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A importância da afetividade para uma aprendizagem significativa

Educação

Clique e saiba qual é a importância da afetividade para uma aprendizagem significativa.

RESUMO

Este trabalho analisa a importância da afetividade para a aprendizagem de crianças e jovens, reflete sobre o papel da família e da Escola nesse processo e faz uma leitura aprofundada das teorias e discussões acerca da afetividade, a partir dos estudos de Henry Wallon, Jean Piaget, Vygotsky e outros defensores da mesma ideia. A primeira parte analisa a Afetividade como indispensável ao desenvolvimento humano e como ela se expressa na vida do indivíduo. Na segunda parte a Afetividade é estudada como elemento intrínseco da aprendizagem e na formação do sujeito global. É ressaltada a importância das interações sociais, assim como o conhecimento da Teoria dos Estágios de Wallon para melhor compreensão do processo. A terceira parte reflete sobre o papel da família e da Escola na construção do ambiente adequado à aprendizagem significativa e prazerosa e como esse processo se torna mais eficiente se mediado pela Afetividade. Por fim é feita uma análise do quanto a Afetividade contribui para minimizar os problemas corriqueiros dessa relação tão complexa, com consequente melhoria do processo ensino-aprendizagem.

Palavras-chave: Afetividade. Aprendizagem. Família. Escola.

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho de investigação bibliográfica reflete sobre a importância da Afetividade para a aprendizagem, numa visão particularmente psicopedagógica, ou seja, o enfoque é no sujeito e sua interação com os outros e com o ambiente em que vive, e como essa interação (ou falta dela) influi positiva ou negativamente sobre sua aprendizagem global (não só escolar).

Atualmente, mais do que nunca, tem-se falado muito sobre as causas e conseqüências nefastas da indisciplina, do pouco ou nenhum rendimento que conduz à evasão de crianças e jovens, de todas as classes, localidades, de tipos de escola (pública/privada), quase sempre com ênfase na figura do aluno e da família, minimizando o papel do professor, da escola e de outros elementos, também protagonistas e responsáveis por esses problemas.

Apesar dos inúmeros trabalhos já realizados sobre o tema, das discussões nos mais variados fóruns, ainda cabe reflexões como esta, que visem trazer luz, orientação e apoio a todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem, melhorando e enriquecendo esta atividade tão indispensável ao desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos.

Este estudo procura analisar a importância da Afetividade como incentivadora da aprendizagem, à luz dos estudos psicopedagógicos, refletir sobre o papel da família e da escola no processo de aprendizagem de crianças e jovens, e aprofundar algumas discussões acerca da Afetividade a partir das teorias de Henry Wallon, Jean Piaget e Vygotsky, com contribuições de outros autores que partilham as mesmas ideias.

2 AFETIVIDADE: reflexões

A Afetividade, ao contrário do que pensa o senso comum, não é simplesmente o mesmo que amor, carinho, dizer sempre SIM, ou seja, sentimento apenas positivo, mas, segundo Wallon.

O termo se refere à capacidade do ser humano de ser afetado positiva ou negativamente tanto por sensações internas como externas. A Afetividade é um dos conjuntos funcionais da pessoa e atua, juntamente com a cognição e o ato motor, no processo de desenvolvimento e construção do conhecimento. (in SALLA, 2011 pag.1).

Apesar de Piaget e Vygotsky terem, em seus estudos, dado importância ao papel da Afetividade no processo de aprendizagem, foi Wallon que trabalhou mais profundamente esta questão, colocando que a vida psíquica evolui a partir de três dimensões: motora, afetiva e psíquica, que coexistem, atuam e se desenvolvem de forma integrada e, mesmo que em determinado momento uma dimensão pareça dominar, essa dominância se alterna e as conquistas ocorridas em uma são incorporadas às outras.

Ao longo do trajeto elas alternam preponderâncias, e a afetividade reflui para dar espaço à intensa atividade cognitiva, assim que a maturação põe em ação o equipamento sensório-motor necessário à exploração da realidade. (DANTAS, 1992 pag.90)

Para Wallon, “a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento”. Para ele, a emoção, uma das dimensões da Afetividade, é instrumento de sobrevivência inerente ao homem, é “fundamentalmente social” e “constitui também uma conduta com profundas raízes na vida orgânica”. (DANTAS 1992 pag.85)

Para Piaget a Afetividade é uma energia impulsionadora das ações do sujeito, o que Wallon complementa dizendo: “a afetividade é um componente permanente da ação”. (in SILVA, 2014 pag. 1).

