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Lobolo

Curiosidades

Sociedade tradicional africana, cerimônia tradicional praticada em quase toda a região sul do Saara...
Não sei se é o meu lugar, mas tenho essa vontade de mostrar ao mundo factos curiosos da Sociedade Tradicional Africana, começando pelo Lobolo. Esta é uma cerimónia tradicional africana praticada em quase toda região sul do saara. Aqui em Moçambique, onde existem três regiões culturais diferentes: Norte do Zambeze; Sul do Save os dois rios. Cada uma dessas regiões, o lobolo é feito de maneira diferente, e na região norte, quase não existe esta pratica, apesar de haver outros rituais que a substituem.
Em qualquer situação, o lobolo tem entre outras as seguintes funções: Unir os antepassados das duas famílias (a da noiva com a do noivo); rezar aos antepassados que dêem sorte ao novo lar e sobretudo a fertilidade da noiva; Garantir protecção da mulher na família do seu marido, passando a pertencê-la mesmo depois da morte do seu marido; Garantir o direito a noiva de continuar na casa do marido a cuidar de seus filhos, caso este morra, bem como continuar a ter filhos com irmão do marido. O mesmo permite com se a esposa morrer ainda jovem (sobretudo se deixar filhos menores), a família dela ofereça ao seu genro uma menina para cuidar de seus sobrinhos que serão agora seus filhos e ela passará a ocupar o lugar da sua falecida irmã no lar.
 
Estou na região sul do rio Save, concretamente em Inhambane e faço parte de uma cultura de falantes da Língua Gitonga (pronúncia é guitonga). Gostaria de partilhar convosco como é feito lobolo que com o tempo tem vindo a ser diferente de família em família e de tribo em tribo. Entendam por favor que para meu povo (aquele no qual faço parte, não porque eu tenha domínio sobre ele), a família é alargada. Envolve tios, primos, avos (paternos e maternos e ai por diante. Neste contexto, apesar das influências trazidas de culturas estrangeiras que são assimiladas rapidamente por camadas jovens, na hora de tratar assuntos da família, os hábitos aparecem e cada um procura recordar pormenor por pormenor da nossa cultura tradicional.
 
O noivo apresenta se ou a menina apresenta seu noivo (seu namorado – com intermediários) e este mais tarde manifesta mesmo o desejo de viver com ela e pede as condições para formalizar a sua situação marital, a família, a qual remete lhe a três casamentos (notem bem que em Moçambique um jovem honesto passa por três casamentos: Tradicional ou lobolo; civil e religioso). Todavia, o Lobolo é imprescindível, razão pela qual o governo reconhece como legitimas as famílias constituídas neste casamento, desde que as estruturas comunitárias de base assistam e enviem relatório á administração local, esta por sua vez manda assentar no registo civil que três meses depois os noivos podem ir assinar o registo do seu casamento, desde que autorizados pelos seus pais.
 
Estando o genro disposto a lobolar a menina, trata de organizar todas dádivas que consistem em vestuários para Pai da Noiva, sua mãe, Suas tias materna e paterna, seus avos maternos e paternos, cinco litros de vinho, tabaco, algumas bebidas tradicionais e um valor de 1000 Meticais (este valor é decidido de família em família, podendo ser muito mais elevado. Há famílias que, com a pobreza e economia do mercado, querem ser compensadas as despesas feitas para o crescimento, saúde e educação da menina, já que uma vez formada, vai trabalhar e render para a família do seu marido).
 
