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Fanzines na cidade - Sobre fanzines criados em João Pessoa

Artes

Fanzines, faneditor, editor, zines, e-zines, João Pessoa, o jeito de se fazer fanzines, histórias, influências, conteúdos.

estudante do curso de Comunicação Social,
com habilitação em Rádio e TV
pela Universidade Federal da Paraíba

João Pessoa – PB, Abril/2008

RESUMO:

Este texto destina-se a apresentar o jeito de se fazer fanzines na cidade de João Pessoa, suas histórias, influências e conteúdos, tomando como base de pesquisa livros e artigos relacionados a este gênero e relatos de faneditores pessoenses sobre suas produções. Apresenta pontos de vista desses editores sobre as publicações do gênero na internet, os chamados e-zines, conceitos e histórico. Além disso, tenta mostrar o quanto pode ser bom trabalhar com esse tipo de mídia e as dificuldades apresentadas durante sua construção e divulgação.

Palavras-Chaves: fanzines, faneditor, editor, zines, e-zines, João Pessoa

INTRODUÇÃO

1. Pode-se conceituar os fanzines?

Tudo a que alguém um dia se destinou a trabalhar em cima, em forma de pesquisa, obviamente, tem ou passou a ter um conceito, uma explicação do ser e do existir e sua significação.

A denominação fanzine, criada em 1941, por Russ Chauvenet, surgiu da contração do inglês fan, de fanatic, que quer dizer fanático, fã de algo, e zine, de magazine, traduzido para o português como revista, jornal, etc., mais precisamente da junção das duas contrações: fan + zine, que seria jornal elaborado por um fã de algo, ou algo que se aproxime disso. Então, pela própria tradução, seria possível ter uma idéia do que é um fanzine, mas o meio não é apenas um jornal feito por fãs de alguma coisa, é muito mais.

O professor, quadrinhista e faneditor Henrique Magalhães, descreve fanzine de forma mais abrangente:

“...é uma publicação independente e amadora, quase sempre de pequena tiragem, impressa em mimeógrafos, fotocópias ou pequenas impressoras ‘offset’, produzidos por fãs isolados, grupos e associações ou fãs-clubes de determinada arte, personagem, personalidade, ‘hobby’ ou gênero de expressão artística, para um público dirigido, podendo abordar um único tema ou uma mistura de vários” (MAGALHÃES, Henrique. O rebuliço apaixonante dos fanzines – João Pessoa: Marca de Fantasia, 2003. p. 27)

Carol Morena, uma jovem “fanzineira”, da qual falaremos mais a frente, em entrevista para a revista eletrônica Overmundo, classificou fanzines como sendo uma mídia “underground” que não circula só neste mundo. É feito para fãs de alguma coisa ou escrito sobre algo do que se gosta. (MARQUES, Renata. Fanzine na mão e no papel. Natal-RN. Em 06 ago 2006. Capiturado em 12 mar 2008 Online. Disponível na internet http://www.overmundo.com.br/ overblog/fanzine-na-mao-e-no-papel).

Além desses conceitos, pode-se acrescentar que se trata de uma publicação sem pretensões nem financeiras, nem de formar opiniões, uma vez que, no geral, sua distribuição é feita de forma gratuita e o seu conteúdo vai ser absorvido por pessoas que já comungam daquela informação, é livre de preconceitos e sua forma e arte gráfica vai depender exclusivamente, ou quase que, do que o seu editor terá em mãos.

Tentou-se também contrair o termo fanatic magazine para fanmag, mas esse segundo não vingou.

2. Dos papéis aos papéis: um breve histórico dos fanzines

Talvez alguém estranhe o título deste tópico, mas, adianto que neste histórico, nos prenderemos apenas ao principal suporte deste tipo de mídia, que inclusive é motivo de discussões até hoje.

Pois bem, os fanzines surgiram no ano de 1930, nos Estados Unidos, quando, sem espaço nos circuitos editoriais oficiais, a ficção cientifica era deixada de lado e, tendo-se a necessidade de divulgar seus trabalhos, os produtores se viram obrigados a “bancar” suas próprias produções e divulgações. Assim eram criados boletins e magazines que logo eram distribuídos entre os fãs daqueles tipos de literatura.

Os três primeiros fanzines registrados foram o “The Comet”, criado por Ray Palmer, o “The Planet”, de Allen Glasser e o “The Time Traveler” editado por Julius Schwartz.