Segundo Wallon, o desenvolvimento humano acontece em cinco estágios, nos quais são expressas as características de cada espécie e revelam todos os elementos que constituem a pessoa:

- impulsivo-emocional (de 0 a 1 ano): onde o sujeito revela sua afetividade por meio de movimentos, do toque, numa comunicação não-verbal;

- sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos): a criança já fala e anda, tendo o seu interesse voltado para os objetos, para o exterior, para a exploração do meio;

- personalismo (3 a 6 anos): fase da diferenciação, da formação do “eu”, da descoberta de ser diferente do “outro”;

- categorial (6 a 10 anos): organização do mundo em categorias leva a um melhor entendimento das diferenças entre o “eu” e o “outro”;

- puberdade, adolescência (11 anos em diante): acontece uma nova crise de oposição, ou seja, o conflito eu-outro retorna, desta vez como busca de uma identidade autônoma, o que possibilita maior clareza de limites, de autonomia e de dependência. É nessa fase que o indivíduo se reconhece como Ser único, com personalidade, com valores, com sentimentos. (in MAHONEY & ALMEIDA, 2005 p.22)

Em todos os estágios do desenvolvimento humano, segundo a teoria de Wallon, a Afetividade está presente em maior ou menor grau, haja vista a interação indispensável a esse processo, para a formação desse indivíduo como ser social, cultural e inserido, de fato, no meio em que vive.

Wallon destaca em seus estudos, que a Afetividade se expressa de três maneiras: 1. Emoção: exteriorização da afetividade, aparece desde o início da vida do ser humano e é expressa com movimentos de espasmos e contrações, liberando sensações de mal-estar ou bem-estar. Nessa teoria, a emoção é vista como indispensável à sobrevivência do ser, e, pela sua contagiosidade “ela fornece o primeiro e mais forte vínculo entre os indivíduos e supre a insuficiência da articulação cognitiva nos primórdios da história do ser e da espécie”. (DANTAS, 1992 pag.85). 2. Sentimento: expressa a afetividade sem arrebatamento, com controle, pela mímica e também pela linguagem, o que o diferencia da emoção. Tem caráter cognitivo. 3. Paixão: está presente a partir da fase do personalismo e se caracteriza pelo autocontrole no domínio de uma situação, exteriorizando-se através de ciúmes e exigência de exclusividade, entre outros. (MAHONEY & ALMEIDA, 2004 pag.21)

A afetividade, portanto, assim como o ato motor e a cognição, está presente durante toda a vida do sujeito devendo, pois, ser levada em conta em todo estudo sobre o desenvolvimento do ser humano, tanto no plano individual, como no social, cultural, cognitivo. Nesse contexto há que se valorizar a mediação social que, segundo Wallon (in Dantas 1991, pag.92) “está na base do desenvolvimento: ela é a característica de um ser “geneticamente social” radicalmente dependente dos outros seres para subsistir e se construir enquanto ser da mesma espécie”.

3 AFETIVIDADE E UMA APRENDIZAGEM PARA A VIDA

O educador francês Henry Wallon, ao estudar o desenvolvimento humano, não colocou a inteligência como o elemento mais importante desse processo, mas a atuação integrada de três dimensões psíquicas: a motora, a afetiva e a cognitiva, sendo que a evolução ocorre quando há uma integração entre o equipamento orgânico da pessoa e o meio em que ela vive, responsável por permitir/auxiliar o desenvolvimento das potencialidades próprias de cada um. (SALLA, 2011).

A Teoria da Afetividade de Wallon veio questionar o ensino tradicional com seu autoritarismo, falta de criatividade, forte característica abstrata, exigindo um aluno passivo, sem personalidade, e sem levar em conta o caráter afetivo, social e político da educação, pois, a Escola, como um fato social, deve: “refletir a realidade concreta na qual esse sujeito vive, atua e, muitas vezes, procura modificar”. (LAKOMY, 2003 p.60).