O momento culminante é a recepção dos hóspedes (família do noivo) que vêm carregados de bens em tons de cantos na língua local, conhecida também pelos defuntos. A família da noiva que está já reunida, levanta-se e com seus cantos acolhe a família que chega e acomoda o genro na palhota onde se encontra a sua noiva, enquanto se prepara o ritual entre os compadres (pais ou tios da noiva com os do noivo). Tudo pronto, eles saem para as apresentações dos bens recomendados e outros que o genro tiver considerado trazer. Neste momento, as novas tias, cunhadas e outros vão recuzando se a concordar com os presentes e ameaçam a não saída da sua irmã da casa so com aquelas coisas, o que obriga o noivo a aumentar o preço até que elas concordem com kulunguana. Chegado neste momento, a noiva enrola o dinheiro e os bens do pai e segura junto com o seu noivo. De joelhos deslocam se até ao local onde esta sentado o pai e oferecem lhe. O pai, com toda autoridade e rudeza que é muito necessária num homem africano, ameaça aos dois a não aceitar os bens com medo de ela não ficar com o marido e ele sentir se obrigado a devolver tudo. Eis uma parte do diálogo:
_”O que vocês pretendem que eu faça com isso que trazem para mim? Que eu guarde?
_Não, vista a roupa, beba o vinho e coma o dinheiro, eu vou ficar no lar papa
_Hás de ficar por lá a trabalhar por este dinheiro que eu vou comer?
_Vou ficar pai, até eu morrer.
_Eu vou comer este dinheiro e vestir estas roupas até se rasgarem, nunca terei outras para substituir, tu filha, deveras ficar por causa destas coisas”
Aqui a noiva, poucas vezes volta ao seu local sem sair lágrimas. Aceites, os presentes saúdam a aceitação por um kulunguana.
Depois, o casal continua a entregar as outras coisas aos outros destinados (mãe, tias, avos, etc), os quais não fazem nada senão agradecer e desejar boa sorte e felicidades, já que o pai já entregou a sua filha.
Entregues todas as coisas, o a tia ou irmã do noivo vai vestir a noiva enquanto o pai vai vestir o seu novo fato e a mãe o seu mucume. As outras pessoas também vestem suas roupas e voltam cantando ao local esperar da menina que saíra bonita da palhota. Quando chegar, o noivo levanta-se e pega pela mão a sua noiva, promete lhe casamento colocando lhe uma aliança no dedo (por causa da globalização). É tradicional dar lhe um presente que pode ser um lenço de cabeça, um colar, chávena bonita ou outro bem.
Faz se um outro kulunguana e abraços. O orador (normalmente é um tio ou genro mais velho do pai da noiva) apresenta a família da noiva (pais com seus irmãos; avos; tios, primos, sobrinhos e aí por diante). Cada grupo que é apresentado explica muito bem a sua relação com a família da noiva e que precisa muito de ser respeitada pelo seu genro. Depois um elemento da família da noiva, começando por si mesmo, apresenta também os seus elementos. Este acto termina, com uma conversa livre em que os presentes lembram se de encontros anteriores (na tropa, escola, etc) e contam relações existentes entre as duas famílias antes do casamento. Em todos casamentos as famílias parecem estar em situações de incesto, porque o Moçambicano é familiar de todo moçambicano, isto é, quando rezar a sua saga, encontra nos antepassados mais antigos uma coincidência. Essas familiaridades contribuem muito para que os jovens casados não destruam as amizades antigas entre as famílias trazendo milandos com o divórcio. Eles devem manter se unidos por sempre valorizando as amizades antigas entre as famílias.
 
As apresentações, conversas e estórias terminam quando o momento de todos chega. As comidas estão prontas e os prestigiados vão a mesa e outros serão servidos nos pratos. As noras são muito hábeis hoje, é um dia de festa e querem dar uma impressão de ser uma família de bons hábitos e que conhece serviço, assim também a cunhada delas vai fazer o mesmo no seu lar. Come se e bebe se. Ninguém deve passar fome. Festa deve ter bastante bebida e bastante comida, alias, o genro também trouxe algumas comidas, apesar de que no lobolo ele não tem lista , esta só aparece no casamento, talves seja por isso que muitos jovens só fazem lobolo se casamento. Medo da lista que começa por um boi ou bois. O pai bebe pouco só para acompanhar o ambiente. Mas está certo que ainda tem muito trabalho. No fim do dia, o mwane (genro) vai pedir ir com sua noiva em casa, neste caso, ele deve falar com os seus defuntos sem se esquecer de nenhum nome de cada um deles que são muitos. Por isso, álcool esquece muito e tira responsabilidade, ou então o genro só sairá no dia seguinte quando o seu pai estiver livre das bebidas.
 