Dos Estados Unidos os “zines” seguiram para a Inglaterra em 1936, levados por dois cidadãos chamados Maurice Handon e Dennis Jacques e só chegaram ao Brasil em 1960, voltados para histórias em quadrinhos. No final dos anos 70, com o crescimento da imprensa alternativa, se expandiram para todo o país e na mesma época, devido a sua cara alternativa, tornaram-se porta-vozes do movimento punk na Inglaterra.

Edgard Guimarães, em artigo publicado na internet diz que No Brasil, “o primeiro fanzine de que se tem registro é o Ficção, criado por Edson Rontani, em Piracicaba, no Estado de São Paulo, no ano de 1965”. Continua que na época não se usava o termo fanzine por aqui, e sim boletim. A palavra fanzine só passou a ser conhecida na década de 70. Edson Rontani manteve contato com outros colecionadores de revistas em quadrinhos para venda e troca das revistas. Edgard conclui que “já no primeiro número, Edson coloca diversos textos informativos e uma importantíssima relação das revistas de quadrinhos publicadas no Brasil desde 1905”. (GUIMARÃES, Edgard. Algo sobre Fanzines. Capturado em 10 mar. 2008. Online. Disponível na Internet http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=41&rv=Literatura – Matéria publicada em 01 mar. 2000 - Ed. 7)

3. Os fanzines em João Pessoa

É praticamente impossível dizer quando, e como, os fanzines chegaram à Paraíba. Muito provavelmente, alguém ousou produzir algo do tipo, ou parecido, dentro do período compreendido entre o surgimento do fanzine (1930) e o rebuliço dos anos 70, com o crescimento da imprensa alternativa, mas, o fato é que consta de uma monografia de um estudante da Universidade Federal da Paraíba que o primeiro fanzine criado em João Pessoa foi o Re-animator Underground Zine, produzido por Bergson Freire, em 1987, incentivado pela revista Rock Brigade. O zine, com nome em inglês, tratava de música pesada, especialmente o heavy metal, o punk rock e o hardcore, tal como falava a revista de rock.

Bérgson foi logo seguido por Jesuíno de Oliveira, que editou e publicou outro zine pioneiro na cidade, o Junkmail. Este segundo seguiu tendência da informatização e se transfomou em e-zine depois da 4ª edição. Jesuíno criou, em 1993, o MusicLand, que abordava essencialmente o cenário da música independente e alternativa nacional e estrangeira do qual também publicou 4 edições. Os primeiros fanzines que influenciaram Jesuino à editar um foram o Midsummer Madness, do Rio de Janeiro, e o Broken Strings de Campinas-SP.

Depois do Re-animator, Bérgson Freire criou um zine que inspirou o que hoje o mundo todo conhece como lista de distribuição pela internet (ou mailling list), que funcionava através da rede universitária BITNET, que abrangia a distribuição de textos de humor de diversos temas, algo realizado bem antes do surgimento da internet comercial em 1995. Depois criou a Oxente Page (http://www.cangaco.com.br), uma continuação do fanzine por e-mail, só que com a parte gráfica (fotos, desenhos...) e que deu muito o que falar. Diversos prêmios nacionais pela criatividade, etc.

Pessoa notadamente renomada por suas publicações, o quadrinhista, escritor e professor da UFPB, Henrique Magalhães, também editou fanzines, dentre eles, o Top! Top! que trazia artigos que enfocavam histórias em quadrinhos, desenhos e produções culturais e entrevistas com pessoas ligadas ao mundo das artes. Henrique Magalhães possui uma editora, Marca de Fantasia, um site na internet com o mesmo nome da editora, e seu zine, por ter uma roupagem diferenciada, produção em escala maior que os fanzines tradicionais, se distancia destes por ter um certo caráter comercial, embora os preços cobrados pelas publicações sejam de alcance de muitos. Por seu sucesso, o Top! Top! já vai na 24ª edição.

Em 2002, uma outra jovem e talentosa fã das artes independentes, Carolina Morena, publicou o seu primeiro zine, chamado de Zona Zine. Todas as 15 edições do seu fanzine, falam sobre o mundo underground, música, humor e festivais. Por todos os lugares em que vai, leva suas revistas e, com elas, faz amigos por toda parte. Cita como principais referências, os fanzines de Gilberto Custodio, de São Paulo, o Esquizofrenia, Renato Silva, Helio Ponciano e Alex, também de São Paulo, o Colateral, e os zines de Fernanda Meireles, de Fortaleza.