E isso requer uma educação voltada para o desenvolvimento afetivo, social e intelectual de forma integrada, formando, assim “indivíduos autônomos, pensantes, ativos, capazes de participar da construção de uma sociedade contextualizada”. (LAKOMY, 2003 p.60).

Esse é um direito inalienável de toda criança, pois, segundo Wallon:

Todas as crianças, sejam quais forem suas origens familiares, sociais, étnicas, tem direito igual ao desenvolvimento máximo que sua personalidade comporta. Elas não devem ter outra limitação além de suas aptidões (IN LAKOMY p. 60)

Tanto na Teoria de Piaget – Construtivismo, no Sócio-interacionismo de Vygotsky como na Teoria de Wallon, as interações – com objetos, com pessoas, com o meio -, são imprescindíveis para o desenvolvimento do ser humano.

Para Piaget, “a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais que são, em geral, demasiadamente negligenciadas” (LA TAILLE, 1992 p.11).

Para Vygotsky, “a história da sociedade e o desenvolvimento humano caminham juntos’, sendo o conhecimento internalizado e transformado pela criança através da sua interação ou trocas sociais com as pessoas que a rodeiam. (LAKOMY, 2003 p.38).

Para esses autores, assim como para Wallon, a Afetividade é elemento intrínseco do processo de desenvolvimento, mais especificamente da aprendizagem, o que acontece não só na escola, mas na família, na rua, nos momentos de diversão.

O ser humano, como visto, é movido pela afetividade, tanto na sua forma positiva quanto na negativa, ou seja, um elogio lhe afeta positivamente, enquanto uma reprimenda ou crítica lhe afeta negativamente, sendo que, nos dois casos, a Afetividade opera como elemento de desenvolvimento no sentido de criar mecanismos de compreensão, aceitação, defesa ou administração das sensações desencadeadas.

Ao se falar em aprendizagem, deve-se ter em mente o processo ensino-aprendizagem, já que uma não acontece sem o outro e isso é a forma mais concreta do que se nomeia “interação social”, ou seja, não existe ensino-aprendizagem sem as interações, sem as trocas, sem o convívio, o que pode ser melhor vivenciado, intermediado, levado a cabo pela via da afetividade e a compreensão das suas implicações no processo.

Wallon, na sua Teoria dos Estágios, explica que no estágio impulsivo-emocional:

O recurso da aprendizagem é a fusão com os outros. O processo ensino-aprendizagem exige respostas corporais, contatos epidérmicos, daí a importância de se ligar ao seu cuidador, que segure, carregue, embale. Através dessa fusão, a criança participa intensamente do ambiente e, apesar de percepções, sensações nebulosas, pouco claras, vai se familiarizando e apreendendo esse mundo, portanto, iniciando um processo de diferenciação”. (MAHONEY & ALMEIDA, 2005 p.22).

No segundo estágio – sensório-motor e projetivo – deve haver, por parte da família, a disposição de oferecer situações e espaços diversos a fim de que as crianças participem de forma igual, assim como a atenção para lhes responder sobre o mundo exterior, facilitando-lhes a diferenciação entre elas e os objetos.

No terceiro estágio – personalismo – é necessário que o processo ensino-aprendizagem ofereça à criança diferentes atividades, assim como a possibilidade dela escolher atividades que lhe sejam mais agradáveis. É importante das as respostas certas, assim como reconhecer e respeitar as diferenças que certamente irão aparecer. Nesse estágio o professor, se for o caso, deve mostrar que a criança é conhecida e reconhecida, viabilizando momentos de convivência com outras crianças de idades diferentes, com oportunidades para que elas se expressem.

No estágio categorial, início de fato do período escolar, a aprendizagem ocorre especialmente pela descoberta de diferenças e semelhanças entre objetos, imagens, ideias, com predomínio da razão, expressada em representações claras e precisas. É importante entender que todo novo conhecimento traz um período de imperícia que, com o tempo, se desmancha com as atividades propostas e se transforma em competência através da aprendizagem.

No último estágio – puberdade e adolescência – o recurso principal da aprendizagem do ponto de vista afetivo é a oposição que aprofunda e possibilita a identificação das diferenças entre ideias, sentimentos, valores próprios e do outro. Deve-se também permitir a expressão e discussão dessas diferenças de forma que resulte em relações solidárias. Em todas as fases desse processo é importante a colocação de limites, que facilitarão a vivência, garantindo o bem-estar de todos.

