que possuem altas habilidades/ superdotados.

A argumentação de que o aluno mais capaz por si só poderia chegar a um nível mais elevado ou o mito de que pode se educar sozinho não possui base social, científica ou moral, porém essa posição secundária é mantida.

Na realidade, é quase total a ausência dos sistemas públicos no que diz respeito à atenção educacional aos alunos mais capazes e talentosos, a não ser por programas esparsos, e pequenas iniciativas no contexto de secretários de educação, ou de universidades públicas.

O tema superdotação no Brasil ainda é pouco discutido, fato que perpetua a ausência de iniciativas direcionadas a essa área, porém uma postura de reversão dessa realidade é o desenvolver de uma prática mais consistente e significativa, que permita a geração de estudos e produção de conhecimento.

Há um vasto corpo de conhecimento na área, mas a ação começa com um estudo sério e amplo da própria situação local: quem são as crianças, como são as escolas que as atende, o que constitui os anseios, estilos de vida, interesses, vocação e recursos da comunidade. A partir do estudo e configuração desses dados, fazer crescer um programa que leve a criança a desenvolver os seus talentos em sintonia e enraizada na vida real, acontecendo (GUENTHER, 2000, p. 41).

No ambiente escolar se encontra um espaço rico para o desabrochar do pensamento criativo, entretanto a realidade atual está longe de favorecer essa habilidade. A organização da sala, o aproveitamento do tempo e a dinâmica utilizada na mediação do conhecimento estimulam o conformismo, a passividade, a imitação e a repetição de modelos. Essa prática compõe um entrave ao ato criador. Piletti (2002, p. 110) enfatiza: “Na escola de primeiro grau os obstáculos à criatividade, são a disciplina e a ordem exageradas, em prejuízos da iniciativa individual e da espontaneidade”.

A novidade é a característica principal da criatividade. Seu valor está relacionado ao acréscimo cultural científico ou artístico da comunidade. Piletti (2002) ressalta que em grande parte a novidade criadora parte de um conhecimento já existente. Alega ainda que a incerteza do desconhecido promova reações negativas, pois a maioria das pessoas prefere a segurança daqueles que já conhecem.

O processo criativo considera alternativas de pensamento que ainda não foram concebidas. Pode ser influenciado por vários aspectos cognitivos, ambientais, de personalidade, de contextos culturais e históricos.

Todas as pessoas são criativas, apresentando em maior ou em menor grau a capacidade de criar. Lamentavelmente, a educação recebida na escola é responsável pelo fato de que muitos se sintam incapazes para criar. O motivo, os meios e as oportunidades são elementos dos quais depende a realização do potencial criativo. Pontos importantes caracterizam a ação criativa: o caráter exploratório, a busca pelo desconhecido, o risco, a incerteza.

A escola através de uma postura pedagógica criativa pode estimular o educando a desenvolver o seu potencial inovador promovendo atividades que privilegiam a originalidade, a apreciação do novo, a inventividade, a curiosidade, a pesquisa e a percepção sensorial.

Essa postura se efetiva quando é proporcionada ao aluno a realização de atividades que lhes dão prazer, valorizam ideias originais em um ambiente estimulador. A diversificação das metodologias utilizadas na sala de aula e a exposição dos alunos a tarefas que requeiram o uso do pensamento criativo, habilidades de análise, síntese e avaliação, são fatores contribuintes para o desenvolvimento do potencial criador.

As políticas de atendimento educacional para estes alunos, bem como as práticas para a sua inclusão exigem uma abordagem e grande motivação de toda comunidade escolar. Por este motivo o êxito de uma proposta de atendimento educacional para os alunos com altas habilidades, considerando uma proposta inclusiva, depende fundamentalmente da construção de um novo modelo de pensamento e ação em uma sociedade onde a diversidade é claramente observada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Reconhecer, identificar e encaminhar uma criança com capacidade elevada, não é tarefa simples. Requer habilitação teórica, interesse e empenho de todos os envolvidos que trabalham com educação. Mas, fundamentalmente, o professor em sala de aula é o agente ativo do desenvolvimento do aluno, através do qual o sucesso ou o fracasso nessa prática educativa e assistencial serão efetivados.

Para que seu trabalho obtenha êxito, se faz necessário que o educador se aproxime o melhor possível de seu grupo de alunos, tornando-se parceiros na caminhada em busca do conhecimento. Que neste processo de ensino-aprendizagem, seja o professor em sala de aula um facilitador deste movimento, não um mero transmissor de conhecimentos como já foi em outras épocas.

Precisamos conceder aos educandos, oportunidades reais que sejam altamente estimulantes para o desejo do “saber” e a criação de novos saberes.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001. Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.

CONBRASD. Conselho Brasileiro para Superdotação. Um pouco sobre superdotação. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.

FLEITH, Denise de Souza. A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação: orientação a professores. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.

GUENTHER, Zenita Cunha. Desenvolver capacidades e talentos: um conceito de inclusão. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2000.

PÉREZ, Susana Graciela Pérez Barrera. Mitos crenças sobre as pessoas com altas habilidades: Alguns aspectos que dificultam o seu atendimento. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.

PILETTI, Nelson. Psicologia educacional. São Paulo: Ed. Ática, 2002.

SIMONETTI, Dora Cortat. Superdotação: Estudo comparativo da avaliação dos processos cognitivos através de testes psicológicos e indicadores neurofisiológicos. 2008. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.

VIRGOLIM, Angela M. R. Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007. Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2016.


Por Danielle Binda Coutinho - Mestrando em Ciências da Educação.

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