Seguindo a tendência de Carol Moreno, Alexandre Santos, conhecido na cidade como Beiçola, publicou três edições do seu fanzine Cultura Aqui, todas falando sobre o que “rola” no mundo da cultura em João Pessoa. Começou um tanto quanto tímido, depois de um trabalho escolar, onde foi sugerido que produzisse uma “revistinha” do tipo. Tomou gosto, conheceu Henrique Magalhães e começou a editar o Da Boca pra Fora, porém, interrompeu a edição para criar o Cultura Aqui. Lançou mão de suas economias, foi atrás de alguns apoios e conseguiu imprimir algumas dezenas de exemplares. Na sua segunda edição, a tiragem passou perto de trezentos, e chegou, com muito suor e dedicação, a impressionante marca de quinhentos exemplares da Edição Três, do Cultura Aqui. Editou um blog com o mesmo nome do seu zine. Agora, retomou os trabalhos para o Da Boca pra Fora e pretende lança-lo ainda no ano de 2008.

Em 2004, Kaleo Santos lançou o Gothic Life Zine, depois de ver um fanzine da cidade de Campina Grande. O Gothic Life fala sobre música, estética, poema e arquitetura e busca informar as pessoas sobre a subcultura gótica. Abre espaços para divulgação de bandas, outros fanzines e eventos. É uma espécie de contribuição dos faneditores Kaleo, Davi e Natan, para a projeção do movimento gótico em João Pessoa. O zine já vai na 4ª edição, com pretensões de lançamento de mais uma no primeiro semestre deste ano.

Outro faneditor conhecido é o Igor, editor do Escarro Cultural, lançado em três edições, com uma quarta por vir. Igor começou a se interessar por fanzines em amostras do gênero. Suas publicações giram em torno de música, cinema, literatura, quadrinhos com resenhas sobre os assuntos e críticas não tendenciosas. Questiona “o que estava a nossa volta e achávamos absurdo”.

No geral, todos os zines produzidos em João Pessoa, falam sobre cultura, música, quadrinhos, enfim, tudo que gira em torno do mundo das artes. Dentro da minha pesquisa, coleta de informações por telefone e por e-mails, uma produção chamou a atenção. É bem a cara da cultura alternativa, bem aproximada da proposta dos zines na Inglaterra, nos anos 70. O Antípoda, criado em 2005. Lenilson Campos, seu editor, ao ser perguntado quando começou a se interessar por fanzines respondeu, por e-mail, que seu fanzine veio por acaso, depois de ele ter um primeiro contato com os movimentos punk e anarquista de João Pessoa, onde haviam assuntos variados, de cunho político, contestações, reflexões pessoais, peomas, etc. e ai se sentiu estimulado a expor suas idéias da sua maneira, sem formas, regras, etc. (CAMPOS, Lenilson. “lenilson_fc@yahoo.com.br” Fanzines urgente‏. 16 mar. 2008. Enviado às 21h44min. Mensagem para: George Martins “ghemartins@hotmail.com”). É um fanzine diferente dos apresentados até o momento, por que fala de política, do ponto de vista de uma pessoa com ideais, ou simpatizante, anarquista. Foi lançado em apenas uma edição e segundo o seu editor, foi feito sem pretensões, e talvez não haja uma outra, ou pelo menos, não há previsão.

Além de um fanzine com ideais anarquistas, é possível, com muito esforço, encontrar produções com teor político, onde o foco seja o socialismo e o comunismo. Contudo, suas tiragens podem ter sido sugadas por capitalistas, fazendo com que não se tenha notícias dessas publicações.

4. Fanzines X e-zines

“Acho que a internet massificou a produção de fanzines, qualquer um pode falar de qualquer coisa a qualquer momento e em qualquer lugar. Isso provoca uma desconfiança da informação, ou seja, uma publicação na internet não é uma fonte confiável como há 20 anos nos fanzines de papel.” (FREIRE, Bérgson. Freire. “zinecorebr@yahoo.com.br” Fanzines. 13 mar. 2008. Enviado às 02h42min. Mensagem para: George Martins “ghemartins@hotmail.com”).

Muita discussão toma conta do ambiente quando alguém fala de fanzine eletrônico para os editores dos fanzines de papel. Como toda discussão sadia, são apontados os pontos positivos e escancarados os negativos, principalmente pelos apaixonados pelos zines de papel, tenham estes experimentados os e-zines ou não.

Carol Morena, ao ser perguntada se achava saudável os zines eletrônicos, respondeu: “Acho saudável sim, mas encaro os chamados e-zines como algo diferente dos fanzines. São válidos, ótimos, sempre acompanho inclusive, mas pra mim não são fanzines. É outra coisa.” (MARQUES, Renata. Fanzine na mão e no papel. Natal-RN. Em 06 ago 2006. Capiturado em 12 mar 2008 Online. Disponível na internet http://www.overmundo.com.br/ overblog/fanzine-na-mao-e-no-papel).