Para Wallon (in Mahoney & Almeida, 2004 p.25), os princípios reguladores dos recursos da aprendizagem são os mesmos para crianças e adultos, com diferenciação no tempo e na abertura.

O professor também é afetado pelo meio, pelas interações – pela emoção, sentimento e paixão -, mas, como adulto, tem maiores recursos para reagir de forma equilibrada, controlada, para assim colaborar na solução dos conflitos, entendendo que a qualidade da relação, consequentemente da aprendizagem, é avaliada pela forma como foram resolvidos os conflitos.

Há que se entender que uma dificuldade de aprendizagem se constitui, também, de uma dificuldade de ensino, não cabendo, aí, culpados ou inocentes, pois todos têm igual responsabilidade no sucesso/fracasso do processo. “Quando não são satisfeitas as necessidades afetivas, estas resultam em barreiras para o processo ensino-aprendizagem e, portanto, para o desenvolvimento, tanto do aluno como do professor” (MAHONEY & ALMEIDA, 2004 p.26)

Com a crescente desvalorização do trabalho docente, do professor como profissional, da Escola como instituição de formação – não só de instrução -, a educação está em crise de identidade, de objetivos, de comprometimento. O professor não alfabetiza porque “isso é dever da família”; não revê conteúdos indispensáveis à aprendizagem de outros, porque “isso era obrigação do professor da série anterior”; não reprova “porque o sistema manda aprovar”; ou reprova em massa porque “comigo é dureza”. Com as salas de aula muito cheias, o professor “não tem condição de dar uma atenção individualizada”; se tem pouco aluno, o professor “não tem condição de preparar aulas mais interessantes e motivadoras por causa da sua carga horária muito grande e estressante”; enfim, o atendimento das necessidades dos alunos, especialmente a afetividade, é completamente esquecida, desprezada.

Outro elemento importante no processo ensino-aprendizagem, na atualidade, é o uso maciço da informática pelos alunos, o que pode ser positivo se o professor acompanha as mudanças e utiliza as novas ferramentas que estão disponibilizadas na sociedade e também na escola; pode ser negativo se o professor não acompanha, “não gosta e não tem tempo” de interagir com as mudanças e ainda se coloca “contra” as novidades trazidas pelas TICs.

Há que se destacar a diferença entre “educador” e “professor”, pois, segundo Muniz (Revista ABPp), professor é profissão e como tal, há aos milhares, enquanto educador é vocação. “E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança. ”(ALVES,1986 citado por MUNIZ s/d).

É urgente, portanto, a conscientização por parte do educador, da importância, sua como pessoa e da sua metodologia, da sua forma de trabalhar e da sua postura, da sua visão de aluno e de professor, para a formação do sujeito global, completo, com o atendimento das suas demandas cognitivas mas também afetivas, para que, na realidade, possa formar não só profissionais, mas cidadãos, pois serão estes que, de fato, construirão uma sociedade igualitária, justa e solidária.

3.1 – A AFETIVIDADE NA FAMÍLIA

Como foi posto por Wallon, a criança é um ser “geneticamente social”, isto é, depende dos outros, das interações para sobreviver, para se desenvolver. E isto é corroborado por Piaget (inLa Taille, 1992 p.11) que diz:

Se tomarmos a noção do social nos diferentes sentidos do termo, isto é, englobando tanto as tendências hereditárias que nos levam à vida em comum e à imitação, como as relações “exteriores” (no sentido de Durkheim) dos indivíduos entre eles, não se pode negar que, desde o nascimento, o desenvolvimento intelectual é, simultaneamente, obra da sociedade e do indivíduo.

Por conseguinte, fica clara a importância da família, e também da escola como instituição formadora, para o desenvolvimento global desse ser.