Chegada a hora, um individuo da família do noivo, depois de concertar com o pai do noivo e tios, vai informar o irmão ou cunhado mais velho da noiva (que preside a cerimonia) que está na hora de partirem por ser já tarde e irem longe. Este concorda e vai informar ao pai da noiva que dá instruções para se ir no local certo com o genro, noiva tios de ambos e pais. O pai da noiva começa as evocações que se resumem em:
“Da licença, sou eu o vosso filho que ficou atrás de vos para vos representar aqui na família. Peço que me ouçam neste momento.”
Despeja as bebidas no chão e diz:
“Você (fulano) com você (fulano)…. E ai por diante vai enumerando todos os seus defuntos, começando por aqueles que em vida foram muito notáveis na família. Sim, porque acredita se que estes continuam a interceder pela família mesmo do outro lado da vida.
Vos chamo para vos dizer que fulano, a vossa neta fulano wa fulano (Fulano, filho de fulano – aqui ele fala os nomes locais, porque as pessoas têm dois nomes, o nome civil (que é do baptismo religioso) e o nome tradicional (que é do baptismo tradicional e conhecido pelos defuntos, normalmente é nome de um defunto que pediu para ser chamado num filho de alguém e é este defunto que dá sortes para o seu chará).
Eu fulano, já recebi os fulano (saga do genro) que pedir a vossa neta como lata de agua. Ele vos deu estas bebidas (deita mais um pouco de bebidas), recebi este dinheiro (coloca o dinheiro no chão que só será tirado no dia seguinte pela mesma pessoa que o colocou num ritual que ele conhece e que foi transmitido pelos seus pais).
Que eu tenha recebi para o bem e tranquilidade, que este lobolo transcenda o mundo e seja reconhecido no norte e no sul, que sopra o vento e os vossos netos fiquem firmes, que se alguém lhes tentar fazer o mal, parta se a sua própria perna e eles vivem saudáveis e felizes. Vocês Fulano e nosso fulano, eu vos peço que se juntem aos defuntos do fulano e lutem juntos pelo bem da vossa neta. Se lhe verem fora a partir de hoje, não fugiu nem foi roubada, ela vai para o lar que vocês deram sorte de homem. Protejam os seus caminhos e cuidem de mim vosso filho, não me deixem errar no que faço em vosso nome.
 Termina numa palavra que é repetida pelos presentes, ainda não sei bem sua tradução, talvez queira dizer “é tudo ou isso mesmo”. É a palavra ndrawu.
 
Depois podem ser acompanhados com recomendações como venham nos ver, não nos esqueçam e muito mais. Aqui muitas vezes a mãe chora por pensar o que espera da sua filha (Submissão, traição, encarrar homem, problemas, solidão do marido que pode trabalhar em contratos fora, desentendimentos com os sogros, etc) A filha também chora, ficam para atrás os mimos e amor de mãe, a liberdade e acima de tudo, ela vai começar nova vida. Boa? Talvez, a verdade é que muita coisa lhe espera. Vou falar mais tarde sobre como ela deverá apresentar se no seu lar desde a chegada até o mínimo da primeira semana e todo o longo tempo até ele ter direito de uma casa para si e seu marido
 
No dia seguinte, o pai e algumas pessoas vão muito cedo consultar aos adivinhos se os seus antepassados ficarão satisfeitos e não existe tentação no dinheiro recebido. Com certeza, há vezes que se recebe dinheiro minado, que tem espírito do mal. O adivinho vai descobrir e recomendar o que fazer.

Publicado por: Francisco Miguel

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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