Para a própria Carol, fanzine não é apenas o conteúdo, mas o meio, logo, não considera os e-zines como fanzine: “no meu ponto de vista eles não são fanzines porque já encontraram outro meio de divulgar: a Internet. Zine de verdade é zine feito na mão e no papel.”

Jenuíno de Oliveira diz que os e-zines são uma nova abordagem, um novo veículo com ferramentas em desenvolvimento. Ele cita ainda que a própria internet tem uma caráter anárquico e liberal, fazendo uma comparação com os fanzines tradicionais.

Completa que “tem um alcance maior, mais rápido e de custo mínimo, entretanto você terá o mesmo trabalho de divulgação e até mesmo de fidelidade do leitor devido a imensidão da rede”. Ele lembra, porém que, além disso, temos a linguagem adequada a internet, que é diferente da linguagem para o papel. Diz que há limitação de uma certa camada de leitores da população, usa o termo “exclusão digital” para justificar o que diz e apresenta preocupação com a "industrialização da web" que mastiga tudo para o leitor, inibindo de certa forma seus pensamentos e desejos (OLIVEIRA, Jesuíno. “jesuinoo@gmail.com” Fanzines. 14 mar. 2008. Enviado às 15h16min. Mensagem para: George Martins “ghemartins@hotmail.com”).

Apesar das discordâncias de alguns sobre a apropriação dos fanzines pela internet, nunca é demais lembrar que o alcance pode ser maior com a grande rede e que, de certa forma, o avanço nesse veículo da informação, tem seus pontos positivos, podendo ajudar na divulgação das idéias, ideais e até mesmo dos próprios fanzines.

CONCLUSÃO:

Das formas mais prazerosas de se fazer uma mensagem chegar a outras pessoas, talvez, a se tomar pelo seu modo de confecção, temas, tópicos, ausência de exigência de prazos e periodicidade, os fanzines sejam os que despontam, com anos de distanciamento.

Por se tratar de uma publicação de algo do que se gosta, do que se tem interesse em divulgar, algo que chama a atenção e que é feito para poucos, para pessoas que simpatizam com o que os editores simpatizam, é que os zines encontram fôlego para se sobrepor as mídias alternativas e de massa, ganhando adeptos a todo o tempo, trabalhando o empenho, amor e capacidade intelectual e de organização dos seus criadores, gerando conhecimentos, divulgando idéias, subculturas, mundos que não teriam vez na chamada mídia burguesa e levando ao conhecimento, mesmo que de poucos, do que acontece a sua volta e que muitas vezes é esquecido ou deixado de lado, fazendo, assim, um registro do poder criador das pessoas normais, como nós.

BIBLIOGRAFIA:

MAGALHÃES, Henrique. O rebuliço apaixonante dos fanzines – João Pessoa: Marca de Fantasia, 2003

MAGALHÃES, Henrique. A nova onda dos fanzines – João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004

MARQUES, Renata. Fanzine na Mão e no Papel. Natal-RN. Em 06 ago 2006. Capiturado em 12 mar 2008 Online. Disponível na internet http://www.overmundo.com.br/overblog/fanzine-na-mao-e-no-papel

GUIMARÃES, Edgard. Algo sobre Fanzines. Capturado em 10 mar. 2008. Online. Disponível na Internet http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co= 41&rv=Literatura - Matéria publicada em 01 mar. 2000 – Edição 7

CAMPOS, Lenilson. (lenilson_fc@yahoo.com.br) Fanzines urgente‏. 16 mar. 2008. Enviado às 21h44min. Mensagem para: George Martins (ghemartins@hotmail.com)

FREIRE, Bérgson. Freire. (zinecorebr@yahoo.com.br) Fanzines. 13 mar. 2008. Enviado às 02h42min. Mensagem para: George Martins (ghemartins@hotmail.com)

OLIVEIRA, Jesuíno. (jesuinoo@gmail.com) Fanzines. 14 mar. 2008. Enviado às 15h16min. Mensagem para: George Martins (ghemartins@hotmail.com)

Outros sites pesquisados:

http://www.junkmail.yd.com.br
http://www.oinformativo.com/beicola/
http://www.universohq.com/.../2007/n26062007_06.cfm
http://www.marcadefantasia.com.br
http://www.orkut.com
http://www.wikipedia.com
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fanzine
http://www.overmundo.com.br


Publicado por: George Martins da Silva

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do Brasil Escola, através do canal colaborativo Meu Artigo. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

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