Desde o seu nascimento a criança inicia o seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, mediado pela família, seu primeiro núcleo de interação. Sabe-se, no entanto, que a família é, hoje, uma instituição em crise, onde os filhos já não são a sua “razão de ser”, ou seja, na grande maioria dos casos, o filho é uma obrigação, muito mais de financeira, material, do que afetiva. E isso tem prejudicado sobremaneira, a vida de muitas crianças e jovens, que não conviveram com o afeto em suas representações mais positivas, como o amor, o carinho, o conselho, a reprimenda amorosa, a escuta atenciosa, o Sim e o Não explicados, enfim, atitudes que fazem toda a diferença na construção do sujeito que irá influir positivamente na sociedade.

São essas atitudes que dirigidas à criança, a fazem aprender a se ver e ao mundo, de forma mais positiva e isso facilita tanto o aprendizado quanto os relacionamentos, dando-lhe mais segurança “para que não desenvolva receio de errar enquanto aprende, enfrentando os desafios que surgem de forma mais confiante e aprendendo também a se relacionar num sentido mais amplo. (NUNES 2009 pag.18).

Para Souza (in Silva 2011 p.4), a família é a base para o desenvolvimento de um indivíduo, pois que as primeiras interações se dão no meio familiar, ou seja, o primeiro contato da criança com o mundo começa dentro de casa mediado pelos familiares presentes neste lar, e por isso o papel mais importante para articular este processo na fase inicial de vida da criança, é construído conforme o relacionamento e o convívio que ela tem, sendo este aprendizado levado para as relações a serem construídas fora do espaço físico habitual, para o mundo externo.

Daí que a família deve aproveitar ao máximo, esse tempo e as oportunidades próprias do dia-a-dia no lar, para orientar seu filho sobre tudo e qualquer coisa, respondendo aos questionamentos, tirando dúvidas, aconselhando. Importa muito mais a atenção e importância dadas, do que o ensinamento propriamente dito, haja visto que muitos pais não tem o conhecimento adequado sobre muito do que as crianças querem saber.

Portanto, essa atenção da família tem um peso enorme na formação daquela criança, pois, conforme Nunes (2009 p.19):

A criança que cresce acreditando que é uma pessoa merecedora de valor tem sua capacidade produtiva e criativa estimulada, adapta-se com mais desembaraço a novas situações, tende a ser mais coerente e ponderada em suas escolhas, é mais aberta e receptiva ao diálogo e acata os limites com mais condescendência. ”

 Vale frisar que colocar limites, cobrar acordos feitos, recriminar o errado, também são formas de demonstrar afeto e ajudam na formação do sujeito responsável, ético, solidário, cidadão.

3.2 – A AFETIVIDADE NA ESCOLA

 Ao chegar à Escola, a criança já traz um arsenal de vivências e experiências – positivas e negativas -, que não podem ser negligenciadas pelo professor e demais agentes da instituição. E não se pode simplesmente dizer que “não sou responsável pelo que aconteceu antes de mim”, porque o “antes” tem influência no “depois” e o professor terá tudo a ver com isso.

O professor não é mais apenas o responsável por “ensinar” conteúdos, mas o responsável por ajudar o aluno a aprender e isso muda todo o processo, pois se não há aprendizagem, o fracasso é do aluno e do professor. E esse fracasso nem sempre estará relacionado à incompetência do professor, ausência ou deficiência de metodologias e recursos, ou à falta de atenção, indisciplina, “problemas” do aluno. Há um aspecto pouco percebido ou levado em conta por todos, e que pode ser o elemento que está faltando nesse processo e que é determinante para que ocorra a aprendizagem que se quer, e se consiga o sucesso que se busca: a Afetividade.

É sabido que a pobreza afetiva prejudica o sujeito, principalmente o jovem que, até por conta da impulsividade própria da idade, tende a arriscar-se de forma temerária já que lhe faltam boas e construtivas referências. Ao contrário, se ele conta com referências positivas “e com orientação, ele desenvolve o poder de filtrar as informações que lhe chegam, a partir da tomada de consciência de como agem as pessoas de bom caráter” (NUNES, 2009 p.123).

O professor, antes de “diagnosticar” o aluno como deficiente ou “com problemas”, deve buscar conhecê-lo melhor, por inteiro, para entendê-lo e assim ajudá-lo, numa troca significativa que conduz à aprendizagem de fato, e não só do aluno mas também do professor, que atualmente deve se ver “como mediador, facilitador. Para que haja um excelente aprendizado é necessário que o aluno não seja forçado a fazer nada, mas que aja por si só, por seus próprios esforços, pois na relação precisa existir respeito mútuo” (SANTOS, 2012 p.117)

Segundo a Professora Telma Vinha, numa entrevista para a Revista Nova Escola (2013 pag.20) os papéis da família e da escola com relação à educação das crianças, estão muito misturados e da mesma forma que a família espera que a escola resolva o “problema”, a escola pede que os pais disciplinem seus filhos. Daí que uma culpa a outra, o que não resolve a questão, já que é justamente essa criança que mais precisa de atenção, no caso, da escola.

Para Wallon (in Mahoney & Almeida, 2004) é importante o professor saber sobre afetividade, pois que a emoção (um dos seus aspectos mais importantes) é contagiosa, daí que o comportamento do aluno influencia a dinâmica da sala de aula e a postura do professor e este deve estar preparado para colaborar na solução dos conflitos, lembrando que estes são parte importante do processo ensino-aprendizagem. A forma como o professor se coloca frente aos conflitos e como estes são resolvidos, reflete nas relações do aluno com o conhecimento e com os outros.

Conforme destaca Nunes (2009 p.85):

A autoridade e postura firme do educador abrem caminho para os acordos e ajustes porque fazem com que o aluno perceba que o educador é quem conduz, orienta, media e auxilia a turma, mas não o faz em regime de opressão. Crianças sentem o que isso significa e, na grande maioria das vezes, respondem positivamente a esta dinâmica. O educador que assim atua irradia segurança à criança, estimulando nela a criatividade, o poder de expressão, de demonstração de sentimentos, e colocando os limites necessários para o desempenho de todos, fazendo isso sempre baseado no bom senso.

A atuação do professor está intimamente ligada à sua formação inicial (graduação) e à formação continuada (extensão, especialização etc.) indispensáveis à sua capacitação para agir o mais adequadamente possível a fim de realizar um trabalho eficiente e prazeroso.

Todo trabalho, que se queira de qualidade, é mais custoso mas nem por isso mais difícil e Nunes alerta que um educador consciente busca a melhor maneira de levar seu aluno ao conhecimento, sendo não somente mestre, mas também, guia, amigo, parceiro, conselheiro e motivador. Agindo assim, ele fará com que “os horizontes se abram cada vez mais, tornando a educação uma fonte de possibilidades onde se pode beber sem limites”. (NUNES, 2009 p.21).

O entendimento da íntima relação existente entre emoção e cognição, afetividade e aprendizagem, é indispensável para o alcance de uma aprendizagem significativa, que perpassa os muros da escola e os boletins de notas, pois, segundo Wallon:

A escola comete erros porque desconhece as várias fases do desenvolvimento da mente humana; erra também por não conhecer conteúdos culturais que possam contextualizar concretamente os alunos e persevera no erro ainda mais, por desconhecer as histórias de vida de cada um. (In MAHONEY &ALMEIDA, 2004 p.24).

Portanto, a Afetividade deve ser considerada altamente relevante, “uma vez que a tendência intelectualista, generalizada na escola na atualidade, parece ignorar os determinantes afetivos e emotivos do pensamento e da conduta do aluno” (MAHONEY & ALMEIDA, 2004 p.24).

Para Briggs (in Bezerra 2006, p.7) “ajudar as crianças a desenvolver sua autoestima é a chave de uma aprendizagem bem sucedida”, que é o que todo professor deseja ou deveria desejar, sob pena de ele próprio não se orgulhar e nem se sentir feliz com o trabalho que realiza. O que também é uma questão de afetividade.

E Nunes complementa:

O papel da afetividade na educação não deve ser o de mero coadjuvante, mas sim o de ocupar o centro do palco junto aos conteúdos e métodos pedagógicos que fazem parte do currículo escolar formal, que por si só já contribuem inestimavelmente para o crescimento de crianças e jovens. (2009 p.123).

Sendo assim, há que se inserir definitivamente a afetividade como elemento integrador do processo de ensino-aprendizagem, de forma a contribuir decisivamente para o sucesso do processo como conseqüência da melhoria das relações em sala de aula.

3.3 METODOLOGIA

Para a realização deste trabalho foi feita uma intensa revisão bibliográfica, com ênfase nas teorias de Henry Wallon mas também buscando contribuições das teorias de Piaget e Vygotsky sobre o desenvolvimento humano e aprendizagem, buscando aprofundar o entendimento do que seja Afetividade e sua importância para o processo de aprendizagem e desenvolvimento do indivíduo.

A pesquisa se deu com leitura e fichamento de livros, na sua maioria virtuais, diversos trabalhos – artigos, monografias – capturados na internet, e revistas acadêmicas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho buscou-se refletir sobre o quanto o entendimento do que seja Afetividade e sua vivência na família e na escola pode influenciar na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo do sujeito.

Desde o início da vida do ser humano, a afetividade ocupa um lugar extremamente importante, sendo responsável, inicialmente, por utilizar outros para a satisfação das suas necessidades (como bebê); mais tarde, através das interações com objetos, o meio, a família, na construção do Eu e na diferenciação do Outro; mais à frente, na escola, na sociedade, influenciando na aprendizagem, no desenvolvimento da inteligência, o que não anula a afetividade mas a torna mais racional, mais equilibrada.

De sorte que não se concebe o desenvolvimento do indivíduo, da sua intelectualidade, sem pensar na afetividade que é, como foi visto, a energia, o motor de impulsão, que leva o sujeito para a frente e que o faz mais humano.

O indivíduo, como Ser social que é, necessita das interações para aprender, para se desenvolver; necessita dar e receber numa troca enriquecedora e que acontece desde o início da vida, na família, depois na escola, no trabalho, na vida social. A vivência da afetividade, portanto, tem vital importância no desenvolvimento do ser humano como um todo.

Tal entendimento, por parte da família e da escola, é vital para que problemas como indisciplina, desatenção, deficiência ou ausência de aprendizagem, tão comuns hoje em dia, possam ser evitados, minimizados ou mais adequadamente tratados.

REFERÊNCIAS

BEZERRA, Ricardo José Lima. Afetividade como condição para a aprendizagem: Henry Wallon e o desenvolvimento cognitivo da criança a partir da emoção. Revista Didática Sistêmica. UFRS, 2006.

DANTAS, Heloysa. A afetividade e a construção do sujeito na psicogenética de Wallon. In LA TAILLE, Yves de. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira, Heloysa Dantas. São Paulo: Summus, 1992.

LAKOMY, Ana Maria. Teorias Cognitivas da Aprendizagem. Curitiba: FACINTER, 2003.

LA TAILLE, Yves de. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira, Heloysa Dantas. São Paulo: Summus, 1992.

MAHONEY, Abigail Alvarenga & ALMEIDA, Laurinda Ramalho de. Afetividade e processo ensino-aprendizagem: contribuições de Henri Wallon. Revista da Psicologia da Educação, nº 20 – 2005. Acessado em 16.02.2014.

MUNIZ, Caroline Saback. A influência da relação afetiva no processo de escolarização. www.abpp.com.br/54.htm

NUNES, Vera. O papel das emoções na Educação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.

SALLA, Fernanda.  O Conceito de afetividade de Henry Wallon. novaescola@fvc.org.br. Outubro 2011. novaescola@fvc.org.br

SANTOS, Felisnaide Martins dos. A importância da afetividade no processo de ensino e aprendizagem como mediadora da práxis educativa no Ensino Superior.2012 www.unisulma.edu.br. Acessado em 16.02.2014.

SILVA, Ana Lúcia dos Santos Dino da. Afetividade na Educação Infantil. novaescola@fvc.org.br. Acessado em  07.02.2014.


BARBOSA, Iraci Pereira - Bacharel em Administração de Empresas pela FACAPE – Petrolina-PE e Licenciada em Letras pela UFPB – PB ; Especializanda em Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo Centro Universitário Internacional UNINTER.

SALGADO, Rita de Cássia Falleiro - Mestre em Educação—UTP-PR, doutoranda em Educação-UTP-PR; Graduada em Psicologia Clínica e Institucional- PUC-PR; Especialista em Bioenergética, Especialista em Sexualidade Humana e Especialista em Medicina Tradicional Chinesa; Professora Orientadora de Psicopedagogia Clínica e Institucional e área Educacional-Grupo UNINTER.


Publicado por: IRACI PEREIRA BARBOSA

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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